Casos de Saúde Mental: o discurso dos profissionais da ESF
Foi realizado um estudo de natureza qualitativa, do tipo estudo de caso, descritivo-analítico em uma Clínica da Família na zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Com o objetivo geral de estudar os sentidos atribuídos pelos profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF) acerca do que apreendem como “caso” de saúde mental na população adulta do território de sua responsabilidade. A coleta de dados incluiu dois instrumentos: diário de campo e entrevistas semi-estruturadas. Foram entrevistados (22) profissionais: (9) agentes comunitários de saúde (ACS), (5) médicos residentes, (3) enfermeiros, (3) técnicos de enfermagem e (2) médicos preceptores. Utilizou-se a técnica de Análise do Discurso como referencial teórico-metodológico. As denominações utilizadas pelos médicos preceptores para nomear “caso” de saúde mental se relacionaram, principalmente, ao campo da Medicina de Família e Comunidade: sofrimento psíquico e todo caso pode ser um caso de saúde mental. Os médicos residentes utilizaram-se de termos técnicos ou faziam alguma correlação com as categorias nosográficas do campo da psiquiatria. Os enfermeiros também usaram termos técnicos psiquiátricos, exceto em um discurso que trouxe uma visão mais ampliada, correlacionado ao mal-estar da vida. Os técnicos de enfermagem trouxeram uma visão do modo asilar, com ênfase na medicação psicotrópica, dependência e tutela da família, comportamentos estereotipados. Já o agentes comunitário de saúde foi a categoria que menos utilizou termos diagnósticos e trouxe um entendimento mais amplo das várias situações da vida. Mudanças indicativas de transformação da prática clínica foram observadas na Clínica da Família estudada: reunião semanal de equipe com discussão conjunta dos casos; a relação dos profissionais centrada na pessoa e seu núcleo familiar, não na doença; o deslocamento da consulta individual para práticas mais coletivas e desmedicalizantes em grupos.