(UMA) EDUCAÇÃO MATEMÁTICA: ENTRE SUBJETIVAÇÕES E RESISTÊNCIAS O início de um caminhar… O modo de viver dos povos ocidentais, centrado na racionalidade, objetividade e no progresso técnico-científico, tem sido eficaz na construção de estruturas complexas e na consolidação de uma visão de mundo que separa razão e emoção, sujeito e objeto. Contudo, ao priorizar essas dimensões, muitas formas de existência, com suas complexidades emocionais, espirituais e simbólicas, são frequentemente desconsideradas, pois não se encaixam nos moldes da lógica cartesiana e do mecanicismo. Em contraste, o modo de ser dos povos indígenas revela uma profunda afinidade com o mundo natural e espiritual, com a terra e os seres que habitam o cosmos. Para esses povos, a realidade não é algo a ser fragmentado e analisado isoladamente, mas um processo contínuo e relacional, no qual o conhecimento está imbricado na vivência cotidiana, nas práticas culturais e na relação direta com a comunidade e o ambiente. O ser indígena não é uma abstração, mas um fluxo interconectado, constituído ao longo de interações sociais, espirituais e ecológicas. Essa perspectiva implica uma visão holística do conhecimento e da vida, na qual as fronteiras entre humano e não-humano, natural e cultural, são permeáveis e compartilhadas. Partindo da premissa de que "o outro existe, logo pensa", em contraposição a Descartes, que propôs "penso, logo existo", Viveiros de Castro (2008, p. 117-118) afirma: "se esse que existe é o outro, então seu pensamento é necessariamente outro que o meu. Quem sabe até deva concluir que, se penso, então também sou um outro. Pois, só o outro pensa, só é interessante o pensamento enquanto potência de alteridade". Dessa forma, considerar o pensamento como potência da alteridade reforça a necessidade de um deslocamento epistêmico que vá além do reconhecimento da existência do outro, dispondo-se a escutá-lo em sua plenitude, sem aprisioná-lo em categorias predefinidas. O perspectivismo ameríndio, conceito central na Antropologia contemporânea, propõe uma reconfiguração das formas de compreender a relação entre humanos e não-humanos. Desenvolvido nos trabalhos de Viveiros de Castro (2008, 2018), essa perspectiva desafia concepções ocidentais sobre a distinção entre cultura e natureza, oferecendo uma alternativa ontológica baseada nas cosmologias indígenas. Enquanto a tradição filosófica ocidental tende a universalizar categorias e hierarquizar existências, o perspectivismo sugere que cada ser percebe e experiencia o mundo de maneira singular, tornando as distinções entre humano e não-humano, sujeito e objeto, contingentes e mutáveis. Diante desse contexto, buscamos compreender: como se constituem as identidades profissionais de professores de Matemática indígenas diante da sobreposição cultural ocidental? Esse questionamento nos conduz ao objetivo de investigar os processos de subjetivação que atravessam professores indígenas de Matemática em sua atuação profissional. Traçando caminhos, tecendo narrativas! O caminhar abandona aqui o seu sentido mais comum, mais geral, e transforma-se em outra coisa, num convite para caminharmos juntos, você, eu, eles, elas, nós... para nos movermos por diferentes espaços que irão emergindo com cada passo. Neste sentido, os caminhos que com certeza serão, estão, ou foram atravessados por uma multiplicidade de afetações e operam num espaço contínuo de desterritorialização – ou seja, cada linha da escrita é pensada para ser “ocupada” pela intencionalidade que atravessa a própria composição, pelos pensamentos que buscam possibilidades para serem pensados de formas múltiplas, operando por linhas de fuga (Deleuze; Guattari, 2011), pelos fluxos de relacionalidades que se desenham no próprio ato de caminhar. Essa visão problematiza as práticas convencionais e convida a uma (re)consideração dos modos como a pesquisa é conduzida e dos tipos de conhecimentos que são legitimados. Deste modo, para alcançar nosso objetivo geral de analisar os processos de subjetivação que atravessam os professores de matemática(s) indígenas em sua atuação profissional, atuaremos por meio de movimentos que reverberem as vivências, (re)existências e afetações dessa coletividade. Optamos por uma abordagem que viabilize ao pesquisador a possibilidade de mergulhar na situação investigada, desvelando o processo e os significados a serem produzidos pelo caminho investigativo. Nesse viés, Garnica (2001, p. 40) enfatiza que "parece mais sensato optar pelo fluido em detrimento do fixo, pela interação em detrimento da dicotomia, pela multiplicidade em detrimento do absoluto, pelo caminho em detrimento da chegada, pela regulação em detrimento do regulamento, pelo processo em detrimento do produto". O foco deve estar no processo da investigação, que é uma jornada contínua, ao invés de se concentrar apenas na obtenção de um produto final. A regulação do estudo deve ser entendida como um guia flexível, não como um conjunto fixo de regulamentos que restringe a pesquisa. O processo de escrita, deste modo, pode ser comparado a um mapa, que, segundo Deleuze e Guattari (2011, p. 30) "é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social". Os territórios de certos grupos sociais frequentemente revelam processos de homogeneização que, sob o discurso da diversidade, perpetuam práticas que silenciam a diferença. Ainda que as narrativas oficiais pareçam se atentar para a inclusão, seus modos operativos, muitas vezes invisíveis, contribuem para uma reprodução de perspectivas hegemônicas que beneficia certos interesses dominantes, deixando as vozes de grupos marginalizados – como os professores de matemática indígenas – na periferia do discurso central. Ao buscar uma descentralização dessas narrativas dominantes e possibilitar linhas de fuga, encontramos a História Oral, que se dedica a registrar e analisar narrativas orais de pessoas que vivenciaram eventos históricos ou culturais significativos. Diferente da historiografia convencional (fontes documentais e materiais), a História Oral valoriza a experiência vivida e a subjetividade dos entrevistados. Ela busca entender a história por meio das perspectivas e memórias de indivíduos que podem não estar representados em registros oficiais ou documentos históricos. A entrevista se torna um espaço para que as pessoas compartilhem suas experiências e perspectivas, reconhecendo que a memória é intrinsecamente subjetiva e influenciada por diversos fatores pessoais e contextuais (Meihy; Ribeiro, 2011). Após a realização das entrevistas, o próximo passo é a transcrição e textualização destas. Nesse contexto, é essencial uma constante reflexão sobre a opção metodológica adotada nos estudos, reconhecendo que nenhuma metodologia deve ser tomada como definitiva ou como um algoritmo a ser seguido. Garnica e Gomes (2020, p. 16) entendem que deve haver uma "necessidade contínua de uma problematização sobre a opção metodológica com a qual conduzimos nossos estudos e, assim, nunca uma metodologia deve ser tomada como dada, como pronta-à-mão [...], a História Oral é (e deve ser) uma metodologia em-trajetória [...]". Tal posicionamento não apenas reforça a validade e a relevância da História Oral, mas também fornece subsídios para que outras pesquisas se apropriem da metodologia de forma crítica, reconhecendo a necessidade de revê-la e ajustá-la conforme novos contextos e desafios emergem. Entre tensões e ressignificações Os primeiros movimentos investigativos dessa pesquisa evidenciam a necessidade de problematizar as narrativas dominantes que atravessam as trajetórias de professores de matemática(s) indígenas. As entrevistas conduzidas até o momento revelam que suas experiências são marcadas por atravessamentos históricos, culturais e epistemológicos que desafiam as perspectivas hegemônicas sobre o ensino e a aprendizagem da matemática. Ao mergulharmos na materialidade dessas vozes, percebemos que a escolarização, em contextos indígenas, não se reduz a um espaço de transmissão de conteúdos disciplinados e normatizados. Pelo contrário, emerge como um território de disputas e ressignificações. Os depoimentos apontam para um processo de subjetivação que se (re)configura em um movimento constante de (des)territorialização, onde a tradição e o contemporâneo se atravessam de forma rizomática. Os professores entrevistados destacam a tensão entre os currículos impostos e as práticas educativas que valorizam os modos de conhecer próprios de suas comunidades. As entrevistas narram situações em que as matemáticas ensinadas nas escolas dialogam pouco com os conhecimentos matemáticos vividos cotidianamente nos territórios indígenas, tornando-se muitas vezes um espaço de estranhamento, senão de exclusão. Esse tensionamento evidencia o desafio de conciliar as matemáticas escolares com os saberes e práticas locais, produzindo uma relação que pode ser tanto de confronto quanto de reinvenção. A História Oral tem se mostrado um campo potente para capturar essas nuances, permitindo que as vozes dos professores ressoem na construção do conhecimento. Esse deslocamento epistêmico reforça a importância de uma pesquisa que se faça com os sujeitos, e não apenas sobre eles, resgatando a legitimidade de suas memórias, experiências e enunciações. Como ressaltam Garnica e Gomes (2020), a História Oral é uma metodologia- em-trajetória, atravessado por fluxos que reconfiguram continuamente a própria investigação, exigindo do pesquisador um constante movimento de escuta, revisão e abertura a novas conexões. Os primeiros resultados também revelam como os professores mobilizam suas práticas pedagógicas para lidar com os desafios impostos por um sistema educacional que ainda opera majoritariamente sob uma lógica colonial. Em seus relatos, identificamos estratégias de resistência e (re)existência que passam pela ressignificação do currículo, a incorporação de saberes tradicionais e a construção de um espaço educativo mais sensível às especificidades culturais de seus estudantes. As discussões, portanto, apontam para a urgência de uma pesquisa que não apenas dê visibilidade às vozes desses professores, mas que também reconheça e fortaleça as suas práticas como formas de produção de conhecimento. É preciso deslocar o olhar para aquilo que muitas vezes permanece à margem, permitindo que os processos de subjetivação que atravessam esses sujeitos sejam compreendidos em sua complexidade e potência. Nessa postura acontece um distanciamento do perigo de uma história única e nos alerta que contar uma única história sobre um povo cria estereótipos e reduz a complexidade de suas experiências (Adichie, 2019). Dessa forma, reafirmamos que a escrita desse trabalho não se fecha em uma estrutura fixa, mas se constitui como um mapa em contínuo movimento, aberto a novas possibilidades e conexões. É esse convite à multiplicidade que seguimos cultivando nesta investigação. Algumas considerações Este estudo buscou investigar os processos de subjetivação que atravessam professores indígenas de Matemática em sua atuação profissional. Ao longo da pesquisa, percebeu-se que a docência desses professores é atravessada por múltiplos tensionamentos, que vão desde as políticas educacionais e curriculares até as próprias concepções de conhecimento matemático e suas formas de ensino. As narrativas dos professores indígenas de XXXXX XXXXX - XX revelaram percursos singulares de formação e atuação, nos quais a matemática não é apenas um conteúdo a ser ensinado, mas um espaço de disputa, ressignificação e (re)criação. Ao registrar e analisar essas vivências, este estudo buscou não apenas compreender, mas também se deixar afetar pelas maneiras como os professores constroem e são construídos em suas trajetórias. Essa abertura à alteridade permite ampliar as formas de pensar o ensino de matemática em contextos indígenas, promovendo uma abordagem que valoriza a multiplicidade e rompe com perspectivas dominantes e homogeneizadoras. Ao refletir sobre as tensões em torno dos currículos nos contextos indígenas, a pesquisa problematizou os processos de formação e atuação dos professores indígenas de Matemática, reconhecendo que esses processos não são neutros, mas atravessados por relações de poder, historicidades e formas de resistência. Essa problematização visa não apenas compreender tais dinâmicas, mas também contribuir para políticas educacionais que incorporem as realidades e cosmovisões indígenas de maneira não hierárquica, possibilitando espaços formativos que potencializem a diversidade dos professores e suas matemáticas. A desterritorialização das perspectivas hegemônicas sobre o ensino de matemática, promovida por este estudo, possibilita a emergência de novas formas de ensinar e aprender. A matemática, longe de ser única e universal, se reinventa no encontro entre saberes, incorporando-se aos modos de vida e às práticas culturais dos povos indígenas. Essa canibalização da “Matemática” presente no Brasil abre caminhos para uma educação que reconhece as multiplicidades e se constrói a partir de relações rizomáticas, fluidas e dinâmicas. Dessa maneira, este estudo não se encerra em uma conclusão fixa, mas se projeta como um convite à continuidade das reflexões sobre os processos de subjetivação dos professores indígenas de Matemática. Espera-se que essas discussões possam reverberar em novos debates, pesquisas e práticas que fortaleçam a valorização das epistemologias indígenas. REFERÊNCIAS ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Companhia das Letras, 2019. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs. Capitalismo e Esquizofrenia 2. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira; Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. – São Paulo: Editora 34, 2011 (2 edição). 128 p. GARNICA, Antonio Vicente Marafioti. Pesquisa qualitativa e Educação (Matemática): de regulações, regulamentos, tempos e depoimentos. Mimesis, Bauru, v. 22, n. 1, p. 35-48, 2001. GARNICA, A. V. M.; GOMES M. L. M. História Oral: diversidade, pluralidade e narratividade em educação matemática. Educação Matemática e Diversidade (s). Porto Alegre: Fi, 15-42. 2020. MEIHY, José Carlos Sebe Bom; RIBEIRO, Suzana L. Salgado. Guia prático de história oral: para empresas, universidades, comunidades, famílias. 2011. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. Ubu Editora LTDA-ME, 2018. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O perspectivismo é a retomada da antropofagia oswaldiana em novos termos. Entrevista a Luísa Elvira Belaunde. In: Sztutman, Renato (Org.). Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008.