DISTRIBUIÇÃO E CONCENTRAÇÃO DE CARBONO NEGRO E MERCÚRIO EM UMA LAGOA CONTINENTAL TROPICAL, SUDESTE DO BRASIL

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Resumo

A Mata Atlântica vem sofrendo alterações intensas pela substituição da vegetação nativa (C3) por pastagens e plantações de cana-de-açúcar (C4), geralmente associadas a práticas de corte e queima. Esses processos alteram a composição da matéria orgânica (MO), gerando o carbono negro (BC), uma forma termicamente alterada e persistente de MO. Além disso, essas práticas podem liberar mercúrio (Hg) acumulado nas plantas. Ambos podem ser transportados por longas distâncias e se depositar em corpos d’água, afetando ecossistemas aquáticos. Diante disso, este estudo teve como objetivo avaliar as fontes de MO e as concentrações de carbono negro dissolvido (DBC) e mercúrio dissolvido (HgD) na Lagoa de Cima (Campos dos Goytacazes – RJ), cuja vegetação original foi amplamente substituída por pastagens e áreas agrícolas. Para isso, foram coletadas amostras de solo e vegetação em áreas de pastagem, cana-de-açúcar e vegetação nativa (5 amostras por área). Na lagoa, foram coletadas amostras de água e sedimento superficial em 14 pontos. A água foi filtrada (< 0,7 µm) para separação do material particulado em suspensão (MPS) e dissolvida, com quantificação do carbono orgânico dissolvido (COD), extração pela metodologia SPE-COD e ultrafiltração (< 1 µm e < 1 kDa). O sedimento foi peneirado e normalizado para fração < 2 mm. Todas as amostras foram analisadas quanto à composição isotópica (δ13C e δ15N). O DBC foi determinado por meio do método BPCA, e o HgD por digestão com BrCl, seguida de análise no Tekran 2600. Os valores médios de δ13C e δ15N nas frações dissolvidas foram de -27,4 ± 0,2 ‰ e 1,9 ± 0,7 ‰, respectivamente, indicando predominância de fontes C3. O MPS apresentou δ13C de -27,6 ± 0,6 ‰ e δ15N de 4,6 ± 0,4 ‰, valores típicos de fitoplâncton de água doce. Quanto a matriz sedimentar, que reflete o acúmulo histórico da MO, houve um enriquecimento isotópico do 13C (δ13C: -26,0 ± 0,7 ‰; δ15N: 4,1 ± 1,0 ‰), relacionado às mudanças no uso do solo. Apesar da predominância de fonte C3 na MO das matrizes, o modelo de mistura de duas fontes indicou contribuição significativa da vegetação C4, com maior influência no sedimento (27 ± 4%). As concentrações de COD variaram de 694 a 1271 µmol/L, de DBC entre 3,9 e 71,7 µmol/L e de HgD entre 0,08 e 1,57 ng/L. As maiores concentrações de COD foram observadas na entrada dos rios Urubu e Imbé, relacionadas ao aporte fluvial e macrófitas. O DBC nessa região pode estar relacionado à lixiviação de BC de solos de pastagem, intensificada por inundações. Já o HgD apresentou maiores concentrações no final da lagoa, possivelmente devido à sedimentação da fração particulada nas áreas iniciais e ao transporte da fração dissolvida até a porção final. A razão B6CA:B5CA, indicadora do grau de condensação do DBC, diminuiu em direção ao leste, sugerindo fotodegradação das frações mais aromáticas. A distribuição espacial de DBC e HgD indicam que esses compostos são transportados por mecanismos diferentes. Enquanto o DBC é gerado principalmente pela queima incompleta da vegetação, o Hg pode ter diversas origens, como atividades industriais e mineração. Esses resultados apontam que o uso da terra pode alterar a composição da MO, como observado pela influência de ~27% de vegetação C4 nas amostras de sedimento, além de gerar BC. Essas mudanças impactam negativamente a qualidade do ecossistema, ressaltando a necessidade de monitoramento em áreas sob pressão antrópica.

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Instituições
  • 1 Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)
  • 2 Leibniz Institute for Baltic Sea Research
Eixo Temático
  • ST-05 - Hidrogeoquímica, geoquímica de solos e contaminação
Palavras-chave
MATÉRIA ORGÂNICA
CARBONO NEGRO
MERCÚRIO