O ANÚNCIO DA SOLIDARIEDADE NO SÉCULO DA SOLIDÃO: EDUCAÇÃO, GÊNERO E SEXUALIDADE - (R)EXISTINDO ÀS VIOLÊNCIAS NEOCONSERVADORAS SOCIOPOLÍTICAS

- 215186
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
O ANÚNCIO DA SOLIDARIEDADE NO SÉCULO DA SOLIDÃO: EDUCAÇÃO, GÊNERO E SEXUALIDADE - (R)EXISTINDO ÀS VIOLÊNCIAS NEOCONSERVADORAS SOCIOPOLÍTICAS Esta comunicação apresenta reflexões de uma pesquisa de doutorado que investiga as discussões sobre gênero e sexualidade no ambiente escolar, com o objetivo de compreender os impactos da solidão em pessoas da comunidade LGBTQI+[1]. Embora o termo ‘solidão’ seja polissêmico, nesta pesquisa ele é entendido como um fenômeno estrutural político (Arendt, 2012), que, em nossa compreensão, se manifesta no isolamento e na exclusão de pessoas com sexualidades dissidentes, a partir de valores patriarcais, conservadores e heteronormativo, resultando em um processo de desumanização e dessubjetivação das pessoas e grupos sociais. A partir da perspectiva freireana e da Educação Popular temos como proposição denunciar a solidão e anunciar a solidariedade como inédito-viável, que representa a possibilidade concreta de transformação da realidade construída por meio da conscientização e da ação coletiva (Freire, 2017). Assim, ao problematizar a solidão vivenciada na escola, a pesquisa direciona caminhos para a construção de uma escola democrática, transgressora, na qual o respeito e a valorização da diversidade se tornem valores concretos e cotidianos. Hertz (2021) aponta que a solidão se tornou um fenômeno definidor do século XXI, prejudicando nossa saúde, qualidade de vida, felicidade e até ameaçando os processos democráticos. Em nações como Japão e Reino Unido, a solidão é reconhecida em pautas públicas, esses países criaram o Ministério da Solidão para implementar políticas públicas para minimizar seus impactos. A autora também destaca que pesquisas recentes têm buscado quantificar a solidão, como é o caso da Escala de Solidão, desenvolvida pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), com o objetivo de quantificar os sentimentos subjetivos de solidão. Nas últimas décadas, no cenário sócio-político nacional, observamos um conjunto de conquistas almejadas pela comunidade LGBTQI+, com o objetivo de alcançar a equidade e promover reparações pelas exclusões e violências históricas sofridas por essa comunidade. Contudo, nos últimos anos, com a ascensão do movimento conservador no Brasil, assistimos retrocessos e violências cometidos contra a população LGBTQI+. Quinalha (2022) enfatiza a necessidade de uma articulação contínua entre o movimento LGBTQI+ e outros movimentos sociais para garantir que as conquistas não sejam revertidas; a garantia de direitos depende não apenas de legislações, mas também de políticas públicas que promovam a inclusão, o respeito e a proteção contra a discriminação e a violência em todos os níveis da sociedade. No cenário internacional contemporâneo, observamos uma série de atrocidades cometidas pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a comunidade LGBTQI+. Desde sua posse, diversas ações foram tomadas, como o encerramento dos programas de diversidade da Casa Branca, a proibição de mulheres trans em prisões femininas, a restrição das transições de gênero para menores de 19 anos, entre outras. O impacto dessas ações se reflete em uma crescente violência simbólica e física, além de um retrocesso nas políticas de inclusão e proteção social, afetando diretamente as pessoas LGBTQI+, reforçando estigmas e limitando o acesso a direitos fundamentais como saúde, educação e segurança. Esses problemas de ordem social, permeiam a escola em todas as suas esferas, refletindo-se de maneira intensa nas dinâmicas sociais, culturais e políticas, e influenciando diretamente as relações entre a comunidade escolar. Nesse contexto, e fundamentado em pesquisas que discutem sexualidade e gênero no ambiente escolar (Bortoli, 2023; Louro, 2007; Oliveira, 2017), busca-se também estabelecer conexões com os saberes da Educação Popular, conforme proposto por pesquisadores/as que exploram essas articulações (Sousa, 2021; Toledo, 2020). A educação tem um papel fundamental ao promover espaços de diálogo e reflexão, possibilitando a construção de uma cultura escolar mais justa e respeitosa, na qual as questões de gênero e sexualidade sejam abordadas de forma crítica e transformadora. O percurso metodológico se pauta na abordagem da pesquisa participante (Borges; Brandão, 2007) orientada pela Educação Popular e pelo legado de Paulo Freire. Como recurso metodológico foram realizadas entrevistas. Para este texto, analisamos seis entrevistas, distribuídas da seguinte forma: três estudantes (E) e três profissionais da educação - professores/as (P). Das seis entrevistas, três foram realizadas presencialmente e três por recurso virtual.[2] As experiências de solidão no ambiente escolar se manifestam de formas diversas entre estudantes e professores/as LGBTQI+, ela aparece como um sentimento constante, especialmente na fase da adolescência, em que a busca por identificação e referências se intensifica. Márcia Alves, mulher cisgênero e lésbica, expressa com intensidade esse sofrimento: "A solidão na escola foi de bastante sofrimento. [...] Então, me sentia muito, literalmente, sozinha, mesmo que eu conversasse com amigos, não era a mesma coisa" (E-Márcia, 2023). A falta de um espaço seguro para o compartilhamento dessas experiências reforça o isolamento, muitas vezes agravado pelo despreparo da escola em lidar com questões de diversidade. A vivência da solidão também se repete para Olívia, mulher trans, que reflete: "Esse foi um assunto que nessa semana eu pensei, na solidão da pessoa trans, principalmente da mulher. Muito, muito, muito. A minha vida inteira, até hoje." (E-Olívia, 2024). Sua trajetória na escola foi marcada por preconceito e hostilidade, ao ponto de precisar mudar de várias instituições para encontrar um ambiente minimamente acolhedor. Para André, homem trans, a solidão foi intensificada pela ausência de representação: "No contexto da escola, por exemplo, estive em ambientes onde não me via representado em outros corpos, o que me fazia me sentir muito solitário" (E-André, 2025). Entre profissionais da educação, o sentimento de solidão também está presente. Suzana, mulher cisgênero e lésbica, compartilha: "Minha vida toda foi baseada em solidão [...]. Era muito comum passar os intervalos na escola, sozinha, intervalos no trabalho, sozinha. E eu comecei a acreditar que eu gostava de ser sozinha, mas não era isso" (P-Suzana, 2023). No ambiente escolar, apesar do receio em expor sua identidade em espaços mais conservadores, encontrou uma recepção mais respeitosa em escolas com maior diversidade. Sara, mulher cisgênero e bissexual, aponta como a solidão pode ser um espaço de reflexão e autoconhecimento, mas também de abandono: "Pode ser uma solidão em que nos sentimos desamparados, sozinhos e sem apoio [...]. Mas a solidão também traz uma reflexão importante sobre a nossa conexão com quem realmente somos" (P-Sara, 2024). Como já enunciado nosso principal objetivo é apresentar a solidariedade como um inédito viável, configurando-se como forma de resistência às políticas neoconservadoras e segregacionistas. A solidariedade, segundo Freire (1996), é um envolvimento genuíno com o/a/e outro/a/e na luta pela transformação social. Quanto mais solidariedade existir no espaço escolar, maiores serão as possibilidades de uma educação e vivência democráticas na escola. Em sua obra, Pedagogia da Autonomia, Freire (1996) entende a solidariedade como um princípio fundamental para a prática educativa libertadora, apresenta a solidariedade como uma forma de luta capaz de promover e instaurar a “ética universal do ser humano” (Freire, p.7, 1996). A solidariedade aparece de maneiras diferentes nas narrativas das pessoas entrevistadas, sendo um fator crucial no enfrentamento da solidão, especialmente no contexto escolar. Para Márcia, a falta de apoio da escola e a exclusão durante sua experiência escolar ressaltam a necessidade de uma rede de solidariedade mais eficaz. Ela afirma: "Eu não conhecia muitas pessoas que eram LGBTs na minha infância, e na minha adolescência. Então tudo que eu entendi sobre mim, foi comigo na internet, o que é bem perigoso!" (E-Márcia, 2023). A busca por apoio virtual evidencia a carência de espaços seguros e solidários dentro da escola, o que a fez se sentir isolada e desamparada. André, por sua vez, teve uma vivência de solidão muito forte no contexto escolar confessional protestante, não só pela falta de representatividade, mas também pela forma como a comunidade LGBTQI+ era estigmatizada. No entanto, em outra escola mais acolhedora, com professores LGBTQI+ assumidos, André sentiu um forte sentido de solidariedade e pertencimento: "Na Escola Técnica minha experiência mudou completamente, ela tornou-se acolhedora desde o início, tanto pelos meus colegas de classe quanto pelos professores" (E-André, 2025). Isso evidencia como o ambiente escolar, quando solidário e plural, pode ser transformador na vida de uma pessoa, promovendo o pertencimento a uma comunidade em vez do isolamento. Quanto ao relato de profissionais da educação, Suzana compartilha que, apesar de sua trajetória marcada pela solidão, encontrou apoio em momentos específicos. Ela destaca, quando ainda era estudante: "Eu conversava muito com as pessoas da internet..." (P-Suzana, 2023), o que reforça a necessidade em criar redes de apoio. Ao ingressar na escola ‘X’ como professora, uma instituição mais aberta ao diálogo e à diversidade, ela observou que o respeito e o acolhimento estavam mais presentes, proporcionando um ambiente mais seguro e humanizador. Esse mesmo movimento ocorreu com Caio e Sara, "Agora, dentro da escola, foi aqui no colégio de 'sistema S' que eu tive a maior liberdade de me expressar tanto com os meus colegas de trabalho, quanto com os meus estudantes" (P-Caio, 2024). A solidariedade neste ambiente educativo promove a sensação de segurança e aceitação. "Hoje, estando em uma instituição mais plural, mais diversa e que lida de forma mais aberta com essas questões, me sinto completamente tranquila para falar sobre isso com os estudantes" (P-Sara, 2024). As experiências compartilhadas pelas pessoas entrevistadas evidenciam o impacto da solidão, especialmente na intersecção entre estratificação social e sexual. O isolamento vivenciado por jovens LGBTQI+ no processo de descoberta de sua identidade é um reflexo das violências simbólicas e estruturais que permeiam a sociedade, tornando a escola, muitas vezes, um espaço de exclusão em vez de acolhimento. Nesse contexto, as/os participantes da pesquisa relataram que, frente ao silenciamento da escola, utilizavam redes sociais e aplicativos de mensagens como estratégias para acessar informações sobre sua sexualidade e encontrar possíveis redes de apoio, por outro lado, alertam sobre os perigos desse espaço. A solidariedade se mostra um aspecto essencial para o bem-estar e a convivência de estudantes LGBTI+ nas escolas. Os relatos indicam que ambientes escolares solidários têm o poder de transformar essas vivências. Seja por meio da representatividade, do respeito às identidades ou da criação de espaços seguros para o diálogo, a solidariedade desempenha um papel crucial na construção de uma escola mais justa e acolhedora para todos/as/es. A transição da solidão para a solidariedade ocorre quando a escola e a comunidade escolar se tornam mais abertas, plurais e dispostas a construir um ambiente onde todas as identidades sejam respeitadas e valorizadas. A educação não deve ser um ato isolado ou imposto, mas um processo dialógico em que as pessoas - educadoras e educandas - constroem conhecimentos juntas, em um ambiente humanizador e de compromisso mútuo. “Se a minha opção é democrática, progressista, não posso ter uma prática reacionária, autoritária, elitista. Não posso discriminar o aluno em nome de nenhum motivo”. (Freire, p. 38, 1996). Em vez de sucumbir às opressões e à LGBTQIfobia, propomos a construção de relações solidárias que reafirmam a potência dos encontros, do diálogo e do reconhecimento mútuo como caminhos para uma educação democrática e humanizadora. REFERÊNCIAS ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. BORTOLINI, Alexandre. É pra falar de gênero sim: fundamentos legais e científicos da abordagem de questões de gênero na educação. [s.n.] Brasília, 2023. BRANDÃO, Carlos Rodrigues; BORGES, Maristela Correa. A pesquisa participante: um momento da educação popular. Revista de Educação Popular, Uberlândia, v. 6, n. 1, 2008. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz & Terra, 1996. HERTZ, Noreena. O século da solidão: restabelecer conexões em um mundo fragmentado. Tradução Marina Vargas. Rio de Janeiro : Record, 2021. LOURO, Guacira Lopes. Pedagogias da sexualidade. In: LOURO, G. L. (org.). O corpo educado. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. p. 8-34. OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes de. O diabo em forma de gente: (r)existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação. 2017. 190 f. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do Paraná, Curitiba. QUINALHA, Renan. Movimento LGBTQI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias. Belo Horizonte: Autêntica, 2022. SOUSA, Fabiana R. Resistir para existir: aportes freireanos para uma educação sexual transgressora e emancipadora. Práxis Educativa, [S. l.], v. 16, p. 1–18, 2021. TOLEDO, V. L de. Assédio sexual em ambiente escolar: possíveis contribuições da Educação Popular e das pedagogias descoloniais e feministas. 2020. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro Universitário Salesiano de São Paulo. [1] A sigla que representa a diversidade sexual e de gênero tem passado por transformações ao longo do tempo, refletindo disputas por visibilidade e reconhecimento. Como não há uma instância oficial que valide essas siglas (Quinalha, 2022), nesta comunicação, opto pelo uso de LGBTQI+, incluindo o ‘+’ para simbolizar a abertura, fluidez e constante construção dessa comunidade e discussões. [2] A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos. Os nomes apresentados foram escolhidos pelas pessoas que participaram da investigação, não se trata de nome civil, mas de estratégia utilizada para manter o anonimato das pessoas participantes.

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