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Dada sua prevalência na história humana, e centralidade na constituição da experiência ambiental de nossa espécie ao longo de milênios, a caça sempre foi um tópico de interesse nos campos da ecologia cultural, arqueologia, ecologia humana e áreas correlatas. Na Amazônia, enquanto fonte de calorias e proteínas, ela também esteve no centro dos principais debates do século XX sobre ocupação humana, ecologia e complexidade social na região. No âmbito do debate conservacionista, a caça aparece como um dos vetores de extinções locais de espécies. No Brasil, e na Amazônia em particular, os papéis da caça na soberania alimentar das populações rurais e no abastecimento de mercados consumidores de fauna silvestre no contexto urbano, ainda são pouco conhecidos. Paralelamente, o sistema legal que normatiza a caça no Brasil é fragmentado, desarticulado e ambíguo, o que dificulta sua regulamentação e controle considerando os diferentes graus de exploração e contextos sociais em que ocorre. No interior de sistemas cosmológicos de sociedades indígenas ou tradicionais, a caça também se insere em concepções ontológicas, em particular sobre a relação entre humanos e não humanos, que destoam sobremaneira do pensamento ocidental hegemônico. Na Amazônia, etnografias indígenas têm legado significativas contribuições para esse debate. Também é possível identificar elementos de uma práxis de caça entre sociedades ribeirinhas (ou caboclas) amazônicas, fruto da confluência de forças ecológicas, econômicas, culturais e sociais de difícil compartimentalização analítica. Seja pelo terreno movediço de suas motivações individuais ou culturais, ou pelos riscos e oportunidades nela implicados, a caça se coloca como um problema, tanto de pesquisa como prático, que demanda múltiplos olhares, disciplinas e abordagens analíticas. Nesta apresentação proponho uma reflexão sobre a caça na Amazônia sob dois ângulos distintos: (1) pela ótica da ecologia e do debate conservacionista; (2) e pela lente de uma antropologia desenvolvida na região voltada aos contextos indígena e de comunidades ribeirinhas. A primeira oferece ao debate valiosas informações sobre a intensidade da caça na Amazônia em suas múltiplas escalas espaço-temporais, bem como suas interações com outros fenômenos ambientais críticos em curso na região, como o desmatamento. A segunda, nos permite reconhecer nela uma atividade que conecta muitas camadas da experiência humana no ambiente, da práxis cotidiana às normas sociais, da cosmologia a um “estar no mundo” que desafia tentativas puramente naturalistas de abordar a questão.
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