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Introdução
No contexto do Antropoceno — que propõe uma era marcada por intensos impactos humanos nos sistemas naturais — os microplásticos (< 5 mm; MPs) têm sido discutidos como marcadores sedimentares da ação antrópica. Os manguezais, ambientes costeiros altamente produtivos e que são fundamentais para a biodiversidade, sequestro de carbono e a manutenção de comunidades tradicionais estão entre os ecossistemas mais vulneráveis à poluição por MPs. Assim, este estudo teve como objetivo caracterizar o estoque de MPs nos sedimentos do manguezal da Baía de Vitória (ES), influenciado por áreas urbanas, industriais e portuárias, compreendendo a extensão da contaminação por microplásticos.
Método
Uma amostra de 50 cm de profundidade foi obtida por testemunhador russo de aço inox e estratificada a cada 2 cm até 10 cm e a cada 5 cm até 50 cm, e frações armazenadas em marmitas. Após congelamento e liofilização, as amostras (5 g) foram submetidas à dupla extração por densidade com solução de ZnCl₂ (1,6 g/mL), agitadas e centrifugadas (4500 rpm, 150 min), com sobrenadante filtrado (fibra de vidro, 0,7 µm). Amostras com matéria orgânica excessiva passaram por degradação com H₂O₂ (30%) e secagem (50 °C/24 h). MPs foram triados em lupa binocular e classificados por cor, formato (fibra, pellet, fragmento, filme, espuma, borracha ou tinta) e tamanho. Protocolos foram adotados para evitar contaminação, incluindo o uso de jaleco de algodão, luvas de nitrila, materiais de vidro pré-lavados, soluções filtradas e controles brancos durante todo o processo analítico. As análises estatísticas incluíram Shapiro-Wilk, Levene, Kruskal-Wallis, Dunn e Qui-quadrado utilizando software R.
Resultados
A concentração total de MPs variou de 0 a 7000 MPs/kg de sedimento seco (1871±938 MPs/kg), com o estoque total de MPs equivalente a 12200 MPs/kg, e acumulado de 9000 MPs/kg nos 10 primeiros cm, 800 MPs/kg de 10 a 20 cm, 600 MPs//kg de 20 a 30 cm; 400 MPs/kg de 30 a 40 cm e 1400 MPs/kg de 40 a 50 cm. O maior acúmulo (p-valor<0.05) ocorreu na profundidade entre 4-6mm (7000 MPs/kg), seguido de 1400 MPs (45-50 cm) e 1000 MPs e (2-4cm). O topo (0-2cm) não registrou ocorrência de MPs. Predominaram fibras (n=41, 67.2%), fragmentos (n=16, 26.2,3%) e filmes (n= 4, 6.65%). As cores mais comuns foram azul (n=20, 32.8%), transparente (n=11, 18%) e vermelho (n=8, 13.1%). A composição polimérica se distribuiu entre poliéster (n=29, 47.5%), polietileno-clorado (PEC) (n=9, 14.8%), polietileno (PE) (n=7, 11%), polipropileno (n=4, 6.56%), nylon 6 (PA6) (n=1, 1.64%) e álcool polivinílico (PVA) (n=1, 1.64%). A distribuição de tamanhos é significativamente diferente (p-valor<0.05) entre as classes analisadas, com média e desvio padrão de 1.049 ± 3.807 mm. A distribuição entre classes se deu conforme: 0-1 mm (n=95, 77.9%); 1-2 mm (n=15,12.3%); 2-3 mm (n=5, 4.10%); 3-4 mm (n=4, 3.28%) e >6 mm (n=3, 2.46%).
Conclusão
Os resultados evidenciam uma significativa presença de MPs nos sedimentos do manguezal da Baía de Vitória, com destaque para o acúmulo em camadas superficiais (4–6 mm) e possível migração para camadas mais profundas (45-50cm), com características que sugerem múltiplas fontes de contaminação, principalmente associadas a resíduos urbanos e efluentes. A prevalência de fibras de poliéster aponta para o papel de tecidos sintéticos como importante fonte de MPs. O estudo amplia o entendimento da poluição plástica em estuários urbanos e destaca a importância do monitoramento contínuo.
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