SUPERANDO TABUS: O JOGO COMO FERRAMENTA DIDÁTICA E EMANCIPATÓRIA PARA A EDUCAÇÃO EM SEXUALIDADE INTRODUÇÃO A sexualidade está presente, no ser humano, desde o nascimento até a morte, manifestando-se de diversas formas ao longo da vida. Ela é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, históricos e religiosos. Para Mary Figueiró (2009), sexualidade é elemento integrante de nossa identidade e envolve o amor, o prazer, o toque, o sexo, a afetividade, o carinho, os gestos, o respeito, a alegria de viver e o conjunto das normas culturais relacionadas à prática sexual, reforçando a necessidade de sua abordagem no ambiente escolar. Dessarte, o presente trabalho teve como principal objetivo a criação de um jogo de tabuleiro voltado para o Ensino Médio, abordando a temática da sexualidade de forma emancipatória. Sônia Melo (2011, p. 51) destaca: uma abordagem emancipatória pressupõe desvendar esses modelos e projetar a ruptura de ordens estabelecidas, se assim for a decisão do individual coletivo, na busca de um novo que aponte para uma sociedade nova que estabeleça a igualdade, atendendo à diversidade cultural, com uma nova compreensão da dimensão sexualidade como parte indissociável dos direitos humanos no processo de construção da cidadania. Nesse sentido, o jogo se mostra uma ferramenta eficaz para abordar a sexualidade, um tema que nem sempre é facilmente discutido no ambiente escolar devido ao forte moralismo ideológico presente no sistema educacional brasileiro e que frequentemente é tratato como um tabu. Tizuko Kishimoto (1996) ressalta que o uso do jogo potencializa a exploração e a construção do conhecimento, pois a motivação lúdica que o acompanha facilita a aprendizagem, algo que, em uma aula tradicional, poderia demandar mais tempo e resultar em menor apropriação dos conteúdos. Isso evidencia a importância e a necessidade de incluir essa temática no cotidiano escolar, pois o convívio e a diversidade de ideias e opiniões enriquecem o debate, contribuindo para a compreensão das diferentes formas de sexualidade e garantindo o enfoque adequado do assunto. Ademais, o debate sobre sexualidade nas escolas tem como objetivo formar indivíduos críticos, capazes de relacionar esse conhecimento com sua realidade cotidiana, dentro de um ambiente que valorize o respeito, a individualidade e a diversidade de ideias. Além de colaborar para a redução de discriminações e violências de gênero e orientação sexual presentes nos modelos tradicionais de educação sexual, destaca-se a importância de abordar a pluralidade de temas que envolvem a sexualidade e suas diversas manifestações. Dessa forma, para fundamentar a abordagem da educação em sexualidade, foi utilizado como referência o documento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura –UNESCO –, intitulado como: Orientações Técnicas de Educação em Sexualidade para o Cenário Brasileiro: tópicos e objetivos de aprendizagem, que define educação em sexualidade como: Toda e qualquer experiência de socialização vivida pelo indivíduo ao longo de seu ciclo vital, que lhe permita posicionar-se na esfera social da sexualidade. A educação em sexualidade está presente em todos os espaços de socialização – família, escola, igreja, pares, trabalho, mídia –, mas ocorre de forma pulverizada, fragmentada e desassociada de um plano de sociedade inclusiva baseada nos direitos humanos. Portanto, torna-se relevante a atuação do sistema educacional na tarefa de reunir, organizar, sistematizar e ministrar essa dimensão da formação humana (UNESCO, 2014, p. 11). Evidencia-se a importância desse espaço para a superação de violências e preconceitos, considerando que, para muitos estudantes, a escola representa o único lugar onde é possível estabelecer um diálogo aberto sobre o tema e identificar situações que fazem parte de sua vivência. Fundamentado nisso, o jogo educativo “Superando Tabus” foi desenvolvido, oportunizando um espaço para reflexão e debate aberto sobre o tema, possibilitando que os jovens enfrentem a adolescência com menos ansiedade e incertezas. METODOLOGIA Este trabalho tem origem em uma pesquisa qualitativa com abordagem exploratória e participante. Foi realizada uma revisão da bibliografia existente sobre a temática, suas discussões e apontamentos. Esse processo foi fundamental para a elaboração do jogo educativo, pensado em formato colaborativo, que permitiu a socialização e a internalização coletiva das temáticas sem estimular a competição. Seguidamente, o jogo educativo “Superando Tabus” foi desenvolvido e aplicado com estudantes dos 1º e 2º anos do Ensino Médio do Instituto Federal de Educação de uma cidade no interior do Paraná. A avaliação do jogo foi realizada por meio de questionários com perguntas abertas e fechadas, as respostas foram coletadas antes e após a aplicação do jogo, para que as respostas pudessem ser comparadas. Posteriormente, foram analisados os dados da pesquisa, buscando compreender se o jogo educativo alcançou o objetivo inicial: complementar e compreender a temática sobre sexualidade, separando os indicadores presentes nas respostas dos participantes, a partir da técnica de núcleos de significação, método descrito por Wanda Aguiar e Sergio Ozella da seguinte forma: [...] a articulação de conteúdos semelhantes, complementares ou contraditórios –, é possível verificar as transformações e contradições que ocorrem no processo de construção dos sentidos e dos significados, o que possibilitará uma análise mais consistente que nos permita ir além do aparente e considerar tanto as condições subjetivas quanto as contextuais e históricas (AGUIAR; OZELLA, 2006, p. 231). Isso possibilita ao pesquisador compreender os significados atribuídos à realidade e interpretar a riqueza dos sentidos das palavras ditas e escritas. Essa característica é essencial na análise do conhecimento sobre sexualidade, uma vez que o indivíduo a desenvolve ao longo da vida, sendo influenciado por diversos fatores sociais e históricos que vivencia. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS Os resultados indicaram que o jogo se mostrou uma alternativa eficiente no processo de ensino-aprendizagem da educação em sexualidade, por meio de uma abordagem emancipatória. A metodologia utilizada permitiu maior proximidade dos estudantes com o tema, ampliando o conhecimento por meio da interação e colaboração durante a atividade. Além disso, o jogo retratou questões que transcendem os aspectos físicos e reprodutivos, tradicionalmente limitados a essa temática. Verifica-se, portanto, a educação como um instrumento de libertação, capaz de vencer o desconhecido e fortalecer a cidadania, oferecendo conhecimento científico, cultural e social de forma equilibrada. Que engloba a complexidade da realidade, promovendo um desenvolvimento integral que supera a fragmentação do saber. Assim, após a análise das respostas dos questionários preenchidos pelos participantes, deu-se início à criação dos núcleos de significação. Esse processo foi viabilizado por meio de múltiplas leituras flutuantes e da identificação dos pré-indicadores. Em seguida, foram formulados os indicadores e os núcleos de significação. Os núcleos foram nomeados e estruturados com base em seis conceitos-chave: “Relacionamentos”, “Valores, atitudes e habilidades”, “Cultura, sociedade e direitos humanos”, “Desenvolvimento humano”, “Comportamento sexual” e “Saúde sexual e reprodutiva”. Esses conceitos, extraídos do documento da UNESCO (2014), serviram de referência tanto para a análise dos dados quanto para a elaboração do jogo apresentado, pois sintetizavam os aspectos centrais a serem discutidos. QUADRO 1: Núcleos de significação antes do jogo. Pré-indicadores Indicadores Núcleos de significação Sexualidade, desejos, atrações, gênero, respeito, não escolhe, julgamentos, sexo, orientação sexual, imagem corporal, redes sociais, homofobia, violência, agressão, doenças, sintomas, preservativos, anticoncepcionais, método contraceptivo, transmissão, sangue, discriminação, pronome neutro, emoção, religião, cristão, ambiente escolar, comunidade LGBT, não tem cura, tratamento, boca, gravidez, saúde física, saúde mental, heterossexual, desrespeito, intolerância, preconceito, afeto, sentimentos, ações, orientar os jovens, transfobia, hormônios, fertilidade, homossexual, precaver, entender o próprio corpo, riscos, amor, carinho. Respeito, julgamentos, emoção, comunidade LGBT, afeto, sentimentos, amor e carinho. Relacionamentos Desejos, atração, não escolhe, redes sociais, ambiente escolar, ações e orientar. Valores, atitudes e habilidades Sexualidade, gênero, homofobia, orientação sexual, violência, agressão, discriminação, pronome neutro, religião, cristão, heterossexual, homossexual, desrespeito, intolerância, preconceito e transfobia. Cultura, sociedade e direitos humanos Imagem corporal, boca, gravidez e saúde mental. Desenvolvimento humano Sexo e entender o próprio corpo. Comportamento sexual Doenças, sintomas, preservativos, anticoncepcional, método contraceptivo, transmissão, sangue, não tem cura, tratamento, saúde física, hormônios, fertilidade, precaver e riscos. Saúde sexual e reprodutiva Fonte: Os autores (2025). A seguir, serão apresentados os núcleos de significação elaborados com base nas respostas do questionário pós-jogo. Utilizando o mesmo processo de análise das respostas do questionário anterior ao jogo. QUADRO 2: Núcleos de significação depois do jogo. Pré-indicadores Indicadores Núcleos de Significação Orientação sexual, vida sexual, desejo, atração, orientação, identidade de gênero, preferências, sentir-se bem, binários, transexual, não se identificam, relacionamentos, interesses físicos, conhecimento, afeto, prazer, sistema reprodutor, virgem, cuidado consigo, funcionamento dos órgãos, mudanças físicas, biologia, sentimentos, genital, sexualidade, imagem, bissexualidade, pansexualidade, paixão, não escolhe, gostar, homem cis, mulher cis, heterossexual, gênero oposto, tomar decisão, educação, corpo, não binário, gênero fluido, diálogo, confiança, doenças, boca, camisinha, preservativo, DIU, pílula anticoncepcional, laqueadura, vasectomia, sangue, roupa íntima, saliva, fluidos, amamentação, preparar o corpo, gravidez, útero, retirar impurezas, óvulo, ter filho, fecundação, hormônios, alertar, ciclo reprodutivo, menstruação, métodos contraceptivos, aborto, ISTs, prevenção, abuso, homofobia, estupro. Relacionamentos, afeto, sentimentos e paixão. Relacionamentos Desejo, atração, orientação, preferências, sentir-se bem, gostar, comportamento, educação, conhecimento, diálogo, tomar decisão, confiança e alertar. Valores, atitudes e habilidades Orientação sexual, identidade de gênero, homem cis, mulher cis, binários, transexual, não se identificam, virgem, sexualidade, pansexualidade, bissexualidade, não escolhe, heterossexual, gênero oposto, não binário, gênero fluido, aborto, abuso, homofobia e estupro. Cultura, sociedade e direitos humanos Sistema reprodutor, biologia, genital, cuidado consigo, funcionamento dos órgãos, mudanças físicas, imagem, corpo, boca, roupa íntima, amamentação, gravidez, preparar o corpo, útero, fecundação, hormônios, óvulo, ter filho, ciclo reprodutivo e menstruação. Desenvolvimento humano Vida sexual, prazer, interesse físico e virgem. Comportamento sexual Doenças, camisinha, preservativo, DIU, pílula anticoncepcional, laqueadura, vasectomia, sangue, saliva, fluidos, retirar impurezas, ISTs, métodos contraceptivos e prevenção. Saúde sexual e reprodutiva Fonte: Os autores (2025). A análise dos núcleos de significação revelou uma diferença perceptível na quantidade de pré-indicadores e, consequentemente, de indicadores identificados a partir dos questionários respondidos antes e após o jogo. No questionário pós-jogo, o conjunto de expressões que compuseram os pré-indicadores apresentou uma maior diversidade de termos e palavras, evidenciando que os participantes foram capazes de identificar e mencionar conceitos mais complexos e específicos em comparação ao período anterior à aplicação do jogo educativo. Esse resultado indica que a discussão e a socialização da temática durante o jogo teve um impacto positivo, promovendo a assimilação de novos conceitos e conhecimentos. O enriquecimento do repertório e das ideias demonstradas pelos participantes contribuiu para o desenvolvimento de níveis mais elevados de compreensão, refletindo não apenas suas diferentes histórias, culturas e costumes, mas também o conhecimento proporcionado pelo próprio jogo educativo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho desenvolveu e aplicou um jogo de tabuleiro como material didático para abordar a educação em sexualidade de maneira plural. A proposta baseou-se em uma ampla revisão bibliográfica e na ideia de uma educação emancipatória, estimulando a participação ativa dos estudantes. O jogo “Superando Tabus” surge como uma alternativa para tratar temas sensíveis da sexualidade no ambiente escolar, permitindo que todos os envolvidos explorem a temática de forma inclusiva e respeitosa. A educação em sexualidade ainda enfrenta desafios, devido a estereótipos e dificuldades na abordagem do tema. O jogo, fundamentado na ciência e nos princípios de igualdade e diversidade, incentiva o diálogo e a superação de ideias ultrapassadas. As análises dos questionários pós-jogo evidenciaram um avanço no repertório dos participantes, demonstrando um aprendizado mais rico e detalhado. A proposta não busca impor comportamentos, mas reforçar a importância de políticas de respeito à diversidade e à saúde sexual. A escola tem o papel de promover uma cultura de paz e preparar cidadãos conscientes, que contribuam para uma sociedade mais justa e plural. REFERÊNCIAS AGUIAR, Wanda Maria Junqueira de; OZELLA, Sérgio. Núcleos de Significação como instrumento para a apreensão da constituição dos sentidos. Psicologia, Ciência e Profissão, Brasília, v. 26, n. 2, p. 222-245, 2006. FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico. Sexualidade e afetividade: implicações no processo de formação do educando. In: FIGUEIRÓ, Mary Neide Damico (Org.). Educação Sexual: em busca mudanças. Londrina: UEL, 2009. KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 1996. MELO, Sônia Maria Martins de (Org.) Educação e sexualidade. Design instrucional Carmen Maria Cipriani Pandini. 2. ed. rev. Florianópolis: UDESC/CEAD/UAB, 2011. UNESCO. Orientações técnicas de Educação em Sexualidade para o Cenário Brasileiro: tópicos e objetivos de aprendizagem. – Brasília, UNESCO, 2014. 53 p., il. Disponível em: <
http://unesdoc.unesco.org/images/0022/002277/227762por.pdf >. Acesso em: 29 mar. 2025.