Dona Henriette e a Summerhill da Guanabara

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Resumo

Durante o Regime Militar brasiliero (1964-1985), a professora Henriette Amado foi diretora do Colégio Estadual André Maurois (CEAM). Esta unidade escolar, inaugurada em 1966 no Estado da Guanabara, implementou uma proposta curricular apoiada em três vertentes: a educação moderna, as classes secundárias experimentais e a pedagogia livre não-diretiva. Henriette Amado defendia o lema “liberdade com responsabilidade”, em referência às ideias de Jean Piaget, Lauro de Oliveira Lima e Alexander Sutherland Neill, da Summerhill School, na Inglaterra. As turmas do colégio eram tidas como “grupos de expressão criadora”, grupos esses que, além de cumprir os programas oficiais, desenvolviam atividades de teatro, fotografia, cinema e a criação de um jornal. Também eram oferecidas aulas de francês em laboratórios montados pela Embaixada da França. Várias dessas experiências pedagógicas foram criticadas por segmentos tradicionais da sociedade carioca, como a Igreja, educadores e famílias conservadoras, que se viam fortalecidos pela maquinaria da ditadura civil-militar. Henriette Amado foi pressionada pela secretaria estadual de Educação por suas disposições pedagógicas renovadoras, bem como por seu enfrentamento às ações repressivas do Estado. Henriette era casada com Gilson Amado, que se destacaria como precursor da tele-educação no país; e era cunhada de Gilberto Amado, diplomata, e de Gildásio Amado, que chefiava a Diretoria do Ensino Secundário do Ministério da Educação e Cultura. Paralelamente às relações familiares, ela tinha o apoio de três secretários de educação e um desembargador da Guanabara, além de um ministro que foi signatário da Lei de Diretrizes e Bases de 1961. Essas conexões entre as camadas de poder não impediram que Henriette Amado fosse presa em 1971, sob acusação de comunismo e de estimular o uso de drogas ilícitas no colégio. Este trabalho visa discutir o violento processo de repressão imposto pelo regime militar à Henriette Amado e ao currículo experimental do CEAM, entre 1966 e 1971. Para tanto, tomaremos por base os conceitos de habitus e capital social e os estudos de Certeau. No plano metodológico, propomos uma abordagem qualitativa centrada na micro-história para examinar três livros de memória de Henriette Amado, notícias publicadas em periódicos de grande circulação e inquéritos administrativos e policiais que se encontram no Arquivo Nacional. Os resultados obtidos mostram que currículo experimental do CEAM existiram por uma brecha, que não foi não foi suficiente para evitar a desarticulação do trabalho de Henriette, a partir dos fortes recursos repressores que o Estado ditatorial possuía. Em 1971, ela respondeu a uma Comissão Parlamentar de Inquérito e, como se recusou a colaborar com o Regime, foi presa, torturada e afastada de suas funções no CEAM.

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Instituições
  • 1 Colégio Pedro II
Eixo Temático
  • 2- Intelectuais e projetos educacionais
Palavras-chave
Henriette Amado
Colégio Estadual André Maurois
educação moderna
classes secundárias experimentais
pedagogia livre não-diretiva