TRAJETÓRIAS PARTICIPATIVAS E RELAÇÕES INTERGERACIONAIS INTRODUÇÃO As análises aqui apresentadas são resultados de uma pesquisa de mestrado em andamento, que tem por objetivo investigar as experiências e trajetórias participativas de moradores da São Remo - uma favela contígua à Cidade Universitária da USP, na Zona Oeste da capital paulista - em ações coletivas diversas no território. METODOLOGIA O campo de pesquisa foi realizado ao longo do ano de 2023 no território da São Remo. Primeiro, por meio de pesquisa etnográfica e de consulta em redes sociais, foram mapeados coletivos, associações, projetos sociais, organizações da sociedade civil e equipamentos públicos que desenvolvem atividades educacionais, políticas, esportivas, artísticas, culturais e religiosas. Depois, as trajetórias de participação dos envolvidos nas ações coletivas mapeadas foram investigadas por meio da realização de 26 entrevistas semi-estruturadas e da aplicação de questionários socioeconômicos, identificando suas motivações, configurações, objetivos e formas de organização. Os dados coletados foram analisados a partir de um referencial teórico da sociologia da educação não formal e informal e dos teóricos dos Novos Movimentos Sociais. RESULTADOS PARCIAIS E DISCUSSÃO As trajetórias participativas dos participantes da pesquisa são atravessadas por relações intergeracionais marcadas pela afetividade e por um caráter de educação informal. Os entrevistados apontam para a importância, nas suas experiências participativas, de referência mais velhas que orientam e acompanham as suas trajetórias participativas. São, em geral, lideranças comunitárias, agentes culturais, arte-educadores, criadores de projetos sociais e articuladores de ações coletivas que ensinam aos mais jovens saberes práticos, valores, propósitos, visões de mundo, perspectivas e ideologias. Nesses relatos, as relações entre as lideranças e os seus “crias” não são simples relações de transmissão impessoal de saberes práticos sobre a ação coletiva, e sim relações afetivas inseridas em processos socializadores. Nos casos de muitos entrevistados, as experiências participativas são mais motivadas por afetos do que pela adesão reflexiva a determinada causa política ou ideológica, evidenciando que a afetividade é essencial na significação das práticas participativas, principalmente entre os jovens (RUIZ, 2017). Os afetos permeiam os processos de construção de identidades coletivas, narrativas comuns e vínculos intersubjetivos entre os participantes (REGUILLO, 2017). As relações afetivas são uma das principais motivações indicadas pelos entrevistados para o envolvimento e permanência nos coletivos, projetos e associações. Eles relatam que se identificam ideologicamente, culturalmente ou politicamente com os pares, socializam e se divertem nas práticas, fazem novas amizades e veem os grupos e coletivos como uma rede de mútua proteção na qual se sentem acolhidos. Eles associam a participação com as sensações de pertencimento, protagonismo, reconhecimento e de ser importante para alguém. As relações intergeracionais são essenciais nos processos de socialização política e de formação dos entrevistados nas suas áreas de atuação profissional e coletiva. Muitos relatam que se envolveram nas ações coletivas das quais participam porque foram chamados e incentivados por amigos, familiares ou pessoas mais velhas que são referências nas suas trajetórias participativas e formativas. Os entrevistados entendem essas relações intergeracionais como uma relação de mestre e aprendiz, na qual os mestres ensinam aos mais jovens conhecimentos, propósitos e saberes práticos, políticos e ideológicos necessários à realização de uma determinada prática, como forma de garantir a continuidade dessas ações ao longo do tempo. Mesmo nos projetos, coletivos e grupos que não têm um caráter diretamente educacional, as lideranças frequentemente atuam como educadores. Essas relações intergeracionais não configuram processos de ensino e aprendizagem formais, escolares: elas são caracterizadas pela educação informal. Segundo as formulações do sociólogo Karl Mannheim (1993), o mais importante para o fenômeno geracional são os conteúdos, disposições e valores transmitidos de forma inconsciente e involuntária, como é o caso da maior parte das experiências relatadas nas entrevistas. Aqueles transmitidos por meio da instrução formal e do ensino escolar têm um poder de alcance mais limitado. A relação entre “mestre e aprendiz” está associada aos processos de socialização, baseados nos fenômenos intergeracionais de herança e transmissão (TOMIZAKI, 2010): os membros de uma geração transmitem às novas gerações aquilo que consideram fundamental para a preservação e continuidade da sua herança. Muitos dos entrevistados da faixa dos 40 anos de idade relembram, em suas entrevistas, as influências e aprendizagens que tiveram dos seus “mestres” e afirmam a importância de transmitir esses ensinamentos e saberes para as novas gerações, garantindo a continuação dos projetos sociais da comunidade, das práticas de liderança comunitária e das ações culturais locais. A maior parte dos entrevistados enfatizam que as suas trajetórias participativas se devem, em grande medida, à herança de saberes e valores dessas figuras referenciais mais velhas e à formação em projetos sociais dos quais participaram como público alvo quando eram crianças e adolescentes. Eles cresceram, se desenvolveram enquanto indivíduos e se socializaram enquanto cidadãos dentro desses espaços. Além de afirmar que os projetos sociais os afastaram das drogas, do tráfico e da criminalidade, muitos afirmam que a participação nesses projetos ampliou os seus horizontes de perspectivas e possibilidades, o que, em muitos casos, envolve o incentivo à educação. Vários dos projetos sociais mapeados na São Remo, ainda que não tenham um caráter imediatamente educacional, incentivam muito os seus jovens beneficiários a estudar, a valorizar a escola e a fazer ensino superior. Foram frequentes nas entrevistas as afirmações de que os projetos sociais, o esporte, a capoeira, a arte e a cultura ampliaram as referências e as perspectivas dos envolvidos para além da São Remo e para além do que eles imaginavam que um morador de favela poderia alcançar, apresentando outras realidades e possibilidades. Além de destacarem os impactos que a participação, durante a juventude, em projetos sociais e coletivos culturais tiveram em suas trajetórias de vida, as lideranças comunitárias e agentes culturais entrevistados justificam as suas práticas participativas atuais pela vontade - e até sentido de responsabilidade - de dar uma retribuição à São Remo pelas oportunidades que eles receberam e de permitir que outros jovens da comunidade tenham as mesmas experiências e vivências que eles tiveram. Nas entrevistas, muitos relataram memórias de episódios marcantes das suas trajetórias participativas, como espetáculos e competições, com maravilhamento, afeto, nostalgia e emoção e explicam que o que os motiva hoje a realizar os seus projetos sociais e as suas práticas participativas é oportunizar vivências semelhantes aos jovens da comunidade, permitir que eles sintam o que eles sentiram, tenham as oportunidades que eles tiveram. As lideranças comunitárias se sentem responsáveis por formar a juventude para ser a próxima geração de lideranças e agentes culturais da comunidade, garantindo uma sucessão geracional dos projetos, ações e iniciativas. Eles desejam transmitir para as novas gerações os saberes acumulados sobre o fazer coletivo e oportunizar vivências para os jovens se formarem enquanto cidadãos e agentes de transformação local. Assim, uma das maiores motivações dos entrevistados adultos para a participação é o sentimento de responsabilidade de transmitir aos jovens de hoje a formação, os valores e os saberes que eles herdaram dos seus “mestres” e educadores no passado. Eles se sentem responsáveis por incentivar, formar e orientar os mais jovens no seu desenvolvimento pessoal, profissional, participativo e comunitário, principalmente por meio da transmissão de determinados valores, como a consciência de classe, a solidariedade, a honestidade e o engajamento coletivo social. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os relatos dos entrevistados evidenciam que o processo social educativo não se dá apenas dentro dos muros das escolas (ALMEIDA et al, 2021; SPOSITO, 2007) e que as dinâmicas intergeracionais de socialização são mediadas por diferentes instâncias socializadoras, como as ações coletivas comunitárias, os projetos sociais e os coletivos culturais, por exemplo. Toda nova geração cresce imersa em comportamentos, sentimentos e visões de mundo herdadas: a socialização é um processo de mão dupla baseado na transmissão e na herança, em que as gerações se influenciam mutuamente e definem as continuidades e rupturas umas em relação às outras (TOMIZAKI, 2010; GROPPO, 2017). PALAVRAS-CHAVE: ações coletivas; relações intergeracionais; participação. REFERÊNCIAS ALMEIDA, E. de et al. (Orgs.). Movimentos sociais, sujeitos e processos educativos: uma antologia do GT03 da ANPEd. São Carlos: Pedro & João Editores, 2021. GROPPO, L. A. Introdução à Sociologia da Juventude. Jundiaí: Paco Editorial, 2017. MANNHEIM, K. El problema de las generaciones. Reis: Revista Española de Investigaciones Sociológicas, n. 62, p. 193-242, 1993. RUIZ, Ó. A. El movimiento estudiantil en Chile, 2006-2014: una aproximación desde la cultura y las identidades. Nueva antropología, México, v. 30, n. 87, p. 131-152, 2017. REGUILLO, R. Paisajes insurrectos: jóvenes, redes y revueltas en el otoño civilizatorio. NED ediciones, 2017. SPOSITO, M. P. Uma perspectiva não escolar no estudo sociológico da escola. In: PAIXÃO, L. P.; ZAGO, N. (orgs.). Sociologia da Educação: pesquisa e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 2007. TOMIZAKI, K. Transmitir e herdar: os estudos dos fenômenos educativos em uma perspectiva intergeracional. Educação & Sociedade, v. 31, n. 111, p. 327-346, 2010.