UMA PESQUISA INTERINSTITUCIONAL E COLABORATIVA PARA COMPREENDER E TRANSFORMAR A LICENCIATURA EM MATEMÁTICA Introdução Este texto apresenta e analisa uma prática de pesquisa interinstitucional e de viés colaborativo desenvolvida por pesquisadores/as do GT7 (Grupo de trabalho de professores que ensinam Matemática) da Sbem (Sociedade Brasileira de Educação Matemática). Tal prática tem início após o VII Seminário Internacional de Pesquisa em Educação Matemática (VII Sipem), ocorrido em 2018, quando o GT7 definiu a realização de pesquisas sistemáticas sobre a formação docente como um encaminhamento necessário. Uma dessas pesquisas foi desenvolvida por um grupo de pesquisadore/as que se propôs a compreender como se organizavam os projetos dos cursos de Licenciatura em Matemática a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial de professore/as (DCN) apresentadas pelo Conselho Nacional de Educação em 2015. A partir dessa primeira pesquisa, duas outras se seguiram, cada uma desencadeada pela anterior, sempre com foco na formação inicial de professore/as de Matemática. Ao longo desse processo, uma prática de pesquisa interinstitucional e de viés colaborativo vai se consolidando. A pesquisa interinstitucional é entendida aqui como aquela que envolve, efetivamente, pesquisadore/as de distintas instituições (VEIGA, 2009). Envolver efetivamente significa “compartilhar problemas, experiências e objetivos comuns” (VEIGA, 2009, p.51). Segundo Veiga (2009, p. 51), a pesquisa interinstitucional “tem surgido como resposta às transformações sociais, políticas, culturais e tecnológicas que colocam em discussão as formas conservadoras e individualistas de produção de conhecimento e desenvolvimento profissional de professores.”. Tal prática já existe na área de Educação Matemática, sendo usualmente desenvolvida por grupos de pesquisa que envolvem pesquisadore/as e pós-graduando/as em torno de uma temática comum (ex. Grupo HIFEM, Grupo PHALA). No caso do presente ensaio, cada uma das três pesquisas que compõem o contexto no qual se dá a prática em estudo envolveu um número significativo de docentes oriundos das várias regiões do país, que possuíam em comum o interesse pela formação de professore/as de Matemática, porém, a partir de uma diversidade de perspectivas teóricas e objetos de estudo. Vário/as deles nunca haviam se encontrado presencialmente ou remotamente, antes das referidas pesquisas. E, em todas as três, um grupo básico permaneceu. A noção de colaboração é entendida como um processo que conta “em que todos co-operam ou co-laboram na realização conjunta do processo investigativo e que vai desde sua concepção, planejamento realização até a fase de análise e escrita do relato final.” (FIORENTINI, 2004, p. 51). Assim, o presente ensaio analisa grupos heterogêneos de pesquisadore/as de instituições distintas, pertencentes a diferentes grupos de pesquisa, que se reúnem, voluntariamente, em torno de um estudo que os mobiliza. Apresentamos aqui um estudo dessa prática de pesquisa interinstitucional de viés colaborativo que vai se constituindo ao longo das pesquisas realizadas. Para isso, são considerados os documentos produzidos em cada pesquisa, mas, principalmente, a dinâmica de trabalho estabelecida. Assim, após situar brevemente o desenvolvimento e os resultados das pesquisas citadas, discutimos algumas características desse tipo de pesquisa. Metodologia A metodologia adotada nesse ensaio é de abordagem qualitativa, mais apropriada à natureza de seu propósito. Nela, um grupo composto por três pesquisadoras que participaram das três pesquisas que compõem o contexto em estudo, analisam, coletivamente, as próprias anotações (oriundas das reuniões dos grupos, bem como de distintas etapas das pesquisas) e os documentos produzidos em cada uma delas. O ensaio é produzido a partir de tal análise. Um olhar sobre a pratica de pesquisa desenvolvida ao longo de três estudos interinstitucionais A primeira pesquisa realizou um levantamento e análise dos projetos pedagógicos de curso (PPC) das Licenciaturas em Matemática presenciais, ofertadas por instituições públicas, que se enquadraram na Resolução CNE/CP 02/2015 (ZAIDAN et al., 2021). A equipe, constituída por 66 pesquisadore/as de todas as regiões do país que, organizados em seis subgrupos, analisaram os 172 PPC que atendiam ao critério. A metodologia adotada envolveu, ao longo de três anos (2019 a 2021), reuniões mensais de todo o grupo e reuniões dos subgrupos (definidas internamente). Uma das construções coletivas elaborada nas reuniões mensais foram entendimentos próprios para termos adotados na pesquisa, tais como ‘disciplinas revisionais’[1], ‘disciplinas de Educação Matemática’[2], e ‘percurso formativo’[3]. Tal construção coletiva demandou muito tempo e profundas reflexões, permitindo considerar a diversidade de formações e compreensões presentes no grupo e, gradativamente, chegando a um entendimento comum, necessário para o desenvolvimento da pesquisa. Nesse sentido, vários aspectos merecem destaque. Ressaltamos dois deles: a importância da linguagem adotada na comunicação, e o respeito e a valorização da diversidade de pontos de vista como algo que enriquece o grupo e, consequentemente, sua produção. Essa primeira pesquisa constata uma organização dos cursos de LM que, ainda que contemple aspectos essenciais da formação propostos pela DCN-MEC (BRASIL, 2015), mostra-se fragmentada, tanto em sua organização interna, quanto na articulação entre a formação e o campo de atuação profissional. Observou-se que as formas de organização das licenciaturas em análise poderiam ser classificadas em relação a dois extremos: descontínua (formação organizada em blocos de conhecimento pouco ou nada articulados entre si), presente na grande maioria dos PPC; e integrada (organizada em blocos de conhecimento articulados entre si), representada por uma parte muito pequena de PPC. Um número de cursos possuía estrutura situada entre estas duas formas de organização: A realização desta pesquisa contou com uma coordenação geral e coordenações regionais. A dinâmica de trabalho envolvia reuniões gerais mensais, reuniões de coordenadore/as e reuniões dos subgrupos. As reuniões aconteciam remotamente e, à medida que a produção da escrita se realizava, circulavam os textos entre os participantes para leitura e considerações, até que todos os textos das cinco regiões fossem lidos por todo\as, revisados após múltiplas sugestões para, enfim, serem concluídos. Nesta pesquisa, mestres e recém-doutores, unidos a pesquisadores experientes, formaram um grupo de discussões, de estudo e de partilha. Princípios como voluntariedade, engajamento, disponibilidade, autoria, corresponsabilidade passaram a reger a pesquisa colaborativa do GT07. A busca por um objetivo comum e a negociação de ações e significados contribuíram para que o grupo fosse se identificando e se constituindo, a partir da diversidade, como elementos de um quebra-cabeça. (ZAIDAN et al, 2021, p. 413-414) Concluída em 2021, a pesquisa gerou um livro de acesso virtual[4] e um banco de dados com todos os PPC analisados, no mesmo sítio[5]. Nesse mesmo ano, foi apresentada e debatida no GT7 no VIII Sipem. As discussões nesse GT levaram a novas indagações: por que as disciplinas de matemática ainda se apresentavam reunidas e organizadas separadamente das demais nos projetos dos cursos? Que matemática se encontra presente nos currículos? A partir delas, uma parte desse mesmo grupo se reúne a novo/as integrantes e inicia uma segunda pesquisa. Dessa vez, 13 pesquisadore/as se debruçaram sobre a matemática da Licenciatura. Novamente, em reuniões mensais realizadas remotamente ao longo de dois anos (2021 e 2022), desenvolveu-se um estudo teórico sobre a matemática da formação inicial. Este estudo tomou como ponto de partida estudos já realizados, considerando diversos autores (ex. BALL; THAMES; PHELPS, 2008; MOREIRA, 2004). Três pesquisadores - Plínio Cavalcanti Moreira, Carlos Miguel Ribeiro e Victor Giraldo - foram convidados para encontros nos quais discutiram suas produções e questões levantadas pelo grupo. Nessa pesquisa, a dinâmica constituída já nasce colaborativa. Desde a questão central, passando pela organização do processo, os textos a serem estudados e os pesquisadores a serem convidados, cada detalhe foi definido coletivamente. O que unia o grupo era o entendimento da centralidade da discussão acerca da matemática presente na licenciatura, pois este conforma uma referência fundamental e uma identidade de professor/a, específica da área, demarcando um modo de ser e de praticar o seu ensino. A compreensão de que a matemática acadêmica, própria da prática profissional do matemático, como um corpo de conhecimento científico, predominava nos cursos de Licenciatura, porém, não representava adequadamente as demandas da prática profissional docente. Nesse sentido, a partir das reuniões e produções escritas elaboradas coletivamente, o grupo sistematiza uma noção que denominou ‘conhecimento matemático próprio da docência’ (CMPD), apresentado em um ensaio teórico (CRISTOVÃO et al., 2023). Antes mesmo de concluída a pesquisa, o grupo sentiu a necessidade de começar a avançar na elaboração de recursos para o desenvolvimento de práticas formativas pautadas no CMPD. Assim, nasce a terceira pesquisa. Iniciada em 2023, e ainda em andamento, procura identificar estudos já realizados que podem contribuir para compreender e tornar mais visível o “conhecimento matemático próprio da docência”. O novo projeto, financiado pelo Edital Universal da Capes-MEC[6], reúne 30 pesquisadore/as de universidades e institutos federais. Do mesmo modo que nas pesquisas anteriores, esta última mantém a dinâmica de reuniões de todo o grupo periodicamente, intercaladas por reuniões dos subgrupos e reuniões da coordenação geral com as coordenações dos subgrupos. Estes últimos estão organizados por temática: números, álgebra, geometria, matemática financeira, estatística e grandezas e medidas. Além disso, o projeto contempla seminários envolvendo todo o grupo e convidado/as para discutir o andamento da pesquisa e as produções geradas em cada etapa. Dessa forma, trata-se de uma prática de pesquisa interinstitucional, na qual pesquisadore/as de distintas instituições e regiões do país, colaboram em torno de um objeto de estudo que se constrói coletivamente. À título de síntese A prática de pesquisa que foi se consolidando ao longo da realização dos três estudos descritos evidencia algumas características que vão se reafirmando ao longo do tempo. Observa-se, por exemplo, uma horizontalidade no tratamento das questões, com foco no diálogo em busca de entendimentos comuns, associada a uma “liderança compartilhada” na qual o próprio grupo “define quem coordena determinada atividade, podendo haver um rodízio, nessa tarefa, entre os membros do grupo. [...] todos assumem a responsabilidade de cumprir e fazer cumprir os acordos do grupo, tendo em vista seus objetivos comuns.” (FIORENTINI, 2004, p. 57). Outra característica que se destaca é o fato de que todo/as o/as pesquisadore/as estão profissionalmente envolvidos com a formação de professore/as em universidades e institutos federais. A temática central das pesquisas, então, é parte essencial de sua vida profissional. Assim, essa prática de pesquisa interinstitucional e de viés colaborativo, tem mostrado que tensões e diferenças teóricas podem ser tratadas de modo ético e respeitoso, favorecendo uma construção teórica coletiva que vá além das posições iniciais de cada um, em prol de um interesse maior que une a todo/as: uma formação matemática de qualidade para o/as futuro/as docentes. Aqui, pesquisa e desenvolvimento profissional docente andam de mãos dadas. Referências BALL, Deborah Loewenberg; THAMES, Mark Hoover e PHELPS, Geoffrei. Content Knowledge for Teaching-What Makes it Special? Journal of Teacher Education, v. 59, n. 5, p.389-407, 2008. Sage Publications. BRASIL. CNE. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP 2, de 1º de julho de 2015. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada, 2015. CRISTOVÃO, Eliane Matesco; FERREIRA, Ana Cristina; BARBOSA, Cirléia Pereira; PAIVA, Maria Auxiliadora; COURA, Flávia Figueiredo e ZAIDAN, Samira. (2023). Ensaio sobre a formação matemática do futuro professor de Matemática pautada nos conhecimentos matemáticos próprios da docência. Espaço Plural, 19(39), 86-108. FIORENTINI, Dario. Pesquisar práticas colaborativas ou pesquisar colaborativamente? In: BORBA, Marcelo de Carvalho; ARAÚJO, Jussara de Loiola (org.). Pesquisa qualitativa em Educação Matemática. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. p.47-76. MOREIRA, Plínio Cavalcanti. O conhecimento matemático do professor: formação na licenciatura e prática docente na escola básica. 2004. 202 f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2004. VEIGA, Ilma Passos Alencastro Veiga. Pesquisa Interinstitucional Em Parceira: um espaço de possibilidades formativas. Revista Diálogo Educacional. 9(26), 47-59, 2009. Disponível en:
https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=189115658004 ZAIDAN, Samira; FERREIRA, Ana Cristina; DE PAULA, Enio Freire; SANTANA, Flávia Cristina de Macedo; COURA, Flávia Cristina Figueiredo; PEREIRA, Patrícia Sândalo; STORMOWSKI, Vantuil. (org.). A Licenciatura em Matemática no Brasil em 2019: análises dos projetos dos cursos que se adequaram à Resolução CNE/CP 02/2015. SBEM, Brasil, 2021. Livro Eletrônico. Disponível em:
https://www.sbembrasil.org.br/ebook/ebook21.pdf [1] Presentes na grande maioria dos PPC analisados, são componentes curriculares cujo principal objetivo era a preparação dos estudantes ingressantes para o Cálculo Diferencial e Integral. Assim, ainda que abordassem tópicos próprios da Educação Básica, não o faziam levando em consideração as demandas da prática docente nem tinham como preocupação a formação do/a futuro/a professor/a de Matemática. [2] Entendidas como aquelas que tratavam de um conjunto de temáticas relacionadas a matemática-ensino-formação, incluindo as disciplinas de ‘prática como componente curricular’. [3] Termo criado para se contrapor ao entendimento de modelo formativo, de modo que pudesse acolher os diversos formatos existentes, um olhar aberto e crítico diante dos movimentos de mudança dos projetos de cursos. [4]
https://www.sbembrasil.org.br/ebook/ebook21.pdf [5]
https://www.sbembrasil.org.br/sbembrasil/ (Ver na coluna da esquerda, dentro da Aba Mais Opções, Projetos pedagógicos de cursos de Licenciatura em Matemática ) [6] O conhecimento matemático próprio da docência na pesquisa em educação matemática: a necessária renovação da formação de professore/as, tendo em vista a profissão. Processo: 408091/2023-1. CNPQ