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Estudos recentes têm demonstrado que o conceito político de pós-abolição pode ser interpretado tanto como cronologia histórica quanto como processo social. Enquanto experiência histórica deve ser compreendido nas dinâmicas sociais, políticas e econômicas que marcaram o fim da escravidão. Caracteriza o pós-abolição a agência social das populações negras na construção de projetos de sociedade, na disputa pelos significados de liberdade, cidadania e direitos, bem como na denúncia das hierarquias raciais que estruturavam a sociedade brasileira. Em diferentes abordagens, a historiografia do pós-abolição concentra-se nos sentidos atribuídos pelas populações negras às formas de viver em liberdade, em cronologias anteriores e posteriores à escravidão. A educação – em suas múltiplas dimensões, formatos e significados políticos – foi uma experiência social profundamente disputada por essas populações. O interesse pela educação como objeto de estudo tem favorecido debates conceituais que situam historicamente seus significados para diferentes sujeitos e grupos em variadas conjunturas. Todavia, observa-se ainda pouco diálogo entre os estudos do campo do Pós-Abolição e a História da Educação, área que, desde a década de 1990, experimenta crescimento, diversificação e renovação, permitindo uma compreensão mais abrangente do espaço histórico-educacional brasileiro. Uma das consequências desse processo foi o surgimento de pesquisas sobre a história da educação das populações negras. Ainda assim, persiste um hiato significativo entre os dois campos, apesar de iniciativas recentes, sobretudo na História da Educação, de promover interlocuções interdisciplinares com a História e outras ciências. A metáfora do “buraco da fechadura”, presente no título da comunicação, refere-se a essas lacunas: uma visão parcial, estreita e fragmentada de uma realidade complexa. Dispositivos teórico-metodológicos da História da Educação raramente aparecem em estudos sobre o Pós-Abolição e, em sentido inverso, nota-se movimento semelhante. Quais razões explicam esses hiatos? O que fundamenta o diálogo limitado entre as pesquisas desses dois campos? E quais possibilidades de aproximação podem ser elencadas? Metodologicamente, a pesquisa consistiu em um balanço historiográfico de resumos de comunicações individuais apresentadas no Seminário Internacional Histórias do Pós-Abolição no Mundo Atlântico (2018, 2022 e 2024) e no Congresso Brasileiro de História da Educação (2019, 2022 e 2024). Considera-se que esse levantamento pode contribuir tanto para problematizar temas consagrados e, por vezes, naturalizados, quanto para abrir novos objetivos e problemas de pesquisa, em ambas as áreas, como: a história da educação das populações negras; a história da educação indígena; a relação entre educação e relações étnico-raciais; teorias, ideologias e racismo na constituição histórica da escola e de suas formas de escolarização; perspectivas decoloniais na História da Educação; entre outros.
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