EDUCAÇÃO E MULHERES: VOZES DAS PROFESSORAS QUE TRABALHAM NO CÁRCERE PALAVRAS INICIAIS A proposta deste trabalho é apresentar um recorte de uma tese em andamento, na qual, a centralidade da pesquisa está posta nas narrativas das professoras de escolas em presídios do Rio de Janeiro. Ao tratar de questões educacionais com recorte de gênero, em específico protagonizando professoras que atuam e resistem no espaço carcerário, tive dificuldade para encontrar bibliografia que permitisse refletir a partir dessa perspectiva. Diante disso, sustento a ideia de ser necessário socializar a voz das mulheres que trabalham como educadoras no cárcere e o que elas têm a dizer como profissionais da educação, para que se possa seguir na luta pela garantia do direito à educação de jovens e adultos (EJA), independentemente de estarem ou não privados de liberdade. De acordo com Julião (2016, p. 33-34), “[...] a educação é considerada como um dos meios de promover a integração social e a aquisição de conhecimentos que permitam aos reclusos assegurar um futuro melhor quando recuperarem a liberdade”. Ressalta-se que nem todas as pessoas privadas de liberdade possuem este pensamento, é algo que precisa ser construído e, corroborando com este pensamento enfatiza a importância do diálogo. Freire (1998) enfatiza o diálogo como prática libertadora e hooks[1] (2013, p. 26) reafirma que “[...] a educação só pode ser libertadora quando todos tomam posse do conhecimento como se este fosse uma plantação em que todos temos de trabalhar”. Tendo as perspectivas mencionadas em vista, é que se pode compreender, ainda a partir dos estudos de Julião (2016, p. 36) que “[...] as ações educativas devem exercer uma influência edificante na vida do interno, criando condições para que molde sua identidade, buscando, principalmente, compreender-se e aceitar-se como indivíduo social”. O que as pessoas leitoras vão encontrar na proposta dessa pesquisa em curso é a vontade intelectual, focada nas relações de gênero, raça e classe de construir um discurso imperativo para que seja possível vislumbrar os princípios de justiça, equidade e, como consequência, (re)pensar a possibilidade de formações e políticas públicas. METODOLOGIA Iniciamos apontando que a pesquisa aqui apresentada seguiu recomendações e, por isso, foi encaminhada ao Comitê de Ética da universidade de origem para autorização formal, por se tratar de investigação que envolve pessoas, nesse caso professoras. Temos como metodologia o grupo focal, que será realizado com professoras respondentes que concordaram em participar. Apoiada na ideia de Morgan (1997), que aponta como uma técnica de pesquisa que favorece interações grupais para discutir tópicos específicos, entendo que este tipo de metodologia é enlace entre observação e entrevistas. Compreendido como uma espécie de entrevista, a “[...] O entrevistador grupal exerce um papel mais diretivo no grupo, pois sua relação é, a rigor, didática” (Gondim, 2003, p. 151). Nesta pesquisa, especificamente, a opção por este tipo de metodologia se dá pelo fato de que estarei lidando com a realidade do cárcere. RESULTADO E DISCUSSÃO Educação é, sem dúvida, instrumento fundamental para que se possa pensar alternativas para uma sociedade livre, com igualdade de direitos e acessos, em que esse lugar de controle social não seja alternativo à punição dos corpos, de acordo com ideias apresentadas por Godinho, Julião e Onofre (2020), apoiados nos estudos de Goffman (1974), o ingresso em instituições como o cárcere é marcado pela mutilação do eu”, ou seja, a perda de identidade, a perda do sentimento de pertencimento, dentre outros aspectos individuais e sociais. Frente a esta reflexão, faz-se necessário pensar o espaço do cárcere como um espaço que integra a sociedade e pensar em como desnaturalizar não só os dados, mas também o lugar. Os dados do SISDEPEN (2024), ferramenta de coleta de dados do sistema penitenciário brasileiro, ajudaram a fazer este movimento. Compreender como funciona a estrutura da sociedade também permite que se compreenda o que está posto e quem sofre com a (in)justiça criminal. O movimento de explicitar o que vem sendo construído no âmbito da EJA no cárcere se faz necessário, para que se possa compreender, a partir da perspectiva das professoras o que vem sendo construído na prática e, o que antes eram movimentos educacionais que aconteciam de maneira isolada, atualmente fazem parte do cotidiano conforme apontado por Julião (2003). Vislumbra-se a EJA no cárcere também enquanto direito e, mais que isso, como sentido à dignidade humana. Reitero meu compromisso com mulheres, sobretudo as que trabalham com a educação em um lugar pensado para homens. Espero, a partir de suas perspectivas, que se consiga desnaturalizar o contexto educacional presente no cárcere, conforme mencionado anteriormente. Com a força dos movimentos sociais, as mulheres, que por muito tempo foram vistas como loucas (Saffioti, 2004); excluídas do corpo social quando tentavam contar sua própria história; mulheres que, antes, eram impedidas de assinar seus nomes nos próprios livros que escreviam buscam, de alguma forma, romper essas estruturas e, em movimento, mulheres professoras passam a narrar seus cotidianos de trabalho. A sociedade, ainda fortemente patriarcal, pode ser compreendida, segundo Saffioti (2015, p. 111) como a que estabelece “[...] um pacto masculino para garantir a opressão de mulheres”. Montiel (2007) mostra que o trabalho feminino, de acordo com o patriarcado, é realizado por amor. Essas ideias, mantidas por gerações, tornam o trabalho realizado por mulheres e com mulheres um trabalho de pouco valor. A escrita e contribuições do movimento de mulheres, sobretudo feministas (Saffioti, 1987; hooks, 2013), têm sido fundamentais para que se possa compreender relações impostas pelo patriarcado e desnaturalizar o que foi socialmente perpetuado. Com relação a quem atua no espaço do cárcere, nas palavras de Onofre e Julião (2013, p. 61), tem “[...] características próprias e onde rapidamente deve aprender a sobreviver – ali ele percebe a importância de buscar saberes, não só para lidar com diferentes culturas, mas para lidar com conflitos e dilemas para os quais não foi preparado na formação inicial”. Não obstante, é necessário considerar que muitos fatores influenciam nessa prática de trabalho. A autonomia do trabalho docente na privação de liberdade depende, com muita frequência, de boa vontade de agentes e de convencimento. Atuar em espaços de privação de liberdade requer um olhar diferente daquele mantido em escolas fora das grades. Nesse espaço, além das próprias práticas, faz-se necessário pensar e repensar o todo da vida na prisão. PALAVRAS FINAIS A educação presente em espaços de privação de liberdade; o contexto de docentes nesses espaços; as relações de gênero no mundo do trabalho; e particularidades do ser mulher em espaço majoritariamente masculino, exigem que se compreenda como histórias dessas mulheres professoras podem ressignificar o exercício do magistério. Cito Adichie (2019, p. 32): “[...] as histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada”. Importante compreender que pessoas privadas de liberdade sonham e os sonhos dessas pessoas perpassam o retorno á família, a ter um bom trabalho, a ser visto sem discriminação e ser aceito. E, nesta pesquisa, compreendemos, a partir da perspectiva das professoras, que é necessário esperançar, problematizar e criar utopias por meio da educação e que coletivamente lutemos para que os direitos sejam garantidos. REFERÊNCIAS ADICHIE, Chimamanda N. O perigo de uma história única. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998. GODINHO, Ana Claudia Ferreira; JULIÃO, Elionaldo Fernandes; ONOFRE, Elenice Cammarosano. Desafios da educação popular em contextos de privação de liberdade. EccoS – Revista Científica, [S. l.], n. 52, p. e17100, 2020. Disponível em:
https://periodicos.uninove.br/eccos/article/view/17100. Acesso em: 10 ago. 2024. GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974. GONDIM, Sonia Maria. Grupos focais como técnica de investigação qualitativa: desafios metodológicos. Revista Paidéia, p. 149-161, 2003. JULIÃO, Elionaldo Fernandes. Escola na ou da prisão? Cadernos Cedes, Campinas, v. 36, n. 98, p. 25-42, jan./abr. 2016. JULIÃO, Elionaldo Fernandes. Política pública de educação penitenciária: contribuição para o diagnóstico da experiência do Rio de Janeiro. 2003. Dissertação (Mestrado) - Departamento de Educação, PUC, Rio de Janeiro, 2003. HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2013. MORGAN, David. Focus group as qualitative research. London: Sage, 1997. MONTIEL, Aimée Vega. Por la visibilidad de las amas de casa: rompendo la invisibilidad del trabajo doméstico. Política y cultura, n. 28, p. 181-200, 2007. ONOFRE, Elenice Cammarosano; JULIÃO, Elionaldo Fernandes. A educação na prisão como política pública: entre desafios e tarefas. Revista Educação & Realidade. Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. v. 38, n. 1, p. 51-69, jan./mar. 2013. SAFFIOTI, Heleieth. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2004. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015. [1] bell hooks indica que seu nome deve ser escrito em letras minúsculas. De acordo com a autora, é para que se dê mais ênfase a seus conteúdos. Disponível em
https://almapreta.com/editorias/realidade/editora-lanca-livro-de-bell-h….