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O título alude à imagem do flaneur. Desde seu surgimento, na cidade europeia de meados do séc. XIX, esta personagem é sempre masculina. Algo novo se apresentava no horizonte urbano daquele tempo, forjando também um novo sujeito: alguém que na multidão “vê a cidade sem disfarces” (BENJAMIN, 2000, p.56). Um poeta, “observador apaixonado” das cidades, dotado de consciência e capaz de espelhar, como um caleidoscópio, a miríade de possibilidades encarnada em cada um de seus movimentos. No presente, esta figura é instigadora da possibilidade de ler a metrópole, e, talvez produzir novos olhares sobre o mundo e a vida (JACQUES, 2005). Mas pode também ser uma figura potente para refletir, numa perspectiva histórica, sobre o que suprime: a experiência das mulheres nos espaços urbanos. Como observado por McGAW (2006), o flaneur de Benjamin é um vagabundo, sujeito ébrio e errante que tromba com os fragmentos da metrópole na busca dos sentidos perdidos numa nova paisagem em formação. Mas é sempre um homem. Uma mulher que percorresse a Paris do séc. XIX como uma flâneuse correria sérios riscos. Numa perspectiva do sul global, a violência contra mulheres em espaços urbanos é marca substantiva do racismo e do machismo que estruturam as relações de força em nossa sociedade. No caso brasileiro, a formação de núcleos periféricos sem infraestrutura agravam este quadro, especialmente quando consideramos o cotidiano das mulheres, majoritariamente negras, afetadas negativamente pela incapacidade das políticas institucionais em lhes garantir condições adequadas de usufruto dos espaços - ou mesmo a possibilidade de circular sem medo nas ruas. Por isso, a noção da flanerie pode ser também a disparadora de uma perspectiva crítica calcada em aspectos históricos de formação sócio-espacial das cidades. Neste trabalho, propomos um breve cruzamento analítico entre as ideias assentadas no caminhar como caracterizador de uma experiência urbana positiva e a grave realidade nas metrópoles brasileiras, extremamente marcadas pela segregação racial. A flâneuse negra surge como figura que desafia o estatuto epistemológico da projeto e planejamento da cidade, revelando a maneira como os espaços de circulação e mobilidade (ruas, praças, transporte público etc.) são definidores de uma relação conflituosa com o urbano, gravemente marcados pelo medo e pela violência
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