PARA CRIANÇAR O ENSINO DE ARTES: BRINCAR E INVENTAR E SER E…

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Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
PARA CRIANÇAR O ENSINO DE ARTES: BRINCAR E INVENTAR E SER E… Esta é uma pesquisa em andamento. Em andamento pois também anda: caminhante, é uma pesquisa em movimento, uma cartografia que se inicia pelo meio, que passeia e tropeça no encontro e no experimento. Uma pesquisa-caminho-encontro: entre a criança e a arte e a educação. Como cria uma criança? A infância de um criar, de um criançar em educação se apresenta aqui como pista para refletirmos sobre o nosso fazer enquanto adultos-artistas-educadores. CAMINHADA Uma professora de teatro sai da sala de aula da educação infantil de um colégio particular seguida por dezoito crianças, a maioria de quatro anos de idade. Elas insistem em fazer uma fila, ensinadas pelas professoras regentes, e demonstram uma preocupação tremenda sobre qual lugar irão ocupar nessa fila. O destino do trajeto é a sala de teatro, que é também a sala onde guardam todo o material de festas da escola, brinquedos, jogos, tatames e outras coisas. Ocupada com todos esses materiais, a sala torna-se um espaço de despejo para aquilo que a escola não sabe catalogar bem e escolhe colocar longe das vistas. Nesse momento, nem o destino, nem o caminho até ele, importam. O que importa é o lugar que se ocupa na fila. Como aponta Deleuze, É o devir que faz, do mínimo trajeto ou mesmo de uma imobilidade no mesmo lugar, uma viagem; e é o trajeto que faz do imaginário um devir. Os dois mapas, dos trajetos e dos afectos, remetem um ao outro. (Deleuze, 1997, p.77) Ora, se estão prestes a realizar um deslocamento de um ponto a outro, porque não performar esse deslocamento, mudando as organizações da fila e das importâncias dadas aos lugares naquele momento? Sem muitas palavras, caminhando com as crianças neste trajeto-escola, já atravessado diversas vezes, a professora utiliza de um dispositivo de deslocamento do estado cotidiano através do modo como seu corpo se movimenta: anda na ponta dos pés. A partir daí, somado à inventividade das crianças, o trajeto torna-se travessia de caverna, torna-se dragão cochilando, torna-se grupo de aventureiros. Gandhy Piorsky (2016) diz: “a maior, a mais intensa das infâncias tem a alma dos vira-latas”. É a criança que, em seu estado de jogo com o outro, com o ambiente e com o dito real, dispõe-se a desenhar novos mundos, inventar palavras, sons, formas de andar e de se relacionar. É com ela que torna-se um pouco mais possível esse desafio de entregar-se ao enigma, renunciar à vontade de saber e de poder, à nossa vontade de domínio e esperar, tranquilamente, o que não sabemos (LARROSA, 1998). Com o menor dos estímulos, um deslocamento de pés, uma fala sussurrada, um olhar semicerrado, toda uma nova realidade pode ser instaurada. De quantos modos é possível realizar um mesmo trajeto? É possível transformar um trajeto conhecido em desconhecido? O que se transforma em mim ao atravessar um espaço hoje de uma forma diferente de ontem? Pelo percurso, pelos caminhos, temos a revelação da existência: como se a direção dos passos revelasse uma musculatura existencial, uma musculatura associada a hábitos, uma musculatura de hábitos. Neste sentido, de um modo direto e linear, mudar de movimento é mudar de vida. (Tavares, 2021, p.118) “A criança é um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento” (NIETZSCHE, 1883) e é pelo criançar que podemos nos colocar em estado de jogo, de brincadeira, de pirueta e tropeço, transformando o nosso ser estar no mundo e o espaço ao redor. Apresentamos aqui a pergunta a que se implica esta pesquisa: como criançar o ensino de artes nas escolas? TROPEÇO É possível, no dia-a-dia escolar, contemplar processos de criação artística não escolarizados, disciplinados, ordenados - civilizatórios? A escola, uma selva? O relógio corre e escorre em 40, 45, 50 minutos, toca o sinal, chamada, toca o sinal, João faltou, hoje não tem sala, senta menino, toca o sinal, esqueci o caderno! Não! A escola não é uma selva: é um pastiche do processo civilizatório com horário de entrada e saída e boletins trimestrais. Como se dá, então, um processo de criação artística neste espaço tão ordenado? Mais: um processo de criação artística em que os criadores participantes são crianças. Ao pensar nos homens como espectadores e não recriadores do mundo e colocar o educador como disciplinador do educando (FREIRE, 1987), cometemos o sério risco de nos distanciarmos dos processos e dos sujeitos que criam, performam e vivem os espaços. DESVIO Um marcador de diferença entre os corpos que se relacionam na escola é a relação hierárquica entre a figura do educador e a figura do educando. Nos anos iniciais, temos ainda o diferenciador de fase da vida no encontro do adulto com a criança. Pois que, com esses marcadores de diferença, ficamos sujeitos a uma hierarquização de saberes, a um encontro entre um adulto e uma criança a partir de uma perspectiva adultocêntrica de controle, de modo que o primeiro acaba estabelecendo relações de dominação por diversos meios, materiais e simbólicos, entre classes de idades (MORALES, MAGISTRIS, 2018). Sendo assim, se estamos nos propondo, nesta pesquisa, a pensar educação e artes e infâncias, e apostando no encontro entre adultos e crianças nesse processo, um caminho possível que se desenha é aquele em que o adulto entende e dialoga com a criança como protagonista, como “performer” (MACHADO, 2010), desviando-se de um trajeto adultocentrista. Para isso, é preciso reconhecer que a criança é um sujeito com sua própria cultura, e não um “projeto de adulto”, e que o “saber não pertence ao educador, não reside em sua formação, técnicas e conhecimento; o saber encontra-se entre ele e seus alunos” (MACHADO, 2012). Explicando de outra maneira, a partir da voz de um grupo de crianças e jovens argentinos, a Assemblea Revelde, que se organiza politicamente para a conquista de seus direitos, em especial o de serem escutados: (...) que nuestra voz sea valorada por lxs adultxs, que nos tomen en cuenta en el momento de decidir algo, que nos pregunten que és lo que queremos, por ejemplo, si queremos trabajar, o si queremos formar parte alguna religión. Que nos respondan los ¿Por qué?, que nos den explicaciones, asi como nosotrxs la damos quando ellxs la piden (...) (2018, p.6) TRAVESSIA Para desenvolver uma pesquisa que se instiga a habitar essas brechas, da criança na escola e da arte na escola, e busca cartografar caminhos implicados com questões acerca do criançar a arte, põe-se em vista que este é, também, um processo de criação artística. Para realizar uma pesquisa que dialogue com as crianças é fundamental que estas sejam sujeitos participantes de sua tessitura, que componham com os seus saberes. É preciso, ainda, que o pesquisador-educador-artista encontre uma infância de seu pesquisar. Diante disso, a travessia a que essa pesquisa se desafia pretende realizar campo em escolas públicas da rede municipal da cidade de Juiz de Fora/MG. Acompanhando as aulas de linguagens artísticas nas turmas de educação infantil, iremos cartografar junto às crianças possibilidades de experimentar infâncias. No caso do processo artístico, vislumbra-se a captação sonora desses encontros, para criação da cartografia em formato de áudio, trazendo registros de paisagens sonoras, diálogos, ruídos, rugidos e demais composições. Todo o processo só se torna possível em inteireza pois conta com auxílio de bolsa de mestrado Capes. A pesquisa-ação-criação dialoga um “dentro e fora”, e propõe um outro caminho, uma nova dobra, de pesquisa-performance-vida. Bastante próximo, arriscamos aqui a dizer, da experiência de uma criança performando sua própria vida. O artista-pesquisador, aqui, se implicaria de tal modo com o trabalho, borrando as fronteiras entre arte, pesquisa e educação, que precisaria experimentar até mesmo (e principalmente!) novas formas de realizar seus caminhos cotidianos - tal como andando na ponta dos pés. La infancia que vive dentro de nosostros es otra cosa. Una experiencia de pura intensidad, una surte de droga rara que una vez que se probó cuesta trabajo olvidar. Una carga de espiritu que proporciona una ligereza comparable con la ebriedad y una creatividad intacta. (Dufourmantelle, p.211, 2019) Ao investigar as formas possíveis de criançar a arte nas escolas, seremos instigados a olhar pelas frestas, habitar nas brechas, ir com o corpo ao chão, andar na ponta dos pés, lambuzar camisetas de uniformes, gaguejar palavras, para tentar, de algum modo, transformar o nosso ser estar no mundo e nossa arte, pesquisa e educação. REFERÊNCIAS BONDÍA, Jorge Larrosa. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. 6. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2022. DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 1997. DUFOURMANTELLE, Anne. Elogio del riesgo. Buenos Aires: Nocturna Editora & Paraíso Editores, 2019. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido.17 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. KOHAN, Walter Omar. Infância. Entre a Educação e a Filosofia. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. MACHADO, Marina Marcondes. A criança é performer. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 35, n. 2, p. 115-137, maio/ago. 2010. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/11444. Acesso em: 03/04/2025. MACHADO, Marina Marcondes. Fazer surgir antiestruturas: abordagem em espiral para pensar um currículo em arte. Revista e-Curriculum, vol. 8, núm. 1, abril, 2012, p. 1-21 MORALES, S.; MAGISTRIS, G. P. Niñez en movimiento: del adultocentrismo a la emancipación. 1. ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Nadia Paola Fink, 2018. NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Edição digital. Montecristo Editora, 2021. PIORSKY, Gandhy. Brinquedos do chão: a natureza, o imaginário e o brincar. 1. ed. São Paulo: Peirópolis, 2016. TAVARES, Gonçalo M. Atlas do corpo e da imaginação: teoria, fragmentos e imagens. 1 ed. Porto Alegre: Dublinense, 2021

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  • 1 UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora
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  • GT24 - Educação e Arte