"E na prática, a teoria é outra?": o Projeto IPÊ e a construção das orientações docentes na década de 1980.

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Resumo

O presente trabalho integra uma pesquisa documental sobre currículos e materiais didáticos produzidos pela rede pública do Estado de São Paulo na década de 1980. A partir da análise desses documentos, buscou-se compreender de que modo os agentes envolvidos na elaboração curricular (secretarias, assessores, equipes técnicas e professores) apropriavam-se de teorias sobre alfabetização ao construir orientações e recursos escolares. Para esta comunicação, focalizamos o manual de orientação destinado a docentes do ensino fundamental, intitulado Isso se aprende com o Ciclo Básico, integrante das ações do chamado Projeto IPÊ - um programa de formação e produção de materiais que ganhou expressividade no estado ao longo da década de 1980 e articulou parcerias institucionais para apoiar o trabalho docente e promover inovação pedagógica. Pesquisas sobre documentos oficiais da Secretaria de Educação de São Paulo nesse período evidenciam a presença marcante da Psicogênese da Língua Escrita, formulada por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, como referência teórica central na organização curricular e na orientação didática da rede. Tal circulação esteve associada a um momento de forte investimento em renovação pedagógica, em que se buscou alinhar práticas de alfabetização às discussões contemporâneas sobre construção ativa do conhecimento pela criança. Chama-nos a atenção, contudo, que a incorporação dessa teoria nos materiais curriculares ocorreu de modo heterogêneo: as formulações da Psicogênese eram assimiladas, simplificadas, reinterpretadas ou combinadas a concepções anteriores, revelando a complexidade dos processos de apropriação e recontextualização de saberes acadêmicos no interior das políticas públicas. Interessa-nos, neste estudo, utilizando a Análise da Configuração Textual e aportes da História Cultural, compreender como essas reelaborações se explicitam no documento de orientação didática e, especialmente, no texto "E na prática, a teoria é outra", constante do documento e formulado por uma das maiores propagadoras do construtivismo em alfabetização no Brasil, a pesquisadora Telma Weisz. A investigação combina análise documental e revisão bibliográfica, buscando identificar estratégias discursivas e pedagógicas que caracterizam o manual, bem como compreender como determinadas concepções de alfabetização são mobilizadas, negociadas ou tensionadas no processo de formação de professores. Ao examinar essas operações, pretendemos contribuir para a compreensão de como políticas curriculares produzem sentidos sobre ensinar e aprender, especialmente em períodos de transição teórica e metodológica.

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Instituições
  • 1 Universidade Federal de São Paulo
Eixo Temático
  • 6- Disciplinas escolares e ensino de história da educação
Palavras-chave
Currículo
História da Educação
Alfabetização