RÜSEN E VIGOTSKI, UM DIÁLOGO PROFÍCUO SOBRE A CONCEPÇÃO DE HISTÓRIA O presente resumo tenciona estabelecer um diálogo fecundo entre a teoria da história de Jörn Rüsen e a teoria histórico-cultural de Lev S. Vigotski. Esta interlocução almeja cotejar o conceito de história em Rüsen com o em Vigotski. Articular as diferentes acepções, concebidas a partir de arcabouços teórico-metodológicos distintos, colocará em relevo a importância da história na constituição dos sujeitos. Sendo assim, apresentar-se-á as hipóteses de Rüsen, para, em seguida, aferi-las com as concepções de Vigotski. Jörn Rüsen, na obra “Razão Histórica”, propõe-se a perscrutar a constituição do pensamento histórico na vida prática. Ele observa que as análises dos fundamentos da ciência da história, que pretendem assumir o papel de uma teoria da história, trabalham com definições genéricas do que é história: “história como campo de aplicação do conhecimento histórico, trata-se da história entendida como o objeto científico do pensamento histórico em seu modo especificamente científico”. Tais análises denotam uma existência factual e não questionam os fundamentos da história como ciência. (Rüsen, 2001, p.53) Tais fundamentos são tidos pelos historiadores como dotados de certa obviedade, que eclipsa o processo de constituição destes fundamentos, os quais, por sua vez, embasam a plausibilidade da história como ciência. O autor propõe um caminho no qual a questão estaria em “evidenciar o que já se pressupõe como natural - no pensamento histórico - desde o início e que, por isso mesmo, não recebe atenção particular”. (Rüsen, 2001, p.54) Ao voltar sua atenção para a constituição dos fundamentos do pensamento histórico, Rüsen identifica nas situações genéricas e elementares da vida prática dos seres humanos (experiências e interpretações do tempo), indícios instigantes, pois entende que estes constituem “o que conhecemos como consciência histórica” (Ibidem). As interpretações e experiências do tempo são consideradas pelo autor como “fenômenos comuns ao pensamento histórico, tanto no modo científico quanto em geral, tal como operado por todo e qualquer ser humano” (Ibidem); isto é, são o elo entre o pensamento científico e geral; são processos fundamentais e característicos do pensamento histórico. Tanto o pensamento – geral e histórico - quanto a consciência histórica são constituídas nas situações genéricas e elementares da vida prática dos seres humanos; o que diferencia a história como ciência é o procedimento particular de como o pensamento e a consciência histórica se realizam. Rüsen busca evidenciar os momentos em que a história como ciência está inserida nos processos mentais genéricos e elementares da interpretação do mundo e de si mesmos pelo ser humano. De que forma, então, se realiza a inserção da história como ciência nesses processos? Responder esta indagação pressupõe apurar o conceito de consciência histórica. Para Rüsen, ela é o fundamento da ciência da história, o “fenômeno do mundo vital”, pois está relacionada imediatamente com a vida humana prática; ela é “a suma das operações mentais com as quais os seres humanos interpretam sua experiência da evolução temporal de seu mundo e de si mesmos, de forma tal que possam orientar, intencionalmente, sua vida prática no tempo” (Ibidem, p.57). Duas categorias de análise adquirem proeminência a partir desta acepção: experiência e intenção. A relação dinâmica entre a experiência do tempo e a intenção no tempo desvela a forma como a consciência histórica se realiza. Esta consciência pode ser descrita como “orientação do agir (e do sofrer) humano no tempo” (Ibidem, p.58). Ao interpretar as experiências do tempo nas circunstâncias dadas da vida, o ser humano realiza um trabalho intelectual – consciência histórica - de tornar compatível suas intenções de agir com a experiência do tempo. A descrição de como a consciência histórica se constitui e se realiza, possibilita a Rüsen constatar que esse processo pode ser denominado de “constituição do sentido da experiência do tempo” (Ibidem, p.59). Essa reformulação conceitual lança luz sobre a relação dialética imbricada no processo de interpretação das experiências do tempo e as intenções do agir, pois “trata-se de um processo da consciência em que as experiências do tempo são interpretadas com relação às intenções do agir e, enquanto interpretadas, inserem-se na determinação de sentido do mundo e na auto interpretação do ser humano, parâmetros de sua orientação no agir e no sofrer”. A determinação de sentido possibilita que o agir humano organize suas intenções e expectativas no fluxo do tempo. Destarte, Rüsen define a história como sendo “o passado sobre o qual os seres humanos têm de voltar o olhar, a fim de poderem ir à frente em seu agir, de poderem conquistar seu futuro”. E acrescenta, “ela precisa ser concebida como um conjunto, ordenado temporalmente, de ações humanas, no qual a experiência do tempo passado e a intenção com respeito ao tempo futuro são unificadas na orientação do tempo presente”. Assim, a história orienta o ser humano nessa confluência temporal e torna plausível a continuidade do agir (e do sofrer) no mundo, que produz sentidos inéditos. No campo da psicologia, os trabalhos de Vigotski reiteram a importância crucial da história na consideração do desenvolvimento humano. No curso de suas investigações, ele discute as teorias psicológicas e reflexológicas da época, apontando para as contribuições e os limites das mesmas, enquanto argumenta sobre a relevância do materialismo histórico e dialético como matriz para o estudo da constituição histórica do psiquismo humano. No “Manuscrito de 1929” (Vigotski, 2000) e na “História do desenvolvimento das funções psíquicas superiores” (Vygotski, 1995) podemos acompanhar seus argumentos sobre a sociogênese do desenvolvimento cultural da criança, cuja ontogênese ocorre entretecida à história humana. A nota lapidar que inaugura os escritos do Manuscrito de 1929 faz alusão à célebre frase de Marx e Engels, “só conhecemos uma única ciência, a ciência da história” (Marx;Engels, 2001, p.107). Angel Pino, ao analisar essa referência, infere que toda a “ciência é necessariamente histórica”. Ser histórica, no contexto do materialismo histórico, “equivale a dizer que ela é um produto da atividade humana, não um dado puro da razão nem a simples expressão da realidade natural das coisas”. Ao referenciar Marx, Vigotski está afirmando que “o conhecimento é um processo histórico que segue as leis da dialética (materialista)” (Pino, 2000, p.49). A história é a única ciência porque é nela e intermediada por ela que a atividade produtiva do homem no seu processo de evolução se dá. O homem, ao transformar a natureza pelo trabalho e criar suas próprias condições de existência, transforma-se a si mesmo, pois é parte inalienável dessa natureza. É essa concepção de história que instrumentaliza Vigotski para analisar a história pessoal – plano ontogenético -, sem deixar de ser obra da pessoa singular, entretecida na história da espécie humana – plano filogenético. (Ibidem, p.51) A intersecção entre os planos onto e filogenético propulsiona as indagações e reflexões de Vigotski. Dentre as quais, interessa-nos a unidade de análise escolhida pelo autor para escrutinar a relação entre a personalidade e o meio: vivência – perjivânie. A razão pela qual optamos por destacá-la encontra-se nas reflexões de Delari Junior e Iulia Passos (2009). Ao organizarem um levantamento bibliográfico que cotejou diferentes traduções (inglês, espanhol, russo e português) para elencar possíveis sentidos do termo perejivânie na obra de Vigotski, os autores encontraram uma diferença entre o termo opit (experiência) e perejivânie. Delari Júnior e Passos destacam que no livro “Psicologia pedagógica”, Vigotski escreveu que “a experiência (opit) do homem é uma função complexa de toda a experiência (opit) social da humanidade e de seu grupo em particular”. (Vigotski, 2004, p.67 apud Delari Júnior; Passos, 2009, p.12). Perejivânie, por sua vez, “não seria um sinônimo de toda a experiência (opit) psíquica, mas um dos aspectos dela – considerada na totalidade e diversidade de ligações entre experiências hereditária, pessoal, social e histórica” (Delari Júnior; Passos, 2009, p.13). A perejivânie, por sua vez, está atrelada ao aspecto subjetivo da experiência, isto é, ao modo pelo qual o sujeito vivencia a experiência social da humanidade. Posto de outra forma, ela diz respeito a maneira pela qual o sujeito vivencia – de forma tensionada, dialética - as suas experiências no mundo em relação à experiência social da humanidade. Neste ponto, o diálogo entre Vigotski e Rüsen torna-se possível e profícuo. Para Rüsen, a orientação intencional da vida prática no tempo está calcada na apropriação e na elaboração da interpretação da experiência da evolução temporal. A atividade produtiva do homem no seu processo de evolução é orientada pela intencionalidade do agir (e sofrer) no mundo. Ou seja, a vivência – perejivânie - vai se constituindo no limiar entre a interpretação da experiência e a intenção do agir do sujeito; nesse movimento de constituição, ela fomenta novas interpretações das experiências e orientações para as intenções do agir. Palavras-chave: experiência; história; consciência histórica; vivência. REFERÊNCIAS DELARI JUNIOR, A.; PASSOS, I. B. Alguns sentidos de “perejivanie” em L. S. Vigotski, 2009. Disponivel em
https://www.yumpu.com/pt/document/read/13825608/alguns-sentidos-da-pala…. PINO, A. O social e o cultural na obra de Vigotski. Educação & Sociedade, ano XXI, no 7, julho/00. RÜSEN, J. Razão Histórica: teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001. VIGOTSKI, Lev. S. Manuscrito de 1929: psicologia concreta do homem. Trad. Alexandra Marenitch. Educação & Sociedade, ano XXI, no 71, julho, 2000. VYGOTSKI, Lev. S. Obras Escogidas.Vol. III. Madrid: Visor, 1995.