TERRITÓRIOS, EVASÃO, VIOLÊNCIAS E COMUNIDADES Rudá Ricci - UNICAMP Micaela Passerino Gluz - UFRGS Nayraline Barbosa - UFCE Rudá Ricci - Instituto Cultiva Resumo: Propomos discutir neste painel temático como o trabalho com territórios e as comunidades contribui para a diminuição da evasão escolar e as violências intra escolares a partir de três projetos: Comunidades Educadoras, Territórios Criativos e Escola da Cidadania. Esses três projetos têm em comum a atuação em território a partir de uma perspectiva cultural e educacional. O Comunidades Educadoras busca construir redes intersetoriais entre educação, saúde e assistência social com objetivo de reduzir a evasão escolar e violências a partir da aproximação das famílias com a comunidade escolar por meio do articulador comunitário. O Territórios Criativos busca construir uma rede de movimentos culturais com objetivo de fomentar a cultura no território e reduzir violências, relacionando as comunidades com o território e sua própria produção cultural. A Escola da Cidadania busca construir um espaço de formação para a cidadania, envolvendo as comunidades escolares e os territórios que ocupam, com objetivo de formar lideranças comunitárias para a incidência na participação e formulação de políticas públicas do território, relacionando território, educação e participação busca-se o engajamento da comunidade e a redução de violências, com maior pertencimento na comunidade escolar. Nesses três projetos se busca a redução de violências e maior pertencimento à comunidade escolar, a partir da relação do território e das comunidades. A tese que levantamos para discussão é como trabalhar o território e as comunidades auxiliam no pertencimento escolar o que gera menor evasão escolar e pode ter potencial para reduzir violências. Palavras-chave: território; educação; violências; evasão escolar; comunidades Território, violência e evasão escolar: um olhar a partir do Comunidades Educadoras no Rio Grande do Norte Resumo: Este texto analisa algumas categorias relacionadas a violência no território e evasão escolar, com um recorte geográfico de seis (6) municípios da Grande Natal (RN), a partir de dados obtidos pelas visitas domiciliares realizadas dentro do Programa Comunidades Educadoras, parceria entre a Secretaria Estadual de Educação, do Lazer e do Esporte do Rio Grande do Norte (SEEC) e o Instituto Cultiva. Foram quantificados dados sobre infrequência/evasão escolar, socialização das famílias no território e modos de deslocamento de estudantes até a escola em relação à percepção das famílias sobre seu bairro ter altos índices de violência. A análise dos dados se deu à luz do Mapa da Violência (Ipea, 2024), do relatório da UNICEF A educação que protege contra a violência, e de autores como Evangelista (2017), Krenzinger e Soares (2020), Papalia, Olds e Feldman (2006). Palavras-chave: violência, evasão escolar, território, Comunidades Educadoras. Introdução As manifestações e os índices da violência urbana no Brasil têm sido rigorosamente mapeados pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Os últimos dados são da pesquisa de 2024, que constitui o Mapa da Violência 2024 e por eles chegamos a algumas informações importantes para pensarmos a cidade de Natal e seu entorno: A partir da década de 2010, a disputa mais aguerrida por territórios e pelo controle do corredor internacional de narcotráfico, no Norte e Nordeste, entre as duas maiores facções do país e seus aliados regionais, fez estourar uma intensa guerra nos anos de 2016 e 2017. Nesse período, o número de mortes aumentou [...] chegando até as capitais nordestinas. (Cerqueira; Brueno, 2024, p.8). Merecem destaque resultados positivos na redução de crimes violentos registrados em 2023 em relação a 2022, no Rio Grande do Norte O Programa Comunidades Educadoras elenca dados sobre as condições de vida dos (as) estudantes e suas famílias através de entrevistas domiciliares realizadas a partir de visitas indicadas pela gestão/coordenação de cada escola envolvida no programa. O objetivo final é aproximar escolas e equipamentos territoriais de saúde, assistência e proteção, para potencializar ações visando a garantia de direitos de crianças e adolescentes. No Rio Grande do Norte estão envolvidas 64 escolas estaduais nos municípios citados e o foco são estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental. Por haver forte cultura de fracasso escolar, que impõe altos índices de repetência e evasão escolar, há alunos(as) de 16-17 anos ainda inseridos(as) nesta etapa da escolaridade. Segundo o Mapa da Violência, que analisa vítimas de homicídio na primeira infância (0 a 4 anos), crianças (5 a 14 anos), e adolescentes (15 a 19 anos), estes últimos são “as vítimas mais frequentes de homicídio entre as faixas etárias analisadas [...]” (Cerqueira; Bueno, 2024, p.26). No caso de adolescentes, embora a residência permaneça como o local de maior frequência (47,5%), violências em via pública representam 29,2% das notificações, sugerindo diferenciada dinâmica de violência com o passar da idade. (Cerqueira; Bueno, 2024, p.33). Sabemos que a faixa etária da adolescência é também a fase de busca de afirmação identitária, a qual se dá com “afastamento” da família, em que sujeitos se ligam mais a relações de amizade e grupais, que propriamente ao círculo familiar. A intensidade e a importância das amizades, bem como o tempo passado com amigos, são provavelmente maiores na adolescência do que em qualquer outra época da vida. As amizades tornam-se mais recíprocas na adolescência. Os jovens adolescentes começam a depender mais dos amigos do que dos pais para intimidade e apoio (Papalia; Olds; Feldman, 2006, p.502) Nesse sentido, o lugar de socialização torna-se o entorno da casa, a rua e o bairro que passam a ser as referências para trocas culturais e socialização. Quando este local não oferece possibilidades de sociabilidade imunes a manifestações explícitas de violência ocorre a sua naturalização, que castra relações sociais, normatiza comportamentos, impede uso dos equipamentos públicos culturais e de lazer. Metodologia O formulário para entrevista com as famílias utilizado no projeto, tem 100 questões e obtém dados que espelham as vulnerabilidades de estudantes e suas famílias, nos quesitos contexto familiar; socioeconômico e de moradia; saúde emocional e acompanhamento escolar. Conforme o objetivo do programa, identificada(s) a(s) vulnerabilidade(s), aciona-se a rede de proteção para ações pontuais necessárias. Pela abrangência das questões, é possível obter, em dados absolutos ou cruzados, um retrato próximo da realidade vivida pelos(as) estudantes, e no nosso caso, foi possível fazer recortes e cruzamentos para a investigação proposta. Selecionado o motivo da visita, conforme caracterização do programa, como a situação estudantil de infrequência/evasão ou abandono, foi realizado um cruzamento com as seguintes variáveis: 1) percepção do bairro como violento; 2) atividades de convívio familiar fora do domicílio; 3) modo de deslocamento do estudante até a escola e 4) nos casos de deslocamento a pé se o(a) estudante é acompanhado(a) até a escola. Conforme análise e diálogo com autores(as), mesmo sem a possibilidade de estabelecer a relação causal da infrequência/ evasão à situação de violência territorial, os dados permitem refletir sobre possíveis impactos negativos da violência territorial na frequência escolar. Resultados Das 392 famílias entrevistadas até 25/02/2025, 67 tiveram como motivo indicador da visita o(a) estudante estar em situação de infrequência, evasão ou abandono escolar, ou seja, 17%. Dessas 67 famílias, 16 residem em bairros ditos por elas mesmas como “violentos”, revelando o índice de 24%. Quando visualizamos a socialização extradomiciliar dessas 16 famílias, ou seja, na circulação local – territorial, encontramos: não é comum realizar atividades juntos fora de casa (07 casos = 44%), frequentar atividades religiosas (05 casos = 31%), visitar vizinhos, amigos, parentes (03 casos = 19%), frequentar festas, eventos na comunidade (01 caso = 6%). É plausível pensar que famílias estão sendo levadas a não realizarem atividades fora de casa, não participarem de eventos sociais e não acessarem os equipamentos públicos de lazer, restringindo-se a circular onde há possibilidades de segurança como visitas a parentes e atividades religiosas. Esse recuo pode indicar uma aceitação, ainda que naturalizada, das impossibilidades de circulação impostas pela violência local e faz pensar que essa “aceitação” da violência traduz o reconhecimento de relações de poder que imperam no território, o que por parte dos(as) adolescentes incorre em riscos de cooptação para fazer parte de determinados grupos, assumidos como os influenciadores, poderosos, sendo eles por sua vez, atraentes para os(as) que estão em busca de afirmação. Ou seja, um forte fator de competição com a atividade estudantil, levando à infrequência e evasão escolar. O que o jovem abandona é a promessa, talvez excessivamente abstrata, de uma vida mais bem construída pelo estudo e pelo trabalho. Em troca, assume um conjunto de experiências concretas vividas em uma dimensão que só pode ser pensada em um presente contínuo (...) (Krenzinger; Soares, 2020, p.30) Foram cruzados os dados de estudantes infrequentes /evadidos e residentes em bairros violentos (16 casos) com a questão que verifica a forma como eles (as) se deslocam até a escola. Dentre as 16 situações, encontrou-se que 10 vão a pé, ou seja 63%. A seguir foram cruzados esses deslocamentos a pé (10 casos) com a questão que investiga se o(a) estudante é acompanhado(a) até a escola. O resultado foi que dos 10 casos, 08 estudantes não são acompanhados(as) (80%) e 02 sim (20%). Essa situação revela uma exposição de adolescentes ao território violento e daí podemos inferir diferentes situações: eventual restrição da circulação imposta pelo poder local aliada ao medo que impede as famílias na impossibilidade de acompanhar ou custear o transporte escolar, de enviar seus (suas) filhos(as) para a escola; a cooptação de adolescentes para atividades fora da escola, dialoga com o relatório “A educação que protege contra a violência” (UNICEF, 2019). Este relatório cita a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (IBGE, 2024). Em 2015, esta mostrou que 14,8% de estudantes disseram “deixar de ir à escola, pelo menos um dia, nos 30 dias anteriores à pesquisa, por não se sentirem seguros no caminho de casa para a escola ou da escola para casa [...]” (p.21-22). Afirma o relatório: Os dados globais, mas sobretudo os nacionais, nos levam a refletir sobre a localização simbólica e material da escola: ela está inserida dentro do território, compartilha com ele sua cultura, sua dinâmica social, seus sujeitos e suas práticas. Assim, a violência que afeta aquele território, também afeta a escola (UNICEF, 2019, p.22) Muitas vezes a escola é refém de situações que afetam todo o território. Mas é ela um também espaço possível para a mobilização de ações que visem a garantia de direitos de crianças e adolescentes, sobretudo o direito à segurança no espaço de vivência para consolidar o direito à educação. Considerações finais Como visualizamos situações de infrequência/evasão e abandono escolar podem estar relacionadas a violência local, aos limites da socialização da família no espaço violento, à maneira como o(a) estudante se desloca até a escola nesse meio e até o fato de, se o deslocamento é à pé, não ter quem o(a) acompanhe até a escola. No escopo deste trabalho, foi possível desvelar que no caso de escolas participantes do Comunidades Educadoras do Rio Grande do Norte, essa realidade acontece. É preciso que a gestão escolar e a gestão pública da Educação estejam atentas para oportunizar recursos pedagógicos e de avaliação de forma a não penalizar estudantes já marcados por alguma vulnerabilidade. Por outro lado, é necessário se conhecer as especificidades do fenômeno da violência presente nos territórios, para então, mobilizar as redes intersetoriais de atenção e proteção, com entidades locais que sejam potenciais parceiras para discussão e iniciativas para empreender uma cultura de paz, para uma educação que problematize a violência, evitando-se sua naturalização. A experiência do programa Comunidades Educadoras mostra que a formatação da rede territorial é espaço de disputas, de atuações que nem sempre coesas. E este é um desafio a ser vencido. O Comunidades Educadoras propõe na e a partir da escola uma política do cuidado, com atividades no seu espaço e/ou no domicílio, com envolvimento das famílias, dos equipamentos de saúde e assistência, visando o fortalecimento do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes. É perspectiva do Comunidades Educadoras que a escola que adere ao programa possa contribuir para efetivação de um território solidário e democrático, com vínculos fortes entre seus equipamentos, de forma que atendam as necessidades das famílias e reduzam os índices de insegurança e evasão escolar. Referências CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da violência 2024. Brasília: Ipea; FBSP, 2024. Disponível em:
https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/14031 Acesso 25 fev.2025. EVANGELISTA, Ana Paula. Impactos da violência sobre a educação. Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV)/ Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) . Disponível em:
https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/reportagem/impactos-da-violencia-…. Acesso 25 fev.2025. JOTFORM. Dados do programa Comunidades Educadoras no Rio Grande do Norte. 2025. KRENZINGER,Miriam, SOARES, Luiz Eduardo Soares. Evasão escolar, violência e políticas intersetoriais. In: O Social em Questão - Ano XXIII - nº 46 - Jan a Abr/2020. Disponível em:
https://osocialemquestao.ser.pucrio.br/media/OSQ_46_art_1.pdf Acesso 25 fev 2025. PAPALIA Diane E., OLDS, Sally W, FELDMAN, Ruth D. Desenvolvimento Humano (Trad: Daniel Bueno). Artmed, 2006. UNICEF. A educação que protege contra a violência. 2019. Acesso disponível em:
https://www.unicef.org/brazil/relatorios/educacao-que-protege-contra-vi…. Acesso em 07 abr 2025. As expressões culturais como estratégias de intervenção para redução da violência e evasão escolar Resumo: Este artigo explora a implementação do Projeto Territórios Criativos no município de Contagem, que teve como objetivo mapear e registrar entidades e expressões culturais. Essa iniciativa representa um passo importante para a valorização da cultura local, funcionando como um diagnóstico que revela a riqueza e diversidade da cidade. Além disso, destaca o papel essencial das expressões culturais - como arte, música, dança e grupos tradicionais - como ferramentas eficazes para promover a inclusão social, fortalecer identidades coletivas e oferecer alternativas construtivas para grupos vulneráveis em contextos marcados pela marginalização social, exclusão econômica, violência e evasão escolar. Palavras-chave: cultura; educação; violências; pertencimento Introdução A cultura é uma expressão essencial da identidade de um povo e desempenha um papel crucial na construção e fortalecimento das comunidades. Através de ações culturais, é possível fomentar a participação popular, criar ambientes inclusivos e mitigar problemas sociais como evasão escolar e violência. Este artigo discute como essas iniciativas culturais podem ter um impacto positivo nesses aspectos, promovendo uma sociedade mais coesa e segura. As atividades culturais proporcionam oportunidades de aprendizado, expressão e convívio social que podem transformar vidas. Quando integradas ao ambiente escolar e comunitário, essas ações têm o potencial de engajar indivíduos - especialmente jovens - em práticas saudáveis e construtivas. Dada a relevância da educação e segurança para o desenvolvimento social, é fundamental investigar como as ações culturais podem contribuir para reduzir a evasão escolar e a violência. A evasão escolar e a violência apresentam desafios significativos em muitas comunidades, funcionando como barreiras ao desenvolvimento social e econômico. A falta de engajamento dos jovens na escola e sua exposição a ambientes violentos perpetuam um ciclo de exclusão e marginalização. Assim, a questão central deste estudo é: como as ações culturais e a participação popular podem ajudar na redução da evasão escolar e da violência? Bell Hooks (2022) enfatiza que o verdadeiro pertencimento vai além da simples aceitação; ele envolve uma conexão profunda, amor e solidariedade entre as pessoas. Além disso, é fundamental analisar as estruturas sociais que frequentemente excluem indivíduos e grupos. A autora também destaca a importância de cultivar uma cultura que valorize a diversidade e promova espaços de solidariedade e empatia. A relação entre cultura e educação é inseparável. A prática cultural no ambiente escolar pode despertar nos estudantes um novo interesse pelo aprendizado, incentivando-os a permanecer na escola e a buscar novas oportunidades de crescimento pessoal e profissional, tendo a arte e a cultura um poder de transformar vidas, oferecendo aos jovens ferramentas para expressar suas emoções e experiências de maneira positiva e construtiva. A diminuição da violência está intimamente ligada à promoção de ações culturais. Ao fomentar a inclusão social e o respeito pelas diferenças, as atividades culturais contribuem para a criação de um ambiente mais harmonioso e seguro. Por meio da arte, é possível abordar temas complexos e sensibilizar a comunidade sobre questões sociais relevantes, criando um espaço para diálogo e compreensão mútua. As ações culturais ao promover a inclusão social e o respeito pelas diferenças, contribuem para fortalecer os laços comunitários, criando um senso de pertencimento e identidade que é essencial para reduzir comportamentos violentos, assim, indivíduos que se sentem parte de uma comunidade tendem a valorizar e proteger esse espaço. Metodologia O processo metodológico adotado neste estudo foi composto por diversas etapas interligadas. Inicialmente, foi realizada uma pesquisa documental que possibilitou a identificação das iniciativas culturais previamente apoiadas, das áreas prioritárias de investimento e das manifestações culturais que receberam destaque ao longo do tempo. Essa análise forneceu uma base sólida para compreender o panorama cultural atual de Contagem, bem como as políticas implementadas para a promoção da cultura local. Consequentemente, foram conduzidas entrevistas estruturadas que permitiram aos participantes compartilhar suas experiências e perspectivas. Esse método também facilitou a identificação de dificuldades enfrentadas e das oportunidades disponíveis no contexto cultural. Além disso, a aplicação de questionários, tanto em formato online quanto presencial, constituiu uma estratégia fundamental para a coleta de dados quantitativos sobre as entidades culturais. Os questionários abordaram diversos aspectos, incluindo as atividades realizadas, o perfil do público-alvo, as áreas de atuação, a estrutura organizacional e os desafios enfrentados. A participação em eventos culturais locais foi uma etapa essencial da metodologia, permitindo a observação direta das práticas culturais em ação. A presença da equipe de mapeamento em festivais, apresentações artísticas e outras atividades possibilitou o registro de comportamentos, interações e dinâmicas sociais que não poderiam ser capturados apenas por meio de entrevistas ou questionários. Essa observação proporcionou uma compreensão mais aprofundada da vivência cultural dos cidadãos e das interações que ocorrem dentro desses contextos. Assim o estudo adota uma abordagem qualitativa, exploratória e descritiva, fundamentada em uma revisão bibliográfica e na análise de iniciativas culturais que operam no município de Contagem, dando lugar a um olhar do como essas iniciativas contribuem para a prevenção de violências e para a ressignificação das trajetórias de indivíduos em situação de vulnerabilidade. Resultados O mapeamento resultou na identificação de diversas entidades e expressões culturais em Contagem refletindo a diversidade étnica e social do município, englobando manifestações tradicionais, contemporâneas e iniciativas de inclusão e protagonismo social. Durante o processo de cadastramento, foram realizados 340 registros. No entanto, é fundamental destacar algumas questões que impactaram esse processo ao longo do período, e dentre eles destacam-se influências político-partidárias; o descrédito em relação à valorização homogênea da cultura no município; e a falta de comunicação e transparência por parte da prefeitura sobre o andamento do mapeamento e do cadastramento cultural; falta de financiamento; necessidade de capacitação. Além disso, expressaram a necessidade de mais oportunidades de formação, intercâmbio cultural e uma maior divulgação de eventos. A análise dos dados coletados durante o mapeamento evidenciou que a cultura em Contagem é, de fato, rica e diversificada, refletindo uma ampla gama de expressões artísticas e culturais que envolvem diferentes segmentos da população. No entanto, essa riqueza cultural é acompanhada de desafios significativos que comprometem o potencial pleno dessas manifestações. O mapeamento das entidades e expressões culturais do município de Contagem representa um passo crucial para a valorização da cultura local, servindo como um diagnóstico que revela não apenas a riqueza e a diversidade presentes na cidade, mas também os desafios que precisam ser enfrentados para que essa cultura possa se desenvolver ainda mais. A realização desse mapeamento é um convite à reflexão sobre a importância da cultura como um patrimônio coletivo, capaz de unir comunidades, promover identidades e ser instrumento de intervenção social e educacional. Considerações Finais A violência, enquanto um fenômeno complexo e multifacetado, possui raízes que se entrelaçam nas esferas social, econômica e psicológica, influenciando a formação da identidade dos indivíduos. De acordo com Bourdieu (1983), o acesso à cultura é um capital simbólico que pode mitigar desigualdades sociais e abrir novas oportunidades para aqueles que estão à margem. Ele argumenta que “o capital cultural pode se manifestar de três formas: no estado incorporado, como disposições duradouras do corpo; no estado objetivado, na forma de bens culturais; e no estado institucionalizado, através de títulos acadêmicos” (Bourdieu, 1983, p. 3). Essa perspectiva ressalta a capacidade da cultura de empoderar e ressignificar identidades de sujeitos afetados pela violência. A análise dos dados obtidos no mapeamento revela não apenas a riqueza das expressões culturais em Contagem, mas também a relevância de cada uma delas na construção da identidade local. Fundamentando-se na teoria de Vygotsky (1991), sobre a importância da cultura no desenvolvimento humano por meio da interação social, Vygotsky afirma que “o aprendizado desencadeia diversos processos internos de desenvolvimento que só podem ocorrer quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e coopera com seus pares” (Vygotsky, 1991, p. 101). Assim, a participação em atividades culturais pode fomentar habilidades cognitivas, emocionais e sociais, contribuindo para a reestruturação das trajetórias de vida. A identidade está profundamente relacionada ao reconhecimento social e ao senso de pertencimento. Erikson (1976) argumenta que “a identidade é algo que separa e une simultaneamente o indivíduo à comunidade” (Erikson, 1976, p. 25). Portanto, projetos culturais podem servir como espaços de pertencimento e fortalecimento emocional para indivíduos em situação de vulnerabilidade, ajudando a prevenir sua inserção em redes de violência. No âmbito educacional, Paulo Freire (1987) enfatiza a cultura como um instrumento essencial para a conscientização e libertação social, afirmando que “a educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo” (Freire, 1987, p. 47). Essa visão evidencia que iniciativas culturais podem ser ferramentas eficazes para conscientização e mudança de comportamento em comunidades afetadas pela violência. Ademais, o conceito de educação não formal abrange diversas organizações e atividades voltadas à formação fora do sistema educacional tradicional. Libâneo (2002) ressalta que essa modalidade se caracteriza pela intencionalidade e abrangência em diferentes áreas do conhecimento. No Brasil, especialmente em São Paulo, observa-se uma ampliação significativa da educação não formal como resposta às necessidades sociais de crianças e adolescentes em situação vulnerável. Diante desse cenário, fica evidente que a educação – seja formal, informal ou não formal – ao integrar intervenções culturais em seu contexto, emerge como uma estratégia eficaz para promover inclusão e transformação social entre crianças, adolescentes e comunidades vulneráveis. Isso contribui para a construção de uma sociedade mais justa e fortalecida. Além de combater ciclos de violência que se perpetuam em espaços intrafamiliares e nos territórios, de forma . Em conclusão, a integração da cultura como uma estratégia de interlocução, tanto no âmbito social quanto educacional, permite que as entidades formem redes de colaboração que promovem o fortalecimento dos indivíduos. Esse processo contribui para a construção de um ambiente mais resiliente e inovador e mitigar problemas sociais como evasão escolar e violências dentro do território e de comunidades familiares. Além de ampliar as oportunidades para cada entidade de forma coletiva, enriquecendo o senso de comunidade e pertencimento entre todos os envolvidos. Referências BOURDIEU, Pierre. Os três estados do capital cultural. Cambridge: Cambridge University Press, 1983. ERIKSON, Erik H. Identity and the life cycle. New York: Norton, 1976. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. HOOKS, Bell. Pertencimento: uma cultura do lugar. Ed. Elefante,2022. LIBÂNEO, J. C. Pedagogia e pedagogos para quê?. São Paulo, SP: Cortez, 2002. ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo. Martins Fontes, 1977. VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: O desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 6. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991. O projeto Escola da Cidadania e sua relevância na formação de uma cidadania ativa em Maringá e São Paulo Resumo: O Projeto Escola da Cidadania (EC) desenvolvido em parceria com educadores sociais, visava promover a formação de conselheiros, membros de associações de bairro e outras lideranças comunitárias, com o objetivo principal de fomentar o controle social sobre as políticas públicas locais e promover uma cidadania ativa e consciente. Foi estruturado com base em cursos permanentes e outras atividades formativas, todas oferecidas de maneira gratuita aos moradores de Maringá em 2006. A experiência em São Paulo (Rede de Escolas da Cidadania) ampliou a incidência do projeto ao inserir a modalidade EaD aos cursos e a construção de uma biblioteca virtual. A importância de tais ações se reflete em uma visão ampla de fortalecimento da democracia, por meio da educação cidadã, que visa não só informar, mas também empoderar os cidadãos a tomar decisões informadas sobre o que impacta suas vidas e comunidades. Palavras-chave: Território; Educação para a Cidadania; Lideranças Comunitárias; Participação e Controle Social O Projeto Escola da Cidadania (EC), realizado pelo Instituto Cultiva no município de Maringá, em 2006, emergiu como uma proposta inovadora e transformadora no cenário educacional e social da cidade. Este projeto, desenvolvido em parceria com educadores sociais, visava promover a capacitação e a formação de conselheiros, membros de associações de bairro e outras lideranças comunitárias, com o objetivo principal de fomentar o controle social sobre as políticas públicas locais e promover uma cidadania ativa e consciente. A importância de tais ações se reflete em uma visão ampla de fortalecimento da democracia, por meio da educação cidadã, que visa não só informar, mas também empoderar os cidadãos a tomar decisões informadas sobre o que impacta suas vidas e comunidades. A relevância de iniciativas como o EC está relacionada à construção de uma nova cultura política que prioriza a participação efetiva dos cidadãos nas decisões que afetam suas vidas cotidianas. De acordo com Santos (2006), essa mudança é imprescindível para que a sociedade se torne mais democrática, justa e plural. O autor salienta que uma verdadeira cultura democrática não pode ser construída sem a participação ativa da sociedade em todos os processos políticos e sociais. Ao compreender o controle social das políticas públicas como um direito fundamental, os cidadãos podem atuar de forma a influenciar as decisões que moldam seu futuro, contribuindo para uma maior transparência e eficácia na gestão pública. O Projeto Escola da Cidadania foi estruturado com base em cursos permanentes e outras atividades formativas, todas oferecidas de maneira gratuita aos moradores de Maringá. A proposta do EC era não apenas formar cidadãos críticos e ativos, mas também equipá-los com conhecimentos teóricos e práticos que os capacitassem a participar efetivamente da gestão pública e no processo de tomada de decisões nas suas respectivas comunidades. Para isso, foram abordados temas de grande relevância para a cidadania, como a análise do orçamento público, a formação de lideranças comunitárias, os direitos humanos, a educação para a cidadania e o controle social das políticas públicas. De acordo com Almeida (2007), a formação de lideranças comunitárias é um dos pilares fundamentais para garantir a eficácia da participação cidadã no controle social. O autor argumenta que o fortalecimento das bases democráticas nas comunidades passa pela capacitação dessas lideranças, que, ao se tornarem protagonistas em seus territórios, promovem a disseminação de valores democráticos e a mobilização social. O EC, ao oferecer formação específica para essas lideranças, contribuiu para o fortalecimento da sociedade civil, permitindo que os moradores de Maringá não fossem apenas espectadores das políticas públicas, mas sim atores ativos na construção e implementação dessas políticas. Elencamos também a relação da participação e da construção de lideranças comunitárias na redução de evasão escolar e violências no território, ao se compreenderem como atores ativos nos processos políticos isso contribui para sua incidência no território em busca de melhorias na qualidade do ensino, no pertencimento da comunidade dentro da escola e no trabalho de compreensão da comunidade na importância do combate à evasão escolar, procurando também formas de resoluções de condições nas famílias que impeçam as crianças e adolescentes de participarem das aulas como as condições de desemprego ou de falta de rede de apoio. A educação para a cidadania, conforme abordada no projeto, vai além da simples transmissão de conteúdos sobre os direitos e deveres dos cidadãos. Ela envolve uma prática contínua e dinâmica, como destaca Cunha (2011), sendo essencial para a conscientização política e social das pessoas. A educação cidadã, ao promover o conhecimento e a reflexão sobre as condições políticas e sociais das comunidades, estimula a participação ativa dos cidadãos na gestão pública. Além disso, ela fortalece o senso de pertencimento e a compreensão de que cada indivíduo tem um papel crucial na construção de uma...