TERRITORIALIDADE E PROCESSOS PRÓPRIOS DE APRENDIZAGENS: A COSMOVISÃO NO PROCESSO EDUCATIVO GUARANI E KAIOWÁ

- 215301
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
TERRITORIALIDADE E PROCESSOS PRÓPRIOS DE APRENDIZAGENS: A COSMOVISÃO NO PROCESSO EDUCATIVO GUARANI E KAIOWÁ Dada a realidade indígena de Mato Grosso do Sul e a construção sócio-política e epistemológica, - considerando as cosmovisões indígenas -, garantidas na CF/88, esta pesquisa investiga como os processos próprios de aprendizagens se constituem e circulam na comunidade Guarani e Kaiowá dos municípios de Japorã (Aldeia Guaimbé e Porto Lindo) e Coronel Sapucaia (Aldeia Taquaperi). Desse modo, o estudo analisa as interações entre a territorialidade e a cosmovisão Guarani e Kaiowá no processo educativo, dialogando entre os saberes tradicionais e os saberes ocidentais, conforme seus modos de viver a partir de práticas e metodologias próprias, aliados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável proposto para o Brasil (Objetivo 4 – Educação de qualidade), o qual destaca a importância de uma educação baseada no respeito à diversidade cultural e na valorização dos conhecimentos tradicionais. Diante disso, a expectativa da pesquisa, centra-se na produção de conhecimentos que se relacionam em duas lógicas distintas - indígenas e ocidentais – as quais se propõem compreender mutuamente em espaços de ações acadêmicas e comunitárias, sobretudo, como suportes consistentes em nossos campos de atuação junto às comunidades Guarani e Kaiowá. Tendo como embasamento o diálogo entre os saberes indígenas e ocidentais, no intuito de estabelecer uma relação efetiva entre estudantes, docentes, comunidade e pesquisadores no contexto do processo educativo Guarani e Kaiowá, espera-se que a pesquisa – no seu desenvolver – se torne uma via para que os conhecimentos indígenas possam ser compartilhados, orientando ações e estratégias conjuntas, tanto para as sociedades indígenas quanto para as sociedades não indígenas, pautada nas experiências e nas vivências dos saberes tradicionais Guarani e Kaiowá, como elementos fundamentais para repensar o processo educativo e que este se estenda para pensar e propor políticas públicas para a educação escolar indígena, tendo como referência os territórios tradicionais em construção e as mudanças constantes nos seus aspectos físicos, sociais e cosmológicos de ser e estar no mundo. Para tanto, cabe destacar que este trabalho está ancorado nas concepções de mundo e de territorialidade (fundamental na compreensão da epistemologia e cosmologia Guarani e Kaiowá) que se sustentam nos chamados “processos próprios de aprendizagem”, ou de outro modo, nas “tecnologias sociais” desenvolvidas e apropriadas por eles, reunindo processos formativos que evolvem saberes e fazeres específicos, com potências socioculturais no intuito de produzir conhecimentos que sejam capazes de resolver os problemas sociais onde a comunidade está inserida, a partir de uma perspectiva outra, no diálogo entre diferentes conhecimentos. Haja vista, a complexidade do tema, a pesquisa se articula no campo teórico dos estudos pós-coloniais e decoloniais, dialogando com diferentes áreas do conhecimento, como História, Antropologia, Arqueologia e Pedagogia, atentando para as diferenças que se revelam num processo de negociação, tradição, tradução e hibridização que vão subsidiando e fundamentando estudos sobre a territorialidade, cosmologia e os processos próprios de aprendizagens para a compreensão de como essas temáticas se articulam no processo educativo Guarani e Kaiowá, em seus contextos e pluralidades cotidianas. E ainda, como sugere Ocaña e López (2018), é importante destacar que nesse espaço de pesquisa, sejam gerados processos reflexivos sobre si mesmos – sobre nós mesmos –, de se ouvir e de observar as transformações subjetivas que ocorrem tanto nos pesquisadores quanto naqueles com quem compartilham essa essa aventura de pesquisar, de conversar, deixando-se levar pelas crianças, pelos jovens, pelas mulheres e pelos mais velhos da comunidade, por suas histórias e compreensões de mundo, para – com eles – abrir possibilidades para caminhos alternativos para a construção de um mundo mais justo, gerados a partir do compromisso ético entre outros sujeitos e outros saberes. Diante do exposto, observa-se que, de alguma maneira, os conhecimentos são transmitidos e circulam nas comunidades indígenas entre o modo de ser Guarani e Kaiowá e também pelas relações externas estabelecidas pelo contato, em que os povos indígenas aprenderam a viver e a conviver nessa fronteira, se organizando de acordo com suas epistemologias e cosmologias próprias, dentro de um mundo moderno capitalista, regido pelas leis de mercado que operam dentro de estruturas coloniais do poder e do saber. E, é nesse sentido que se compreende que a organização social Guarani e Kaiowá envolve não apenas o território enquanto espaço físico, mas como um espaço amplo e necessário que agrega os elementos epistemológicos e cosmológicos que compõem o modo de ser e fazer de cada família. Conforme mostra Brand (1998, p. 22, grifos nossos): Este imenso território tradicional, denominado ñande retã, o ‘nosso território’, é visto como espaço amplo, com determinadas características ecológicas, onde os Kaiowá localizam suas aldeias, tendo como referenciais básicos as matas e os córregos. Será, porém, em torno de cada uma das aldeias, que emerge uma segunda dimensão de território como algo específico e concreto para cada família extensa, sempre em busca da continuidade do bom modo de ser de seus antepassados. A questão do território é um tema complexo, pois, para os Guarani e os Kaiowá, o território vai muito além do que um limite de extensão de terra, ao contrário do entendimento ocidental, cujos espaços são limitados para sua subsistência, mas não estabelecem conexões culturais. Nesse caso, um território indígena é um local necessário para o desenvolvimento físico e espiritual da comunidade, garantindo, assim, a continuidade da cultura Guarani e Kaiowá, a qual possibilita que os ensinamentos sejam transmitidos, como pontua Carvalho (2018, p. 80): É através do território que os valores e saberes são mantidos e repassados na cultura. São conhecimentos que adquirimos através da natureza, com a espiritualidade do tempo e de outros elementos que fazem parte da vida dos Guarani e Kaiowá. No entendimento de Gallois (2004, p. 5), terra e território são duas noções distintas: “[...] ‘Terra Indígena’ diz respeito ao processo político-jurídico conduzido sob a égide do Estado, enquanto a de ‘território’ remete a construção e à vivência, culturalmente variável, da relação entre uma sociedade específica e sua base territorial”. Por esse viés, Lescano (2016, p. 60, grifos nossos) salienta: O território - ñande yvy - nossa terra – teko-ha, onde ocorre a vida, o modo de viver, é controlado, regulado e reconstruído; é onde está concentrado o significado de tudo, a história do povo ou do grupo familiar extenso; é onde está o caminho - tape po’i, os rios, os córregos - ysysry, a mata – ka’aguy, a roça - kokue, as plantas e remédios - temitỹ e pohã, onde é construída a casa de reza - óga pysy, onde havia muita festa. É no território tradicional que estão guardados toda a história e os valores das parentelas, do grupo, e onde tenho, por obrigação, de ser enterrado. É por isso que os Guarani e Kaiowá preferem morrer por esses valores e não, simplesmente, por terra, mas pelo que nela está representado. Seguindo essa mesma perspectiva e considerando a territorialidade um lugar vital para a existência dos povos Guarani e Kaiowá, é imprescindível destacar que, no território, configuram-se tanto o mundo físico quando o mundo espiritual, pois os lugares têm histórias e carregam memórias que propiciam a produção de conhecimentos que propiciam a continuidade ao modo de ser e fazer Guarani e Kaiowá. Portanto, quando há a perda do território, há, também, a perda de outros elementos culturais fundamentais dos processos próprios de aprendizagens Guarani e Kaiowá. Assim sendo, observa-se que estudos sobre os processos próprios de aprendizagem da população indígena brasileira, no contexto de suas particularidades e territorialidades, têm sido escassos principalmente se levarmos em consideração os aspectos específicos destes processos enquanto método/formas de ensinar e aprender, transferidos para as obrigações e responsabilidades da escola indígena diferenciada e específica (orientada a partir dos dispositivos legais pós CF 88, como LDBEN nº 9.394/1996; o Decreto nº 6.861/2009, Parecer CNE nº 13/2012 e a Resolução CEB nº 05/2012 e o PNE nº 13.005/2014), numa perspectiva intercultural, cuja dinâmica se dá a partir dos movimentos cognitivos e subjetivos de percepção e compreensão do mundo e de si mesma. Dessa forma, compreende-se que o reconhecimento da territorialidade e dos processos próprios de aprendizagens Guarani e Kaiowá, são elementos estruturantes para se dar um passo importante na promoção do diálogo entre diferentes saberes, destacando que suas práticas são essenciais para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e diante disso pensar políticas públicas a partir da ciência indígena. Referências BRAND, Antônio. “Quando chegou esses que são nossos contrários”: a ocupação espacial e o processo de confinamento dos Kaiowá/Guarani no Mato Grosso do Sul. Multitemas, Campo Grande, n. 12, p. 21-51, nov. 1998. CARVALHO, Katiana Barbosa. A matemática da cultura Guarani/Kaiowá e o processo de ensino/aprendizagem: diálogos de saberes. 2018. 99 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande, 2018. GALLOIS, Dominique Tilkin. Terras ocupadas? Territórios? Territorialidades. In: FANY, Ricardo (org.). Terras indígenas e unidades de conservação da natureza: o desafio das sobreposições. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2004. p. 37-41. LESCANO, Claudemiro P. Tavyterã Reko Rokyta: os pilares da educação Guarani Kaiowá nos processos próprios de ensino e aprendizagem. 2016. 108 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande, 2016. OCAÑA, Alexander Ortiz; LÓPEZ, María Isabel Arias. Hacer decolonial: desobedecer a la metodología de investigación. Hallazgos, v. 16, n. 31, p. 147-166, 2019.

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  • GE Educação e Povos Indígenas