MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO E A PRODUÇÃO DO CIBERTARIADO DA EDUCAÇÃO Introdução O texto apresenta parte da discussão teórica de um projeto de pesquisa em andamento, em uma instituição pública de ensino superior no Estado do Paraná, cujo objetivo busca compreender o trabalho docente a partir das mudanças no mundo do trabalho a partir dos anos 2000. A justificativa para essa proposta concentra-se na necessidade de discutir e aprofundar o debate sobre a formação de uma nova categoria de trabalhadores denominados, pela pesquisadora Ursula Huws, de cibertariado (HUWS, 2017). Essa categoria já se mostra evidente no mercado de trabalho mundial, especialmente a partir dos novos arranjos produtivos que se ampliaram a partir da crise econômica de 2008. O conceito de cibertariado emerge no contexto da transformação das relações de trabalho impulsionada pela digitalização e pela globalização das economias de plataforma. Casilli (2019) oferece uma análise crítica sobre o impacto da digitalização na precarização das condições de trabalho, especialmente no que tange à emergência de uma classe de trabalhadores mediada por plataformas digitais, os quais, muitas vezes, desempenham suas funções sem a formalização de um vínculo empregatício. Casilli observa que, enquanto o trabalho no contexto do cibertariado oferece flexibilidade e mobilidade, ele também acarreta uma série de vulnerabilidades, como a falta de seguridade social, a instabilidade econômica e a dependência de algoritmos para a distribuição de tarefas e o controle da produtividade. No âmbito da educação essa problemática está posta na medida em que observamos políticas educacionais cada vez mais compartilhadas, através de parcerias público-privadas que utilizam plataformas digitais e tem controle desde a gestão do trabalho até a formação continuada de professores. Além disso, Zuboff (2019) expande essa discussão ao abordar como as plataformas digitais, além de intermediar o trabalho, também monitoram e coletam dados dos trabalhadores, transformando suas atividades em um novo tipo de mercadoria: os dados. Além disso, alerta para o controle que as grandes corporações exercem sobre a vida laboral e pessoal dos trabalhadores, em um processo que redefine as fronteiras entre o trabalho e a vida privada. O cibertariado, portanto, caracteriza-se por uma nova configuração do trabalho na sociedade contemporânea, em que a digitalização impõe uma paradoxal autonomia e subordinação, revelando tanto a flexibilidade do trabalho remoto quanto a intensificação da exploração em um ambiente de precarização crescente e ausência de regulamentação efetiva. Metodologia A metodologia está organizada a partir de pesquisa bibliográfica e orientada pelo método do materialismo histórico-dialético. Gil (2008), ao reforçar a relevância da pesquisa bibliográfica nos indica que: A principal vantagem da pesquisa bibliográfica reside no fato de permitir ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente (GIL, 2008, P.50). Como método de análise utilizamos como fonte o materialismo histórico-dialético, que segundo Masson (2012) possibilita apreender o objeto de estudo a partir de suas conexões com diferentes correlações de forças no campo das políticas educacionais e do mundo do trabalho. O método nos auxilia no entendimento de que a produção do cibertariado, e em especial o da educação, encontra-se no bojo de um projeto societário em crescimento na atual fase do modo de produção capitalista, marcado pela superexploração do trabalho, através da captura da subjetividade do trabalhador (Alves, 2011) e pelas formas flexibilizadas de trabalho mediadas pelas plataformas digitais. Resultados parciais e discussão A partir dos anos 2000, a indústria da automação e a digitalização cresceram vertiginosamente, modificando a sociedade, os empregos e as relações de produção e de vida das pessoas, especialmente da classe trabalhadora. A própria classe trabalhadora teve que ajustar suas formas de produção e de vida em razão da introdução de novas tecnologias que as levaram a formas diversificadas de trabalho, infelizmente, cada vez mais precarizadas (ANTUNES, 2020). O aumento da exploração do trabalho, que passou cada vez mais a se configurar de fato como superexploração da força de trabalho, além de aumentar o desemprego, ampliou enormemente a informalidade, a terceirização e a flexibilização da força de trabalho, processo esse que atinge não só os países do Sul, as periferias do sistema, mas também os países centrais (ANTUNES, 2020, P.58). A reestruturação do modo de produção capitalista, especialmente após a grande crise econômica de 2008, impactou o mundo do trabalho com novos arranjos produtivos, que amparados pela conectividade advinda com o avanço das novas tecnologias digitais, possibilitaram a criação de formas diversificadas e flexíveis de trabalho, mas que ao mesmo tempo trouxeram grandes desafios aos trabalhadores. A combinação entre as formas “polivalentes”, “multifuncionais”, “qualificadas” com formas terceirizadas, rotativas, precarizadas do trabalho é uma das chaves, do ponto de vista da reestruturação produtiva, para compreender a acumulação flexível (TONELO, 2021, p. 115). Além desses fatores relacionados a precarização do trabalho, Huws (2017) apresenta o debate em torno de um movimento crescente na sociedade que são os trabalhadores no contexto do teletrabalho. Essa dinâmica de organização, iniciada primeiramente junto aos trabalhadores de escritórios, após a pandemia da Covid-19 se expande para categorias até então inimagináveis. Observamos pela literatura que essa forma de organização do trabalho se acentuou no período da pandemia e pós pandemia. Com a introdução do trabalho remoto na educação, abriu-se brechas de exploração de um perfil de trabalhador que se aproxima do cibertariado apresentado por Huws (2017). O professor passou a experimentar formas de trabalho que o coloca em situação de conectividade por horas extensas. A transformação do professor em um possível membro do cibertariado é um fenômeno recente e crescente, impulsionado pela digitalização do ensino, pela expansão das plataformas, pela educação a distância, que configuram um novo paradigma de trabalho no campo educacional. Nessa direção Casilli (2019) reforça que o conceito de cibertariado pode ser estendido a várias profissões que, embora pareçam possuir maior autonomia, estão imersas em relações de subordinação digital e precarização. Em um estudo sobre a precarização do trabalho docente Previtali e Fagiani (2022) observa que o ambiente digital de ensino impõe uma maior responsabilização aos docentes, que são constantemente avaliados por métricas de performance das plataformas, sem que haja uma compensação proporcional pelo aumento da carga de trabalho. A sua jornada de trabalho se torna intensificada pela constante conectividade e pela exigência da produção de conteúdos digitais engajados, o que, muitas vezes, ocorre sem o devido reconhecimento formal, direitos trabalhistas ou apoio institucional. Além disso, a reflexão de Zuboff (2019) sobre o capitalismo de vigilância ilustra como a coleta de dados dos alunos e o monitoramento da atividade dos professores nas plataformas de ensino resultam em uma relação de controle, despersonalizando o trabalho docente e transformando-o em uma mercadoria. Assim, os professores que atuam ou fazem uso de ambientes digitais estão cada vez mais inseridos em uma dinâmica de trabalho caracterizada pela flexibilização, precarização e vigilância constante, configurando um perfil de cibertariado da educação, no qual a autonomia aparente contrasta com as condições reais de exploração e subordinação à lógica das plataformas digitais. Considerações finais Com as transformações no mundo do trabalho, resultado do avanço do regime de predominância financeira, desencadearam uma série de mudanças para o trabalho docente. Como parte desse processo, a extração da mais-valia continua sendo a força motriz das transformações no mundo do trabalho. Esse cenário de transformações no mundo do trabalho mostra que embora os trabalhadores nessa atual fase do regime de acumulação flexível possam ser considerados autônomos, sua relação com as plataformas digitais é, na verdade, de subordinação e exploração, uma vez que a precariedade das condições de trabalho é mascarada pela aparente liberdade e flexibilidade. Mais do que simples alterações na dinâmica do trabalho, esse movimento representa a tradução insidiosa do novo paradigma produtivo que atinge a categoria docente e os tornam executores de um projeto educativo que retira e precariza o sentido e o significado do trabalho. Referências ALVES, G. Trabalho e subjetividade: o espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório. São Paulo: Boitempo editorial, 2011. ANTUNES, R. O Privilégio da Servidão. São Paulo: Boitempo. 2020. CASILLI, Antonio. En attendant les robots: enquête sur le travail du clic. Paris: Seuil, 2019. Gil, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social / Antonio Carlos Gil. - 6. ed. - São Paulo: Atlas, 2008. HUWS, Ursula A formação do cibertariado: trabalho virtual em um mundo real. Tradução: Murillo van der Laan. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2017. MASSON, Gisele. As contribuições do método materialista histórico e dialético para a pesquisa sobre políticas educacionais. Seminário de Pesquisa na região Sul. Caxias do Sul, 2012. PREVITALI, Fabiane Santana; FAGIANI, Cílson César. Trabalho docente na educação básica no Brasil sob indústria 4.0. R. Katálysis., Florianópolis, v.25, n. 1, p. 156-165, jan./abr. 2022. TONELO, Iuri. No entanto, ela se move: a crise de 2008 e a nova dinâmica do capitalismo. São Paulo, Boitempo, 2021. ZUBOFF , Shoshana. A era do capitalismo de vigilância : a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder . Tradução George Schlesinger. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Intrínseca, 2020.