TRAJETÓRIAS ESCOLARES DE JOVENS QUILOMBOLAS

- 215047
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
TRAJETÓRIAS ESCOLARES DE JOVENS QUILOMBOLAS Resumo A presente pesquisa, ainda em andamento, tem como objetivo analisar o processo de escolarização de jovens quilombolas. Por meio de pesquisa do tipo etnográfica, elaboramos um plano de observação, bem como roteiros de entrevistas semiestruturadas. Os resultados ainda são parciais, nota-se que a desigualdade social e o racismo afetam as duas comunidades quilombolas e, consequentemente, o processo de aprendizagem das crianças. Palavras-chave: trajetória escolar; quilombo; prática pedagógica Introdução e justificativa O presente estudo, ainda em elaboração, apresenta parte da pesquisa, na qual pretende analisar os processos de escolarização de jovens quilombolas no sertão nordestino. As questões centrais que norteiam esta pesquisa estão relacionadas aos elementos distintivos nas trajetórias educacionais das alunas e alunos quilombolas durante a transição do ensino fundamental para o ensino médio, bem como à identificação de fatores específicos que influenciam e diferenciam tais trajetórias em comparação aos jovens não quilombolas que frequentam escolas rurais. O objetivo geral é analisar o processo de escolarização de jovens provenientes de duas comunidades quilombolas; a comunidade Umbuzeiro, na Bahia, e a comunidade Estrela, no Ceará. A história do movimento negro é marcada por luta pelos direitos, questionar a história do Brasil, “ressignificar de forma positiva o conceito de raça, elabora novas epistemologia, instrumentos teórico, ideológicos, políticos e analíticos para explicar o racismo estrutural” (GOMES, 2017, p.21). A escolha por quilombos como objeto de pesquisa está ligada a sua importância e o apagamento das suas resistências históricas, afinal são os primeiros movimentos organizados de resistência e de enfrentamento às atrocidades colonialistas. Esses movimentos ocorreram em todos os países da América onde existiu escravismo moderno (MOURA, 2020). A hipótese é de que alguns fatores que dificultam a permanência dos jovens quilombolas ou um processo de escolarização significativo estão atrelados ao baixo capital cultural das famílias, as precárias condições de vida, o envolvimento precoce com drogas e a falta de um currículo que dialogue com as questões culturais quilombola e o racismo. Metodologia e territórios Segundo André (2012) etnografia é um esquema de pesquisa elaborado por antropólogos que exige alguns requisitos quando se trata de descrever uma cultura de um grupo social são eles; permanência longa em campo, contato com outras culturas e o uso amplo de categorias sociais na análise de dados. Para as análises de processo educativo se recorre a uma adaptação da etnografia, por isso a expressão da pesquisa do tipo etnográfica. Vale ressaltar que uma das características da etnografia é moldar as questões para criar um ambiente favorável para os sujeitos entrevistados darem seus depoimentos de forma espontânea. Extrair informações dos quilombolas não é tarefa simples, pois são reservados, essa é uma forma de se preservarem por conta dos estigmas que sofrem, entretanto, com uma permanência mais longa e visitas constantes, ouvi muitos relatos e a oralidade é uma das formas mais marcante dessas comunidades para manterem as histórias e suas culturas vivas (SANTOS, 2023). Município de Uauá - BA O município de Uauá está localizado no sertão baiano, caracterizada por um clima predominantemente seco e uma vegetação típica de caatinga. Com dimensões territoriais modestas e com uma população de aproximadamente 25.665 habitantes, Uauá tem sua economia baseada na caprinocultura e ovinocultura (IBGE, 2020). A Escola Municipal de Ensino Fundamental Bacurau está localizada na zona rural do município de Uauá, na Fazenda Santana, na zona rural, que está a 28,6 quilômetros a oeste da cidade. A comunidade do Umbuzeiro está localizada no interior da Fazenda Santana, a 30 quilômetros do município de Uauá, com em torno de 60 moradias. Município de Solonópoles - CE O vilarejo São José de Solonópole, onde está localizada a Escola Municipal Nelson Mandela, faz parte do município de Solonópoles, encontra-se situado na região Centro-Sul do estado cearense. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, a população residente do município é aproximadamente de 18.179 habitantes, conforme apurado no último censo demográfico. Contudo, o instituto não fornece dados do vilarejo. A economia de São José de Solonópole é majoritariamente agrária, com ênfase nas atividades de agricultura e pecuária. A comunidade Estrela está localizada a 10 km ao leste da vila de São José de Solonópoles. Um caminho para dois quilombos. A primeira visita na Bahia, janeiro de 2024, na qual foram mapeados os possíveis sujeitos na comunidade quilombola Umbuzeiro, sendo eles; Paulo, o único jovem quilombola matriculado no ensino médio, naquele período, e mais quatro alunos quilombolas que estão na 5º e 6º ano todos entre 15 e 16 e a professora Tânia que leciona na EMEF Bacurau. Para efeito de comparação, foram sondados possíveis sujeitos de pesquisa, alunos não quilombolas, em comunidades do entorno. A segunda etapa ocorreu no Ceará, julho de 2024, as sondagens foram realizadas com a professora Joana que leciona para os alunos quilombolas, na EMEF Nelson Mandela e com a matriarca da comunidade Estrela. Para esse resumo expandido foram selecionados apenas alguns entrevistados, vale salientar que os nomes são fictícios. Paulo tem 15 anos, tem a pele escura e um sotaque característico da comunidade. Perguntei como foi estudar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Bacurau[1]. Ele respondeu: “Era bom, os professores me tratam bem! Bom, nem todos, senti preconceito.”. Ao relatar que sofria preconceito, Paulo esconde o rosto atrás da parede, seus gestos e tom de voz mudam. Insisto e pergunto como era esse preconceito. Ele responde de forma categórica: “Os alunos chamavam a gente de nego, que no Umbuzeiro só tem nego e quilombola e eles não eram!” O relato de Paulo contradiz a fala da professora Tânia que, por sua vez, atribui a falta de interesse aos próprios alunos quilombolas: “A tem aluno de lá atrasado, com certeza tem! Eles voltaram para escola, mas o interesse deles gira em torno do auxílio, porque se dependesse dele mesmo eles não iriam. É falta de interesse deles mesmo. Tem aqueles que se esforçam, mas tem dificuldade e tem aqueles que não querem nada com nada.” (Professora Tânia, leciona na EMEF Bacurau.) A docente não leva em consideração que o currículo abarca propostas de interesse da cultura hegemônica, a exclusão das culturas dos povos tradicionais é resultado da dominação política e ignora os saberes dos povos historicamente marginalizados (TORRES SANTOMÉ, 2013). No Ceará, o relato da professora Joana está em consonância com o da professora Tânia, e faz um destaque sobre algumas estratégias pedagógicas como apresentações teatrais que não deram certo por conta do desinteresse dos alunos quilombola: “Se você for lá, agora, vão tá tudo deitado. Porque não tem muito o que fazer, fica no celular, então eles não querem também pesquisar por eles. Então a apresentação, ela deixa a desejar, exatamente por isso. Como são preguiçosos então vai lá naquele banho maria, mas sempre deixa a desejar, não vão além, entendeu? Já os daqui, da sede tem essa característica diferenciada do pessoal de lá, eles são mais de fazer!” (Professora Joana leciona na EMEF Nelson Mandela.) O relato da docente, carregado de estigma, ignora as condições materiais nas quais os alunos quilombolas estão inseridos, alguns alunos se ausentam da escola para trabalhar tirando leite em fazendas de políticos. A matriarca da comunidade, dona Marta, fala da única vez que foi chamada para realizar uma apresentação das danças que cultiva, na EMEF Nelson Mandela: “A escola nunca me chamou para conversar com as crianças. Seria bom pra eles conhecer a história quilombola. Eu nunca tive uma infância, uma adolescência, mas aprendi a cantar, a dançar a dança do Maneiro Pau, dos coco, porque nóis era chamada aterrar a casa do povo, nossas crianças sabem de tudo isso e faz as danças que eu ensino. A gente tem muito conhecimento, mas eles lá não ligam não” (Dona Marta, matriarca da comunidade quilombola Estrela.) O distanciamento da escola em relação às comunidades quilombolas reflete na aprendizagem dos alunos desses territórios. É de suma importância formação continuada para que os docentes compreendam como os quilombolas se organizam. De acordo com Nêgo Bispo a cultura, como conhecemos, é algo padronizado, um mero produto com regras normas pré-determinadas. O autor aponta que os quilombos “têm modos - modos de ver, de sentir, de fazer as coisas, modos de vida.” (SANTOS, 2023, p.23). Resultados parciais Por ainda estar em andamento, a presente pesquisa notou que o processo de escolarização dos jovens quilombolas é complexo, são muitos os fatores que afetam a aprendizagem, pois os jovens enfrentam a desigualdade social e racial, alguns se dividem entre escola e trabalho, outros não se sentem pertencente ao ambiente escolar e o currículo não dialoga com os saberes da cultura quilombola. Referências Bibliográficas ANDRÉ, Marli. Etnografia da Prática escolar. Papirus. Campinas. 2012. GOMES, Nilma Lino. O movimento Negro Educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. MOURA, Clóvis. Quilombos: resistências e escravismo. 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2020. IBGE. Cidades: Uauá. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br. Acesso em: janeiro de 2025. IBGE. Cidades: Solonópoles. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br. Acesso em: janeiro de 2025. TORRES SANTOMÉ, Jurjo. As culturas negadas silenciadas no currículo. IN: SILVA, Tomáz Tadeu da. Alienígenas na sala de aula – uma introdução aos estudos culturais em educação, Petrópolis: Editora Vozes, 11ª edição, 2013. SANTOS, Antonio Bispo dos. Terra da, Terra Quer. 1. ed. [1] Todos os nomes das escolas são fictícios.

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Institutions
  • 1 PUC-SP/PPGE História, Política, Sociedade - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Track
  • GT21 - Educação e Relações Étnico-Raciais