AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS SUPERFICIAIS E A RELAÇÃO COM USO E OCUPAÇÃO DO SOLO NO QUADRILÁTERO FERRÍFERO - MG

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Resumo

RESUMO

As águas superficiais desempenham um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas e no suprimento das demandas humanas, mas sua qualidade vem sendo cada vez mais comprometida por pressões antrópicas. Este estudo avalia a dinâmica espaço-temporal da qualidade da água superficial no Quadrilátero Ferrífero e sua relação com o uso e ocupação do solo. Um total de 1.680 amostras de água foram coletadas durante as estações seca e chuvosa. O Índice de Qualidade da Água (IQA) foi calculado com base na metodologia do IGAM, e as classes de uso do solo foram obtidas a partir dos dados do MapBiomas. Os resultados indicaram uma piora na qualidade da água em áreas com intensa atividade antrópica, especialmente nas zonas urbano-industriais e de mineração, classificadas predominantemente como “regular” ou “ruim”. Em contraste, áreas florestadas e naturais apresentaram valores de IQA classificados como “bom” a “excelente”. A estação chuvosa acentuou o transporte de poluentes nas regiões antropizadas devido ao aumento do escoamento superficial. Apesar de o IQA-IGAM captar bem as variações sazonais, apresentou limitações quanto à presença de metais pesados. O estudo destaca a importância da vegetação nativa na retenção de poluentes e preservação da qualidade hídrica. Recomenda-se uma abordagem integrada, combinando diferentes metodologias de cálculo de IQA para melhorar a precisão das avaliações.

Palavras-chave: Qualidade hídrica; Uso do solo; Impactos Antrópicos; Quadrilátero Ferrífero; Águas superficiais

INTRODUÇÃO

As águas superficiais desempenham papel essencial na manutenção dos ecossistemas e no abastecimento humano, sendo sua qualidade um tema crítico frente aos crescentes impactos antrópicos (Chapman, 2021; Uddin et al., 2022; Chidiac et al., 2023). O uso de indicadores como o Índice de Qualidade da Água (IQA) permite avaliar a integridade dos corpos hídricos por meio de parâmetros físicos, químicos e biológicos (Dascalescu et al., 2017; Behmel et al., 2016). No entanto, a crescente poluição por efluentes domésticos, industriais e agrícolas tem comprometido a disponibilidade de água para múltiplos usos (Lumb et al., 2011; Omer, 2019). A aplicação do IQA em diferentes contextos ainda enfrenta desafios metodológicos, mas oferece subsídios importantes à formulação de políticas públicas (Uddin et al., 2022; Chidiac et al., 2023).

No Quadrilátero Ferrífero (QF), a intensa atividade mineradora e agropecuária afeta significativamente a qualidade das águas, com destaque para a liberação de metais pesados e aumento excessivo de nutrientes (Vicq et al., 2015; Weber et al., 2017; Chapman, 2021). O desmatamento e a urbanização não planejados agravam o cenário, elevando a turbidez e a carga poluidora dos rios (Shil et al., 2019; Uddin et al., 2022). Embora existam estudos pontuais na região (Piazi et al., 2018; Fraga et al., 2021), ainda são limitados os trabalhos com abordagem regional e integrada.

METODOLOGIA

Este estudo busca preencher essas lacunas, avaliando a eficácia do IQA na caracterização espaço-temporal da qualidade hídrica e avaliar como diferentes classes de uso e ocupação do solo podem influenciar a qualidade da água superficial nos rios do QF. Para abranger toda a região do QF e seu entorno, foram selecionadas 864 microbacias com área média de 25 km², a partir de Modelos Digitais de Elevação (MDE). No total, foram coletadas 835 amostras de água superficial no período chuvoso (jan-abr/2023) e 845 no período seco (ago-out/2022). A metodologia proposta pelo IGAM foi utilizada para o cálculo dos índices de qualidade da água, considerando as variações sazonais. Foram propostas também classificações de uso do solo, levando em consideração dados primários obtidos através do Mapbiomas – coleção 9 (2023): Florestas Predominantes, Áreas Naturais Diversas, Múltiplos Usos, Silvicultura com Floresta Nativa, Predominância de Pastagem, Pastagem com Áreas de Cultivo, Mineração Significativa, Híbrido com Influência de Impactos Antrópicos e Áreas Urbanas-Industriais.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados obtidos (Fig. 1) mostraram que a qualidade da água é pior próximas a locais mais populosos e apresentam sensibilidade às variações sazonais, revelando uma pior qualidade durante o período chuvoso. Nas avaliações da relação entre o índice de qualidade da água com o uso e ocupação do solo pode ser observado uma maior amplitude nos dados entre áreas naturais e áreas antropicamente impactadas. Áreas com cobertura florestal nativa e áreas naturais diversas apresentaram os melhores índices de qualidade da água, classificados majoritariamente como "boa" e "excelente". Em contraste, áreas com influência antrópica, como pastagem, áreas de cultivos e mineração exibiram classificações como “boa” e “regular”. Por sua vez, áreas híbridas com impactos antrópicos e áreas urbano-industriais apresentam um declínio considerável, sendo classificadas em sua maioria como “regular” e “ruim”. Isso pode ser justificado devido a diversos fatores como a pressão demográfica, a urbanização acelerada, as atividades industriais e mineradoras, as deficiências no saneamento básico e os impactos das mudanças climáticas são os principais responsáveis pela degradação dos recursos hídricos. A análise integrada do IQA em conjunto com as classificações de uso e ocupação do solo evidenciaram que a cobertura florestal e as áreas naturais são fundamentais para a manutenção da qualidade da água, funcionando como barreiras físicas e biogeoquímicas ao transporte de poluentes. A predominância de usos como pastagem, agricultura e mineração indicam uma vulnerabilidade à eutrofização e outros processos de degradação. O período chuvoso destacou a fragilidade dos sistemas antropizados, pois o escoamento superficial aumenta consideravelmente, promovendo o carreamento de poluentes para os corpos hídricos.
 

CONCLUSÃO

Os resultados evidenciam que a qualidade das águas superficiais no Quadrilátero Ferrífero está intimamente relacionada ao uso e ocupação do solo, com destaque para a degradação hídrica em áreas mineradas e urbanizadas. A metodologia de IQA proposta pelo IGAM, embora eficaz em captar variações sazonais e espaciais, apresentaram limitações diante da presença de metais pesados. A preservação da vegetação nativa demonstrou papel crucial na manutenção da qualidade da água, reforçando a necessidade de ações integradas de recuperação ambiental, controle de poluentes e planejamento territorial. Diante disso, se torna mais adequado um índice que englobe parâmetros contidos no CONAMA 357 - Classe 2, como o cálculo proposto pelo CCME, metodologia caracterizada por sua flexibilidade e capacidade de incluir parâmetros críticos para a região. Assim, conclui-se que para uma melhor avaliação da qualidade das águas superficiais no Quadrilátero Ferrífero é necessário uma abordagem integrada, que combine diferentes metodologias analíticas e estatísticas, as quais, de forma complementar, proporcionam uma caracterização mais abrangente dos processos naturais e dos impactos antrópicos atuantes. Essas medidas aliadas a políticas públicas eficazes, são essenciais para a gestão sustentável dos recursos hídricos da região.

 

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Instituições
  • 1 Vale Technological Institute
  • 2 Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM)
  • 3 Universidade Federal Fluminense
Eixo Temático
  • ST-05 - Hidrogeoquímica, geoquímica de solos e contaminação
Palavras-chave
Qualidade hidríca
Uso do solo
Impactos antrópicos
Quadrilátero Ferrífero
águas superficiais