Cultura, etnotexto e ensino: a formação docente em interfaces com o quilombo do Curiaú

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Resumo

Este artigo analisa a narrativa “A Criança Bonita”, integrante da obra “Curiaú: a marca de uma geração” (2015) do autor Sebastião Menezes da Silva. Conhecido como Sabá do Curiaú, é mestre de cultura, agente político da Comunidade e autor. Por suas múltiplas funções sociais e saberes, é considerado um intelectual quilombola (França e Nery, 2018). Sua trajetória funde-se nos papéis comunitários, na sabedoria ancestral e na produção literária. O artigo, debruçando-se sobre a narrativa, correlaciona aspetos culturais e estéticos (Loureiro, 2015) ao papel de Seu Sabá como uma liderança que corporifica as lutas pela valorização dos saberes cultural e tradicional locais. O estudo assume uma abordagem qualitativa analisando aspectos socioculturais e históricos, tendo como objetivo demonstrar a perspectiva triangulada: educação, pedagogia e cultura, no âmbito da formação docente situada na realidade sociocultural da comunidade quilombola de Curiaú. A metodologia busca articular as pedagogias culturais às análises sociolinguística e literária, dialogando com a práxis do mestre/autor, observada em aula de campo realizada em Curiaú em 2025. A fundamentação teórica ancora-se em Walter Benjamin (1926) e o "palco" estético do livro infantil, na teoria da imagem de Peter Burke (2017), na poética do imaginário na cultura amazônica (Loureiro, 2015), nas pedagogias culturais (Andrade e Costa, 2017), nos etnotextos (Bouvier, 1992, 1997; Pelen, 1986) em interface com o domínio da escrita (Oliveira, 2006) e a atitude crítica de Sabá ao relatar o "vício no documento”, através do qual denuncia a prática de distorção da realidade quilombola que ignora as vozes subalternizadas. O estudo revela a coexistência da voz política/ativista do Sabá do Curiaú e sua escrita literária, que se consolida na etnoliteratura do autor Sebastião Menezes da Silva. São textos que operam como uma tecnologia de resistência e sobrevivência e traduzem-se no domínio de gêneros burocráticos e na criação de uma estética negra que subvertem a exclusão social, cultural e autoral. Torna-se evidente a interface entre o agente comunitário e o escritor, onde a funcionalidade da língua e a necessidade comunicativa prevalecem sobre a pressão hegemônica do padrão social, cultural, literário e linguístico. O estudo nos permite afirmar, portanto, que as três vertentes do Sabá, o agente político, o mestre de cultura e o autor, fundem-se no lugar/voz social que permite identificar o conhecimento local como autoridade epistemológica. A abordagem triangulada configurou-se instrumento da formação docente crítica e interdisciplinar, valorizando literaturas não canônicas e ensinos que extrapolam conteúdos hegemônicos. Essa abordagem de ensino permitiu protagonizar uma formação docente situada culturalmente, consolidando-se um instrumento de formação de consciência, de (re)existência e resistência, bem como de reconhecimento das identidades minoritárias no cenário político-cultural da amazônia amapaense.

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Instituições
  • 1 Universidade Estadual do Amapá; UEAP; Universidade Estadual do Amapá
  • 2 Universidade Estadual do Amapá
Eixo Temático
  • 4- Formação e profissão docente
Palavras-chave
Curiaú
Pedagogias culturais
Formação docente
Etnotexto