O MAL-ESTAR DOCENTE: INCIDÊNCIAS DO SOFRIMENTO PSÍQUICO DE JOVENS UNIVERSITÁRIOS NA SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES/AS

- 215327
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
O MAL-ESTAR DOCENTE: INCIDÊNCIAS DO SOFRIMENTO PSÍQUICO DE JOVENS UNIVERSITÁRIOS NA SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES/AS O conceito de mal-estar docente, relacionado ao adoecimento de docentes em decorrência do contato com o trabalho pedagógico, tem sido estudado desde a década de 1980. Os estudos realizados pelas pesquisadoras/es ao longo dos últimos trinta anos, relacionados ao tema demonstram que há uma relação entre a subjetividade do/a professor/a e o exercício da docência. Aspectos próprios do sujeito, bem como a relação que este/a estabelece com o trabalho, impactam a saúde mental e podem gerar sofrimento, especialmente no que tange à interação professor/a/aluno/a. Inicialmente, nos anos 1980, o conceito considerava apenas os problemas físicos enfrentados pelos/as docentes, como distúrbios vocais decorrentes do uso prolongado da voz e dores na coluna devido à postura mantida em sala de aula. Com o avanço dos estudos, nossa pesquisa tornou-se pioneira ao analisar os impactos psíquicos da docência (1997) investigando a princípio a Educação Básica e posteriormente o Ensino Superior. É importante ressaltar, que estudos sobre adoecimento mental conduzidos tanto no Brasil quanto em outros países, indicam que aproximadamente 10% dos/as professores/as apresentam algum tipo de adoecimento psíquico, embora as queixas sejam o discurso preponderante em todos os níveis de ensino, apontando o fenômeno do mal-estar docente. Os estudos analisam fatores objetivos e subjetivos, indicam a relação professor/a-aluno/a como forte fator de incidência na manifestação do mal-estar. Em Ouro Preto, parte da pesquisa realizada em 2009, no âmbito do Programa Caleidoscópio, revela uma diversidade de queixas objetivas por parte das professoras, entre as quais se destacam as dificuldades na convivência com diferentes perfis de estudantes, as más condições de trabalho, a precarização das escolas e os baixos salários. No entanto, um aspecto particularmente intrigante foi a permanência das docentes na profissão por mais de trinta anos, apesar das dificuldades e das condições adversas. No Ensino Superior, o mal-estar tem sido tensionado devido às mudanças no perfil do alunado e às novas exigências institucionais. Sendo assim, a pesquisa presente busca interrogar o mal-estar docente decorrente das relações dos/as professores/as do Ensino Superior com os/as jovens, que também são impactados, principalmente após a pandemia de Covid-19 e os atravessamentos neoliberais. Portanto, o intuito é compreender como as tensões experienciadas pelos/as discentes reverberam na saúde mental dos futuros e dos/as professores/as, criando um circuito que perpassa toda a universidade. Além dos atravessamentos, a universidade exige uma rápida adaptação, uma maior autonomia e a conciliação entre trabalho, família e vida acadêmica. Em muitos momentos da pesquisa, os licenciandos enunciam um mal-estar que ameaça a continuidade de suas formações, que contingencialmente, precisam seguir mesmo em situações adversas. Para o campo Psicanálise e Educação, há uma ideia de um sujeito à deriva compreendida a partir da ausência de segurança no campo do desejo e da significação, marca da juventude hodierna, que não encontram um lugar estável no Outro, aquele grande organizador da experiência subjetiva (Biagi-Chai, 2015). Há também um esfacelamento dos laços sociais, que antes garantiam um eixo de orientação, como a família, a escola e as instituições tradicionais, e uma hemorragia do ser e uma busca por uma causa exterior, levando ao esvaziamento do sujeito em favor de um fazer e um ter que substituem o ser (ibidem). Certa de que dispomos de uma parcela do mal-estar descrito por Freud (1930), cada sujeito encontra modos singulares de enfrentá-lo. Sendo assim, o estudo investiga as expressões de mal-estar no contexto da formação docente, interrogando como os jovens licenciandos manejam com a realidade e quais alternativas encontram. Desenvolvida no âmbito da linha Desigualdades, Diversidades e Práticas Educativas Inclusivas do PPGE/UFOP, articulada ao campo da Psicanálise e Educação, a pesquisa “Juventudes e o mal-estar: ambivalências e ressonâncias do sujeito na universidade” assume a perspectiva do sujeito dividido e a possibilidade de operar com o inconsciente. Para tanto, adotou-se o método clínico de pesquisa, mobilizando o dispositivo da Conversação, que viabiliza espaços de escuta para licenciandos/as. A aposta foi uma pesquisa/intervenção em que os sujeitos pudessem elaborar os sintomas e encontrar saídas para o adoecimento psíquico. O estudo estrutura-se na articulação entre teoria e campo, orientado por dois eixos: (i) o eixo teórico, que parte das concepções psicanalíticas do mal-estar, com ênfase nas juventudes e suas relações com o trabalho, a mídia, a pandemia e os discursos neoliberais; (ii) o eixo empírico, que investiga as experiências dos universitários na formação docente. Deste modo, este percurso encontra raízes em estudos anteriores, como o trabalho desenvolvido por Andrade; Diniz; Ferreira (2012) no projeto Sou Mais Juventude. Esse projeto de pesquisa/intervenção, que buscou compreender e atuar sobre os efeitos do sofrimento psíquico dos jovens, especialmente no contexto do uso de álcool, drogas e suas implicações, que foi analisado com base na identidade, inclusão e direitos humanos, articulando um referencial teórico-metodológico às políticas públicas voltadas às juventudes para contornar o silenciamento da comunidade diante do luto por dois estudantes. No que tange ao dispositivo metodológico, enfatiza-se a utilização da Conversação, instituído por Jacques-Alain Miller (2003), que opera como um espaço de associação livre coletivizada, em que o dito de um sujeito ressoa no outro, criando um campo significante que permite a emergência do inconsciente. Miller (2005) defende que o dispositivo não busca consenso ou síntese discursiva, trata de um efeito de saber produzido pelo entrecruzamento das conexões imprevistas entre os enunciados, mecanismo que corrobora para o entendimento coletivo do mal-estar. Os encontros foram organizados entre 2024 e 2025, nos quais escutamos os descompassos entre os ideais projetados e as possibilidades de realização ao conciliar os estudos, o trabalho e família. Dentre os aspectos constatados, destacam-se as condições de vida frente aos altos custos de vida em uma cidade histórica, as comparações de sucesso advindas das mídias, a falta de informações estáveis e a pandemia, que intensificou o desamparo. Nos encontros observou-se que os discursos dos estudantes frequentemente queixam sobre o excesso de demandas, a sobrecarga emocional e a falta de acolhimento por parte da Universidade. No ínterim, uma estudante disse: "não adianta reclamar dos professores”, indicando uma ausência de um posicionamento institucional diante às queixas e na mediação dos conflitos, um cenário o que tem nos conduzido a ponderar a necessidade de repensar a função da universidade pública na construção das mediações ao debate público sobre os desafios do nosso tempo. Nesse sentido, a pesquisa discute a condição subjetiva dos discentes, futuros docentes, especialmente aqueles incluídos pelos processos de democratização das universidades, que embora tenham ampliado o acesso, ainda persiste uma herança que pressupõe que todos/as dispõem das mesmas condições para se dedicar aos estudos e indica a necessidade das instituições e seus profissionais reavaliem seus modos de operar. Nesse sentido, indaga-se: qual é o mal-estar da/na formação docente? Como incidem tanto sobre os/as futuros/as professores/as, quanto sobre os/as docentes formadores/as? Como responder à questão: “O que a universidade faz para a saúde mental dos alunos? Além de adoecê-los.” (cartaz colado na entrada da unidade acadêmica). Cabe refletir que diante de um passado colonial, persiste a ideia de que é preciso suportar sem questionamentos, como se as violações fossem naturalizadas e invisibilizadas pelo sistema. Diante do cenário, o que faz a universidade em prol da formação que acolha esse desbussolamento de docentes e discentes? À vista disso, a investigação se organiza em torno de três categorias de análise articulada aos três tempos lógicos de Lacan: (i) o desamparo, em relação às condições institucionais, no instante de ver as expressões do mal-estar; (ii) as ambivalências, referente as contradições das experiências, nas quais os estudantes oscilam entre desejo e a falta, no tempo de compreender as expressões; e (iii) as ressonâncias, sendo as estratégias subjetivas encontradas pelos/as discentes para manejar o mal-estar, no momento de concluir. Os dados preliminares apontam aspectos como a medicalização, a mediação tecnológica, que introduz os dispositivos eletrônicos como extensões da subjetividade e um entendimento acerca das juventudes dos nossos tempos, dada à incerteza e ausência de futuro. Dessa forma, os estudos sobre o mal-estar docente e discente buscam compreender as causas do adoecimento e do mal-estar no âmbito universitário em escala ascendente e contribuir para a produção de ressonâncias capazes de sustentar as ambivalências subjetivas de docentes e discentes. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001 REFERÊNCIAS ANDRADE, Carla Braga de; DINIZ, Margareth; FERREIRA, Carla Mercês da Rocha Jatobá. Juventudes e mal-estar na contemporaneidade. Jundiaí: Paco Editorial, 2015. BIAGI-CHAI, Francesca. Juventude à Deriva>Radicalização. Almanaque On-line, IPSM: Minas Gerais, 2025. Disponível em: https://almanaque17.com.br/juventude-a-deriva-radicalizacao. FREUD, Sigmund. (1930-1936). O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros textos. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Cia das Letras, v.18, 2010. MILLER, Jacques-Alain et al. La Pareja y el amor: conversaciones clinicas com Jacques Alain Miller en Barcelona. Buenos Aires: Paidós, 2005. p.15-20.

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