SUSTENTABILIDADE E FÉ NA EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA PARA A ECODEMOCRACIA

- 215225
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
SUSTENTABILIDADE E FÉ NA EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA PARA A ECODEMOCRACIA O ano de 2025 marca quatro décadas de redemocratização do Brasil após 21 anos de ditadura civil-empresarial-militar no país. O movimento Diretas Já, de 1984, dera protagonismo à expressão popular, até que em janeiro de 1985, foi eleito, mesmo que de forma indireta, o primeiro presidente civil desde 1964. Assim, há quarenta anos renascia um país traumatizado por ações de uma ditadura que produzira mortos, desaparecidos, exilados e censurados. Mudamos consideravelmente desde então, mas, coletivamente, tomamos a democracia como dada, sem atentar às necessidades de dedicação dos concidadãos e de escrutínio constante das instâncias que a sustentam. Sintoma dessa inércia é que somente após 26 anos de redemocratização, foi sancionada lei para instaurar a Comissão Nacional da Verdade, com finalidade de “examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas no período fixado (...) efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional” (Brasil, 2011, art. 1º). A democracia, que prometia ser robusta, tem se revelado frágil; principalmente nos últimos anos, em que a extrema direita vem ocupando espaços e dominando a comunicação digital. Tentativas de autocracia associadas aos algoritmos que regulam conteúdos e atravessam práticas comunicativas colocaram na agenda política o radicalismo e promoveram fraturas no debate público. Para completar o cenário assustador, a sobrevivência da espécie humana no planeta está sob clara ameaça. Segundo especialistas, se permanecermos com os atuais modelos de consumo, até 2050 a Terra estará inóspita. O acordo de Paris seria uma iniciativa importante, se, de fato, seus signatários atendessem às contribuições nacionalmente determinadas – NDC. Entretanto, há poucas ações concretas e eficazes, principalmente, de países ricos. Este trabalho, assim, caminha para refletir sobre responsabilidades que a educação linguística pode ter no cultivo e na defesa da democracia brasileira em articulação com a vida sustentável no planeta. Advogo que 1) os cenários ameaçadores – político e climático – não são coincidentes isoladamente; 2) a linguagem tem papel crucial na construção desses cenários; 3) é peremptório incluir esses temas na educação linguística contemporânea. Defendo a necessidade de abordar a dinâmica comunicacional da contemporaneidade, a defesa da democracia e do ecossistema conjuntamente em um movimento de educação linguística implicada. Faço-o na materialidade do ensaio, cuja orientação metodológica não prima por respostas, mas se destina a uma reflexão intelectual (Meneghetti, 2011), para oferecer perguntas e questionamentos ao leitor e incitá-lo a se debruçar sobre o tema em um diálogo interpretativo. Segundo os estudos decoloniais de ecologia, há confluência e interdependência entre as ameaças sociais e bioambientais (Ferdinand, 2022). Embora o paradigma moderno nos incline a vê-los separados entre si, o autor denuncia que a fratura colonial que dissociou o corpo biológico do corpo social esconde que a história ambiental do planeta está diretamente ligada à história colonial (Ferdinand, 2022). Assim também Gosh (2022) constata que “desde muito cedo, as emissões de carbono estiveram intimamente ligadas ao poder em todos os seus aspectos” (p. 122). O modelo individual capitalista-consumista derivado de um projeto de poder expansionista-exploratório-cumulativo, além de ser grande responsável pela emergência climática que vivemos nos dias atuais (Krenak, 2020), também atropela a consolidação de uma democracia forte e ampla, ao debilitar tentativas de ampliação de direitos e de mitigação das desigualdades justamente para garantir privilégios socioeconômicos de uns poucos. As práticas docentes no ensino de línguas, portanto, se comprometidas com a democracia e implicadas na vida precisam ir além da primazia à estrutura para buscar os movimentos de comprometimento mútuo da simpoiesis (Haraway, 2016), abranger o imbricamento matéria-discurso (Barad, 2007) de modo a promover educação linguística verde (Unesco,2024). Nesse sentido, é preciso trazer à tona as responsabilidades discursivas que enunciadores carregam em relações sociocomunicativas, inclusive as que se dão no ambiente virtual. Já é tempo de considerar o “conjunto de forças material-discursivas” (Barad, 2007, p. XX), ou seja, o emaranhamento de palavras e matéria sob o qual o mundo está constituído, para desvelar as consequências dos discursos humanos no panorama de emergência climática que vivemos, na fratura do debate público, e nas tentativas de corrosão do tecido social. Um considerável problema tanto no derretimento da democracia brasileira quanto nos riscos à sustentabilidade no país reside na recente associação de vertentes da fé cristã à política partidária e aos objetivos da extrema-direita no país. A religião, como instituição psicossemântica (Sloterdijk, 2016), atribui sentidos para questões desafiadoras, e, no Brasil, é bastante valorizada. Segundo pesquisa em 26 países, o Brasil tem a maior porcentagem de pessoas de fé: 89% dos brasileiros acreditam em Deus ou em alguma força que regule o mundo (Ipsos, 2023, online). Esses resultados confirmam a religiosidade como ethos do nosso povo (Simas, 2020). Quando a constituição republicana separou Igreja e Estado em 1890, o fez somente para garantir, em lei, que o Estado não necessitaria de um poder executivo que fosse representante de Deus. Na prática, o catolicismo, como praticado em Portugal, se entranhou na cultura brasileira a ponto de hoje ser difícil delimitar o que está no âmbito da cultura e o que está no campo da religião cristã , haja vista festas juninas, celebrações de Natal, Páscoa, antropônimos (Maria, João, Pedro – mas nunca Judas), interjeições, entre outras práticas discursivas cotidianas. O cristianismo estabeleceu estreitas relações – embora relativizadas – com a ciência (Hick, 2008), e, nessas bases, desprezou a magia de outras religiões, delimitou fronteira entre o sagrado e o profano, impôs no território invadido seus ritos, mitos e símbolos, sobrepujando as demais práticas religiosas – tanto de africanos escravizados quanto de indígenas que aqui já viviam. Essa separação purificadora categorizou práticas, espaços e pessoas, dessacralizou a Natureza, e deslocou o discurso do sagrado dos organismos vivos da Natureza para uma única divindade acima da Natureza. Os mitos, ritos e símbolos do cristianismo não sacralizam a Natureza, e, consequentemente, ataques aos entes naturais não configuram pecado. Assim, ao mesmo tempo em que hierarquizou e marginalizou as religiões dos povos ameríndios e africanos, que veem na Natureza o espaço do sagrado, o cristianismo indulgenciou a contaminação de rios, mares e lagoas, a extração desmedida de minérios e a devastação de florestas para gerar lucros. A construção ideológico-discursiva da dessacralização da Natureza foi realizada na e pela linguagem; afinal, a separação sagrado-profano foi possível com os étimos do latim. Assim, a problematização linguística – não doutrinária – de discursos do sagrado e formação linguístico-discursiva das religiões, talvez, possa promover o diálogo interfé, tão importante para o fortalecimento das democracias (Kwok, 2017). Discursivamente, precisamos superar o mote brasileiro de que “religião não se discute”, uma vez que a ausência da discussão permite que discursos dogmáticos extremistas e enganadores ocupem, sem qualquer contra-argumentação, os espaços semióticos. Em face a essas considerações, questiono se uma desestabilização de conceitos cristalizados de cristianismo e de religião, por meio da educação linguística, não poderia melhorar nossa relação com a Natureza e com a democracia. O vocábulo religião traz consigo o conceito de sujeito como indivíduo cartesiano, autônomo, apartado da natureza e dono do próprio discurso. Em outras culturas, porém, que concebem o sujeito coletivo, implicado com tudo e com todos ao redor, em uma ligação cosmológica inegociável, outras possibilidades de cristianismo ou de religiões podem emergir. Desse modo, a educação linguística crítica poderia colaborar para dissolver discursos únicos. Não ignoro que esse tema pode ser muito sensível, especialmente em um país que, embora laico, tem população de fé; tampouco, porém, pode ser ignorado, visto que discursos de fé, aliados aos algoritmos, podem ser usados para legitimar atrocidades e exterminar discussões, desmantelando possibilidades de uma democracia forte e consolidada. Nos últimos anos, algumas vertentes do cristianismo, especialmente, o neopentecostalismo, cresceram sobremaneira e se associaram a ultraconservadores extremistas e seus projetos de poder. Dessa junção resultou um grupo que acredita em uma realidade de ordem teológico-política (Birman, 2023) em que um inimigo – de natureza moral e não social – precisa ser radicalmente eliminado. O segmento ultraconservador não parece se incomodar muito com problemas de desigualdade, saneamento, educação ou saúde, mas prioriza pautas morais, que lhes definem o voto. Com as tecnologias digitais, a produção, seleção e distribuição do dicurso (Foucault, 1999) permite a líderes carismáticos (Weber, 2009) insular grupos e criar câmaras de eco (Nguyen, 2018) alicerçadas em pressupostos de fé e bases morais próprias – e não no bem estar coletivo. Esses grupos disseminam discursos de ódio, caricaturam os diferentes e excluem possibilidades de diálogo transcultural (Nicolescu, 1999) ou interfé (Kwok, 2017); pelo contrário, divergentes se tornam inimigos que precisam ser eliminados. A democracia, portanto, é enfraquecida por dentro, por minguar do cotidiano a pluralidade discursiva que a caracteriza. Nessa esteira, ramificações religiosas alimentadas por racismo, xenofobia, misoginia e homofobia, seguem na tentativa de retroceder direitos civis já conquistados e tentam promover uma política do ódio ao divergente, anulando, paradoxalmente, o perfil acolhedor e inclusivo atribuído a Jesus nos evangelhos (Biblia, 2003). Nesse cenário social, “a política e as eleições foram transformadas numa escatologia, na luta sempre recomeçada do bem contra o mal” (Birman, 2023, p. 19). A associação tripartite fé dogmática-política ultraconservadora-algoritmos construiu discursos de fé radicais baseados em acumulação, exclusão, intolerância e punição, e polarizou comunidades discursivas dentro do território nacional. Em consequência, semeou desconfiança em relação à democracia e às convicções fundamentais de cidadania (Birman, 2023). Sabendo que a linguagem funciona por repetição (Barthes, 2013), se as arbitrariedades numa relação de poder são repetidas, acabam tomando força de verdade, mesmo que não haja compromisso com os fatos. Foi pela abordagem discursiva que os sectários da extrema direita brasileira passaram a acreditar que problemas ilusórios e espirituais perturbam a nação, ao passo que negaram veementemente quando um problema real – a pandemia de Covid-19 – exigia posicionamento político firme. Por isso, defendo a educação linguística que enfatiza a opacidade da língua, a falibilidade dos sentidos, as contingências enunciativo-discursivas dos diversos gêneros – mito, fábula, parábola, leis, poema, prosa, conto etc –, as bases discursivas das epistemologias, e as condições de produção de discursos dogmáticos. Se perpetuarmos as crenças de que a linguagem traz verdades e que os sentidos são transparentes, ratificamos práticas sociais excludentes e verdades essencialistas. Se preconizamos rever a dinâmica sociocomunicativa para o fortalecimento democrático, é apropriado reconfigurar o modelo de democracia ancorado na dupla separação da modernidade (Latour, 2018). Precisamente este ano, que marca os 40 anos da redemocratização, o Brasil sedia a COP 30 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Seria bom para o país assumir liderança na temática e chamar à atenção a necessidade de rever narrativas socioconstitutivas, e olhar a Terra como organismo vivo e espaço semiótico em que a espécie humana não é única no direito de enunciação. A estrutura dominante social procura manter intensas suas forças centrípetas; daí, a necessidade da mobilização intencional nos contextos formais de educação para transformar o cenário. A sustentabilidade requer mudança cultural; logo, é fundamental formar professores de línguas comprometidos com a ecodemocracia, engajados em resgatar narrativas de vida, projetos coletivos e modos outros de existir no planeta, para compreender que uma democracia consolidada nos tempos atuais deve ser formada por sujeitos participativos, coletivos e preocupados com o cosmo. REFERÊNCIAS BARAD, K. M. Meeting the universe halfway. Quantum physics and the entanglement of matter and meaning. Durham, London: Duke University Press, 2007 BARTHES, R. Aula. 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São Paulo: Companhia das Letras, 2020 KWOK, Pui-Lan. Globalization, gender and peacebuilding – the future of interfaith dialogue. Indiana/New Jersey: Saint Mary’s College/Paulist Press, 2012. LATOUR, B. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 2018. MENEGHETTI, Francis. O que é um ensaio científico. RAC, Curitiba, v. 15, n. 2, pp. 320-332. Mar./Abr. 2011. Disponível em http://www.anpad.org.br/rac . Acesso em 21 mar. 2025. NGUYEN, Thi. Echo chambers and epistemic bubbles. 2018. Disponível em https://objectionable.net/ Acesso em 27 mar 2025 NICOLESCU, Barsarab. Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999. SIMAS, Luiz Antonio. Santos de casa: fé, crenças e festas de cada dia. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2022. UNESCO. Unesco lauches new initiatives for greening education in classrooms. Paris: Unesco, 2024. Disponível em https://www.unesco.org/en/articles/unesco-launches-new-initiatives-gree… Acesso em 02 abr 2025. WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2009, vol.1.

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