NIETZSCHE E O TEMPO: DESAFIOS FORMATIVOS

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Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
NIETZSCHE E O TEMPO: DESAFIOS FORMATIVOS Introdução O tempo, sem dúvida, é um dos temas da Filosofia. Afinal, como ele nos impacta? como ele nos ameaça ou nos faz alcançar sonhos, projetos? Estar no tempo é o modo de colocar-se diante da vida, também diante da morte que sempre nos ronda. Filósofos tomaram o tempo para pensar a finitude, o presente, o passado e o futuro. Por fim, o tempo é um indicador pedagógico sempre que conseguimos ver, nele, um elemento de deslocamento e possibilidades para pensar a nossa trajetória. Apesar dos incômodos da idade, preferimos a velhice à morte. Mas ela não vem de repente, a travessia é longa e, em alguma medida, apreciamos a transformação do tempo, pois não desejamos permanecer sempre iguais. O conceito de Bildung[1] implica o tempo, impactou a educação no passado por meio da Literatura, da Pedagogia e da Filosofia. Na atualidade, diversos autores indagam sobre se tal conceito já esmoreceu ou pode ser revitalizado, considerando as nuances da estética, da ética, da liberdade e da autonomia. Seguimos aqueles que retomam o conceito para enfrentar os seus limites e excessos para atualizá-lo, considerando um tempo de formação que solicita uma desaceleração. Temos muitas lentes para pensar sobre o tempo, somos contraditórios em relação ao tempo, por vezes, queremos tudo preservar e, outras tantas vezes, ver tudo fluir. Nietzsche, ao debater a dimensão contemplativa e ativa da vida, retoma o tempo como um desafio de formação. Em geral, confiamos que o tempo tenha dado aos costumes a sua grandeza por sua antiguidade, incontestabilidade, por isso, “esse sentimento se opõe a que se façam novas experiências, e a que se corrijam os costumes: o que quer dizer que a moralidade se opõe à formação de novos e melhores costumes: embrutece”. (Nietzsche, 2008, p.26). Mas, afinal, qual o gesto que nos quer em movimento, capaz de escolher o que preservar e o que alterar? Para grande parte dos filósofos é o gesto da liberdade. Se ficamos embrutecidos quando apenas aderimos a uma tradição e, por vezes, inibimos a nossa potência com vista à correção dos costumes, aprisionamos a nossa liberdade pelo temor de novas experiências. Atrofiar a liberdade compromete a beleza da vida. Enfim, como chegamos à vida contemplativa e o que ela pode nos oferecer? Para Nietzsche, a dimensão da eticidade do costume não segue qualquer lógica cronológica, mas implica uma obediência a uma determinada forma de agir e avaliar. Nesses termos, também fica compreendida uma definição de “tradição, a qual se obedece porque ordena aquilo que é útil”. (Nietzsche, 2008, p. 19). Importa obedecer, pois, viabiliza a vida coletiva e, de certa forma, embota qualquer iniciativa do indivíduo. Em sua crítica à modernidade, o filósofo denuncia um tipo de vida que, por ser acelerado, já não conhece mais o valor do ócio e a agitação impede que floresça uma cultura superior, capaz de mobilizar indivíduos em sua singularidade. A falta de tranquilidade instaura uma nova barbárie. (Nietzsche, 2005, p.176). A resistência pode começar fortalecendo a dimensão contemplativa da vida. Como é usual em Nietzsche, ao defender um dos polos, por exemplo, o elemento contemplativo, ele também avalia a necessidade de enfrentar e refletir sobre o outro polo, no caso a vida ativa. Suas provocações, igualmente, ampliam e alteram os sentidos daquilo que supostamente estava previamente estabelecido em cada um desses polos. O homem moderno, para Nietzsche, tem ânsia pelo saber e, na pressa, aceita uma versão da vida caótica e difusa, fazendo crescer, em cada um, uma certa inquietude e agitação excessiva. Ao longo da história das versões de vida contemplativa, Nietzsche destaca alguns tipos: dos religiosos, dos artistas, dos filósofos, dos cientistas. Analisa com cuidado cada um desses tipos e mostra os riscos de cada um ao desejar instaurar a vida contemplativa, contudo muitas vezes colocando em risco aquilo que também importa aos humanos, que é a ação, uma espécie de beleza dos inícios. A vida contemplativa deve criar algo, não cabe apenas refletir, pois “toda ação individual, toda maneira de pensar individual faz tremer; é completamente impossível determinar o que os espíritos raros, seletos, originais, têm sofrido na história pelo fato de serem considerados maus e perigosos.” (Nietzsche, 2008, p.21). Entra em cena a vida ativa, a história já nos apresentou várias performances do homem ativo, podemos citar os caçadores, os guerreiros, os agricultores, os trabalhadores. Entre o excesso e a medida da atividade, cabe aos humanos definirem e perceberem onde está o perigo dessa fronteira. Nietzsche criticou os apologistas do trabalho (2008, p.126), considerando que a glorificação do trabalho consolidou uma espécie de uma rédea, uma espécie de polícia capaz de impedir nossos desejos e projetos pessoais. Já podemos afirmar que a defesa da vida contemplativa não anula a vida ativa, mas discute o seu formato e o seu sentido. A vida contemplativa A abordagem de Nietzsche, desde muito cedo, insiste em destacar a importância de educar o olho para a contemplação a fim de observar à distância aquilo que precisa de tempo e paciência para ser efetivamente visto para produzir reflexão. Conforme anunciou no livro Crepúsculo dos ídolos, a formação de um espírito livre deve aprender a olhar, pensar, falar e escrever. Ele aponta com determinação: “em toda parte vigora uma pressa indecente” (2006, p.59) observada nas instituições educacionais, atrofiando as condições para pensar e agir. Precisamos, de fato, de educadores, para que “eles próprios sejam educados, provados pela palavra e pelo silêncio” (2006, p.58) para conseguir oferecer trajetórias qualificadas de formação. Lopez (2016) mostra a conexão entre a vida contemplativa e a Bildung no pensamento nietzschiano. É importante perceber essa conexão para compreender a educação como um processo formativo singular. Ele aponta, inclusive, qual a crítica que Nietzsche faz à vida contemplativa a considerar o homem moderno: se encuentran de manera dispersa diferentes versiones de vita contemplativa que han moldeado el carácter del sujeto, de ahí que la dispersión de estas fuerzas han impedido dar estilo al propio carácter. (López, 2016, 70) Será preciso aprender a “mirar” o que implica desacelerar, mas também será preciso superar a dispersão para concretizar ações individuais. A vida ativa atrofiada pela pressa acaba embotando o olhar para a diferença, para o singular, o homem moderno carece de tranquilidade, quietude para pensar. Para López, a pressa impede a capacidade do assombro, não sabe mais produzir a interrupção, viabilizando a barbárie que tudo deixa ver, passar. Os homens esqueceram que são capazes de interromper, suspender e indagar. A defesa da vida contemplativa, nos termos propostos por Nietzsche, convoca-nos a pensar outra educação, capaz de ensinar a ver, pensar, ler e escrever enquanto fecunda o espírito livre. Assim sendo, escapar da pura agitação imposta por demandas sem qualquer sentido. Criar uma pedagogia da atenção destinada ao mundo no qual estamos inseridos, uma atenção ao corpo, às palavras, às artes, capaz de conectar essas capacidades entre si com vistas a um cuidado de si e do mundo. Então, cabe aqui destacar o valor de reinventar o conceito de Bildung, como afirmamos anteriormente. Nesse ponto o filósofo coreano Byung-Chul Han tem muito a dizer-nos ao retratar a questão da positividade exacerbada de nossa atualidade, destacando exigências implicadas pelo domínio da informação e mais pela falta de acolhida para o vazio e o ócio. Toda negatividade deve ser eliminada para dar à ação o seu caráter positivo e empreendedor. A saturação da positividade, que quer nos livrar do negativo, contraditoriamente, tem produzido em nossos corpos o cansaço, o esgotamento e até a depressão. A ideia de formação (Bildung) articulada a um desejo de transformação cultural está relacionada de alguma forma ao ócio e à lentidão. Mas o que é o ócio? Em favor dos ociosos, Nietzsche afirma: Como sinal de que decaiu a valorização da vida contemplativa, os eruditos de agora competem com os homens ativos numa espécie de fruição precipitada, de modo que parecem valorizar mais esse modo de fruir do que aquele que realmente lhes convém e que de fato é um prazer bem maior [...]o ocioso é sempre um homem melhor do que o ativo. – Mas não pensem que, ao falar do ócio e lazer, estou me referindo a vocês, preguiçosos. (Nietzsche, 2005, p. 176) A crítica à vida ativa não comporta qualquer contemplação da vida, rejeita os preguiçosos que nada fazem para concretamente alterar uma espécie de eticidade do costume, sendo obedecida apenas por conveniência. Clama, sim, por tranquilidade a considerar a agitação da vida moderna que acaba por colocar em risco a própria civilização, dando espaço para a barbárie. Os homens ativos desempenham quase sempre uma atividade irracional, “rolam como pedra, conforme a estupidez mecânica” (Nietzsche, 2005, p. 176). Referências: BYUNG-CHUL HAN. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. LÓPEZ, Pablo Drews. Valoración de la vita contemplativa para la formación en Nietzsche. IXTLI - Revista Latinoamericana de Filosofía de la Educación V. 3 – Nr.5 - 2016 NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: reflexões sobre os preconceitos morais. Editora vozes , 2008 ____________________Humano demasiado Humano .Um livro para espíritos livres/ São Paulo: Companhia das Letras, 2005 ____________________Humano demasiado Humano II. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. TOLEDO, Ricardo de Oliveira. Vida contemplativa e vida ativa em Nietzsche: um estudo da cultura em Aurora. https://helder.academia.edu/RicardodeOliveiraToledo. Consulta: 29/01/2025 [1] Destacamos aqui o Dossiê sobre o tema apresentado pela Revista Espaço pedagógico em 2017, v.24, n.3) (https://seer.upf.br/index.php/rep/issue/view/609). Também destacamos a obra: Formação humana (Bildung): despedida ou renascimento? DALBOSCO, Claudio Almir, Editora Cortez. 2019.

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  • 1 UFSC- Universidade Federal de Santa Catarina
Track
  • GT17 - Filosofia da Educação