Será o "Elos –Construindo Coletivos", de fato, um programa de prevenção universal?
O Programa Elos – Construindo Coletivos é resultante da adaptação para as escolas brasileiras do programa de prevenção em saúde mental infantil de origem norte americano Good Behavior Game, dirigido para crianças de 6 a 10 anos do ensino fundamental. O GBG tem comprovada evidência na diminuição de comportamentos de agressividade, disruptividade e isolamento social. Tais efeitos permanecem ao longo da trajetória de desenvolvimento, com impactos em futuros comportamentos antissociais, como abuso de drogas e comportamentos sexuais de risco, funcionando como um fator de proteção pessoal, comprovado através de estudos de seguimento, sendo considerado, portanto, uma espécie de vacina comportamental. A discussão aqui proposta será realizada a partir dos resultados da análise da eficácia do programa Elos em 2016. O estudo com delineamento quasi-experimental envolveu 16 escolas públicas em São Paulo e São Bernardo do Campo. Participaram 80 turmas e respectivos professores, sendo 20 experimentais e 20 controles em cada uma das cidades. Não foi possível realizar a randomização. Envolveu a participação inicial de 2319 estudantes. No segundo momento (pós-teste), com intervalo de cinco meses, os educadores avaliaram 1804 educandos, com uma perda de 515 participantes (22%). Foi possível parear, entre os dois momentos, 1731 estudantes. Nos resultados foi interessante notar como os escores dos comportamentos foram diferentes entre meninos e meninas já no ponto inicial, antes mesmo da intervenção, tanto no grupo controle como no experimental. Sendo assim, os meninos, de forma sistemática, apresentam maiores índices de comportamentos agressivos, disruptivos e menores de engajamento nas atividades, socialização e autocontrole do que as meninas. Em termos de eficácia, o Programa Elos apresentou melhores resultados ao diminuir, com significância estatística, a agressividade (-3,05, dp=1,06; p=0,004) e a disruptividade (-3,71; dp=1,16; p=0,001) em meninos, principalmente para os que na linha de base já tinham índices mais elevados, porém, foi inócuo, de maneira geral, para as meninas. Os resultados obtidos comportaram-se de forma similar a outros estudos internacionais, como se pôde verificar na comparação com artigos que analisam os resultados do GBG. Sendo assim, será importante refletir se o GBG/Elos pode ser considerado, de fato, um programa de prevenção “universal”, na medida em que tem uma ação mais efetiva sobre aquelas crianças que já apresentam, inicialmente, dificuldades escolares e maiores vulnerabilidades comportamentais, tendo uma ação mais consistente sobre os meninos, que tem uma tendência a apresentar, culturalmente, maiores taxas de comportamentos externalizantes. Estas são as reflexões que este trabalho objetiva suscitar.