O CONCEITO DE CUIDADO NOS/DOS/COM OS ESTUDOS COTIDIANOS ESCOLARES (Resumo expandido) Introdução A investigação delineia o perímetro reflexivo que indaga, através de um trabalho teórico-epistemológico de caráter ensaístico, acerca do conceito de cuidado presente nos/dos/com os cotidianos escolares. Trata-se de um tema caro à psicologia fenomenológico-hermenêutica (daseinsanalítica) que resgata o cuidado como característica existencial do ser humano – o cuidado ontológico. Mesmo se manifestando de muitas formas ao longo da, na experiência cotidiana o cuidado se dá como “uma forma de ser que caracteriza o agente humano” (Borges-Duarte, 2021, p. 17), o que implica na tarefa de ter-de-ser-no-mundo, ser-junto-aos-outros (Heidegger, 2012). Considerando que “o que de fato interessa nas pesquisas nos/dos/com os cotidianos são as pessoas” (Ferraço, Soares e Alves, 2018), pretende-se, com isso, ampliar as redes de saberesfazeres e relações capazes de unir noções/conceitos/teorias que se encontram separadas e catalogadas de modo compartimentado e tecer o pensamento em rede (Oliveira e Alves, 2008). Busca-se, portanto, a) investigar de que modo o cuidado se manifesta em meio a educação; b) analisar qual a perspectiva de cuidado permeia os estudos cotidianos escolares; c) refletir e discutir como duas categorias de análise recorrentes nos estudos dos cotidianos escolares – responsabilidade e afeto – podem realçar a compreensão de cuidado, procurando problematizar a dimensão ontológica do cuidado no âmbito dos estudos cotidianos das escolas, evidenciando suas implicações nas relações entre os agentes escolares. Para o desenvolvimento destes objetivos, a pesquisa ancora-se, sobretudo, em autoras/es dos estudos dos cotidianos escolares, como Nilda Alves, Inês Barbosa de Oliveira, Carlos Eduardo Ferraço, Maria da Conceição Silva Soares, Regina Leite Garcia, Janete Magalhães Carvalho, entre outras/os, contando também com autores/as que nos permitirão a discussão epistemológica do conceito cuidado, como Paulo Freire, Leonardo Boff, Michel Foucault, Michel de Certeau, Irene Borges-Duarte, Marco Antonio Casanova, Martin Heidegger, dentre outros/as. Metodologia Esta pesquisa configura-se como um trabalho teórico-epistemológico de caráter ensaístico, orientado pelos referenciais dos estudos do campo cotidiano escolar. Adota-se, para tanto, uma postura reflexiva e crítica em que o conceito de cuidado é analisado e discutido por meio da revisão bibliográfica dos estudos dos cotidianos em educação. O texto, elaborado em formato de ensaio, privilegia a argumentação e a livre circulação de hipóteses, buscando revelar conexões, pontos de convergência e/ou divergência conceituais. Além disso, estabelece um diálogo entre autoras/es que exploram as dimensões ônticas e ontológicas do cuidado e aquelas/es que apontam implicações pedagógicas, a fim de construir uma compreensão ampliada acerca dos espaçostempos de aprendizagem em suas dinâmicas cotidianas e dos agentes que em redessignificações as compõe. Resultados Parciais A análise desenvolvida até o momento revela o cuidado como fenômeno complexo que ultrapassa manifestações isoladas, configurando-se como condição ontológica do ser humano, emergindo na articulação de seus modos de ser (Nascimento, 2019). A investigação parte de três contribuições filosóficas: a ontologia heideggeriana, que situa o cuidado (Sorge) como característica existencial do Dasein; a genealogia foucaultiana do cuidado de si (epiméleia heautoû), que examina práticas de subjetivação; e a abordagem ético-ecológica de Leonardo Boff, que vincula o cuidado à sustentabilidade da vida. O cuidado, enquanto categoria ontológica, revela-se como a estrutura fundamental que define o ser humano em sua relação com o mundo e com os outros. Como aponta Heidegger (2012), o Dasein é, em sua essência, Sorge (cuidado), uma dinâmica que articula o ser-no-mundo de modo já sempre afetivo e responsivo. Essa perspectiva retira a noção de cuidado de mera ação instrumental, situando-o como a própria condição de possibilidade para a existência humana, o que nos permite a reflexão a respeito do cuidado não positivado, o que se deve ao fato de existir no des-cuido um dos modos de cuidado. Portanto, consideramos que cuidado não pode ser compreendido e incentivado isolada e positivamente nos cotidianos escolares, mas carece da discussão a respeito das possibilidades de ser-no-mundo, o que nos conduzirá ao resgate do cuidado em seu modo ético. Em Foucault, especialmente em A hermenêutica do sujeito (2010), o cuidado (epiméleia heautoû) emerge como prática ética de autoconstituição, vinculadas a (trans)formações de si que permitem ao sujeito apropriar-se de sua própria vida e, por extensão, das relações com os outros – dimensão crucial para pensar a educação como espaçostempos de formação de subjetividades responsáveis. Já em Leonardo Boff, nas obras Saber cuidar (2014) e O cuidado necessário (2013), o cuidado assume um caráter ético-político planetário: é “modo-de-ser-essencial” (Boff, 2014, p. 38) que exige reciprocidade entre humanos e natureza, fundamentando uma pedagogia da interdependência. Assim como Borges-Duarte (2021) aponta o cuidado como uma forma de ser que caracteriza o agente humano, destaca ainda que este manifesta-se tanto nas práticas cotidianas mais corriqueiras – como as relações escolares, permeadas por redes de afeto e responsabilidade – quanto nas estruturas políticas que tecem a vida comum. A hermenêutica do cuidado, ao articular as perspectivas de Heidegger, Foucault e Boff, possibilita a compreensão dos cotidianos escolares como espaçostempos privilegiados de sua manifestabilidade: não como gesto pontual, mas como ethos que orienta relações pedagógicas comprometidas com a humanização e a ecologia (Boff, 2005). Como destaca Freire (2021), tal compromisso é inerente ao ato educativo, pois implica responder pelo mundo e pelos outros – alinhando-se às reflexões de Pintasilgo (2002), para quem o cuidado é o exercício prático da responsabilidade. Para o recorte investigativo acerca do cuidado nos/dos/com os cotidianos escolares, a atenção se concentrará na análise das dimensões afetivas e de responsabilidade. Essas duas categorias revelam-se fundamentais para compreender como o cuidado se manifesta não apenas como prática isolada, mas como nexo relacional que permeia as redessignificações cotidianas escolares. No que tange à categoria “afeto”, a investigação se fundamentará na análise de sua presença plural, diversa e contínua, conforme destacado por Janete Carvalho (2009) e outras/os autoras/es. Em consonância a esta análise, a categoria “responsabilidade” será examinada, dentre outras/os autoras/es, a partir das contribuições de Paulo Freire, notadamente em Pedagogia do oprimido (2019) e Pedagogia da autonomia (2021), para investigar como essa dimensão se articula nas relações cotidianas da escola. Tais travessias teóricas trazem à discussão a questão ética de ser-junto-aos-outros e de ser ser-junto-ao-mundo, características ontológicas da condição humana que acenam para a necessidade de conscientização sobre suas formas de lida (cuidado) com sua casa (habitação), e com os outros seres, dos quais dependem para existir. Está análise a partir das categorias “afeto” e “responsabilidade” ainda se consolidará na próxima etapa do processo. Considerações Finais Em síntese, a investigação em andamento tem permitido vislumbrar a complexidade e a multiplicidade do conceito de cuidado nos cotidianos escolares, destacando-o em dimensões diversas, ôntico-ontologicamente. Os resultados parciais ressaltam a importância das dimensões afetivas e da responsabilidade na tessitura das relações nos/dos/com os cotidianos escolares. Embora a análise esteja em curso, este trabalho ensaístico contribui para ampliar as redes de saberes, desafiando a fragmentação dos conceitos e abrindo caminhos para futuras reflexões teóricas que possam integrar os estudos dos cotidianos em educação e sua relação com o cuidado. Palavras-chave: Cuidado; Cotidiano Escolar; Educação. Referências Bibliográficas BOFF, Leonardo. O cuidado essencial: princípio de um novo ethos. Inclusão Social, [S. l.], v. 1, n. 1, 2005. Disponível em:
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