MUSEUS, IMPÉRIOS E EDUCAÇÃO DO OLHAR: TRÂNSITOS E DISPUTAS PEDAGÓGICAS NA EXPOSICIÓN DEL PACÍFICO (1866)

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Resumo

Esta pesquisa, apoiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), investiga a Exposición del Pacífico, realizada no Real Jardim Botânico de Madrid entre 15 de maio e 19 de junho de 1866, como parte do projeto político-educacional da Coroa espanhola no século XIX. Ao debruçar-se sobre este evento, busca-se problematizar de que modo instituições científicas se constituíram em dispositivos de poder e em práticas educativas do olhar. Esses dispositivos operaram a partir das coleções recolhidas pela Comissão Científica do Pacífico (1862–1865) em diferentes territórios da América do Sul, incluindo o Brasil, e foram ressignificadas em contextos transnacionais de circulação e apropriação. A exposição foi um acontecimento cultural e político que condensou relações assimétricas entre educação e poder imperial, constituindo-se em uma disputa pedagógica entre saber científico e colonialidade. Nesse sentido, a investigação procura evidenciar como objetos, sujeitos e saberes em trânsito se converteram em instrumentos pedagógicos, organizados em narrativas visuais de “civilização” e em roteiros de autoformação imperial. O eixo teórico-metodológico da pesquisa articula história da educação, história cultural e estudos decoloniais. O ponto de partida é a problematização dos mecanismos de apagamento das vozes indígenas e dos conhecimentos locais que foram silenciados e subsumidos sob a hegemonia epistêmica europeia. A análise centra-se na materialidade da exposição como “roteiro pedagógico” de autoformação imperial, evidenciando a hierarquização entre ciência europeia e cosmologias ameríndias. As fontes mobilizadas incluem diários e cartas de Juan Isern Batlló y Carrera, relatórios oficiais, periódicos como El Museo Universal e La Gaceta de Madrid, além de registros fotográficos de Rafael Castro y Ordóñez. A metodologia articula análise documental com aportes de Shiv Visvanathan, Tony Bennett, Nicholas Thomas, Kapil Raj e Walter Mignolo, permitindo compreender tanto as redes assimétricas de circulação e apropriação de saberes quanto a função educativa e disciplinar dos complexos expositivos. Os resultados demonstram que a Exposición del Pacífico constituiu-se como uma máquina narrativa e sensorial que consolidou políticas imperiais por meio da educação do olhar e do sentir. O estudo parte da hipótese de que o museu e o jardim botânico funcionaram como arenas educativas que, sob o discurso do progresso científico, instauraram práticas de epistemicídio e necropolítica, ao mesmo tempo em que fabricaram um olhar disciplinado para a ciência e para a natureza colonizada. Contudo, ao serem relidas criticamente, essas coleções podem abrir caminhos para pensar uma museologia decolonial e novas formas de restituição de vozes e saberes silenciados.

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Instituições
  • 1 Universidade Federal de Campina Grande
Eixo Temático
  • 11- Processos educativos e práticas de sociabilidade não-escolares
Palavras-chave
Comissão Científica do Pacífico
educação do olhar
museologia crítica