Falando sobre acesso: usos e desusos do SUS pela classe média
Introdução: Acesso é conceito central para efetivação da universalidade do SUS, porém subvalorizado nas publicações do Ministério da Saúde. Há poucas formas de avaliação da qualidade do acesso provido pelos serviços públicos de saúde, e atualmente o acesso ao SUS é visto como excludente. Desde a implantação da Estratégia Saúde da Família, houve melhora no acesso percebido pelos usuários, entretanto, as classes médias permanecem afastadas do SUS, atraídas pela compra de planos de saúde privados. Isso foi observado no território de uma equipe de saúde da família do bairro Grajaú, predominantemente de classe média, cujos moradores recusavam cadastro pela equipe, fenômeno observado em outros bairros no Rio de Janeiro e no Brasil. Objetivo: Levantar e analisar narrativas de recusa ao cadastro e acompanhamento pela Estratégia Saúde da Família por famílias consideradas de classe média. Metodologia: Os dados foram coletados através de entrevistas semi-estruturadas e submetidos à análise temática e conteúdo para dissertação de mestrado profissional em Atenção Primária à Saúde. Discussão: Foram realizadas 8 entrevistas. Percebemos que há um estigma associado ao acesso ao SUS e seus profissionais, que apesar de serem vistos como mais competentes que os dos serviços privados, há confiança na compra do serviço privado, justificada pelo medo da falta de leitos para internação e atendimento de emergência públicos. Além disso, as entrevistadas não se apropriaram do SUS como direito, e notou-se que o exercício da cidadania restringe-se à esfera de serviços privados, salientando-se o direito do consumidor e não do cidadão. Foram propostas mudanças na clínica da família estudada e na organização da Estratégia Saúde da Família para tornar-la mais acessível para as entrevistadas. Atualmente, o Brasil atravessa uma crise política e o SUS resiste sob ameaça de retrocessos. É necessário dar visibilidade às práticas eficazes do SUS para que a população possa apropriar-se dele.