As redes educativas e os movimentos nas ruas Diversos grupos de pesquisa com preocupações com os cotidianos têm trabalhado com a ideia de redes educativas, entendendo que as formamos e nelas nos formamos. São estas as redes com que têm trabalhado: a das ‘práticasteorias’[1] da formação acadêmico-escolar; a das ‘práticasteorias’ pedagógicas cotidianas; a das ‘práticasteorias’ das políticas de governo; a das ‘práticasteorias’ coletivas dos movimentos sociais; a das ‘práticasteorias’ de criação e “uso” das artes; a das ‘práticasteorias’ das pesquisas em educação; a das ‘práticasteorias’ de produção e ‘usos’ de mídias; a das ‘práticasteorias’ de vivências nas cidades, no campo e à beira das estradas (Alves, 2019). Elas funcionam articuladas, de diferentes modos em ‘espaçostempos’ diversos e são entendidas como de ‘práticasteorias’ pois percebemos que nelas são criadas, permanentemente, práticas necessárias e possíveis ao viver cotidiano e que estão intimamente relacionadas à criação de formas de pensamento a que podemos chamar teorias. Neste texto, vamos nos preocupar e expor uma dessas redes - a das ‘práticasteorias’ coletivas dos movimentos sociais. Inicialmente, precisamos lembrar que em geral os movimentos sociais de todos os tipos e modalidades se apresentam, com frequência, nas ruas, em público. É assim que a maioria das pautas e agendas são apresentadas ao maior número de pessoas, buscando se tornar conhecidas e buscando apoio de outros grupos sociais. As ruas – os ‘espaçostempos’ públicos – são também onde os embates com as chamadas “forças da ordem”, que representam os poderes constituídos, aparecem para controlar o volume e tipos de ação. As ações populares públicas podem ir de manifestações pacíficas, como passeatas com palavras de ordem, a manifestações mais violentas, com “quebra-quebra” de vitrines de lojas, passando por algumas a meio termo, com ocupações de ‘espaçostempos’ diversos (de casas legislativas, por exemplo). Pretendemos apresentar um desses movimentos que teve, no Brasil, um papel destacado – o chamado “Lula Livre” – indicando seu papel pedagógico, por excelência, mostrando-o como ‘espaçostempos’ de resistência e criação. Pedagogia das ruas: o movimento Lula livre Mergulhar com todos os sentidos (Oliveira; Alves, 2008: p.10) para tentar perceber o que o olhar, pura e simplesmente, não dá conta é o que precisamos fazer para compreender todas as movimentações humanas nas tantas redes educativas nas quais estamos envolvidos. Nelas, expandem-se os gestos e movimentos investigativos, todos os sentidos estão envolvidos e em ação – o corpo todo se move. Assim, nós, pesquisadores nos/dos/com os cotidianos, ‘sentimosouvimosvemoscheiramostocamospensamos’ tudo o que nos cerca, os acontecimentos que transformam o virtual em atual, o possível em real (Deleuze, 1991): as vozes dos cotidianos, os movimentos e gestos dos ‘praticantespensantes’ que se repetem e são criados. Com eles podemos indagar nossos preconceitos e certezas. E ‘aprendemosensinamos’ com eles! As redes dos movimentos sociais não atuam sozinhas, em separados das outras redes. Nas redes se articulam – sempre em movimento – múltiplos e complexos ‘conhecimentossignificações’. A educação é movimento, é articulação com as complexidades e as demandas do mundo. Nesse contexto, as diversas redes educativas que nos formam e que formamos ganham destaque, reverberando na pesquisa concluída. As ‘práticasteorias’ em diversos contextos dos cotidianos, não apenas formam, mas também são formadas por um conjunto de influências mútuas entre ‘praticantespensantes’ e suas experiências e criação de ‘conhecimentossignificações’. As ruas são os ‘espaçostempos’ onde a vida pode ser escrita como obra de arte porque nelas se dão os cruzamentos, se criam insubordinações. Nas redes em que os ‘conhecimentossignificações’ são criados, os ‘aprenderesensinares’ se articulam fortemente, sem compartimentos, sem caixas. Certeau (2013) vai chamar tal movimento de “táticas de praticantes”, pois apesar de todos os marcadores sociais e das opressões é possível viver outras histórias, roteirizar a própria história e produzir a sua vida como obra de arte. As redes educativas vão se entrelaçando, passam pelos movimentos sociais, que passam pelos movimentos de defesa da democracia, que passam pela busca do alargamento das visões de mundo, das concepções de mundo, nos tantos mundos hoje existentes (Alves, 2008). As redes educativas vão criando processos de subjetivação e é importante destacar a experiência de viver nelas. É desse modo que vamos tentar identificar e compreender - totalmente mobilizadas e envolvidas – os processos educativos do acampamento de vigília a que se deu o nome “Lula Livre”. Como se sabe esse movimento foi criado em Curitiba, nas ruas em torno do edifício prisional onde estava o atual presidente do Brasil, Inácio Lula da Silva, depois da prisão decretada pelo então juiz Moro em um processo considerado político e cheio de erros, posteriormente, pela corte maior de justiça do país, o STF. As múltiplas vezes em que estivemos no acampamento, sentíamos que estávamos ‘praticandopensando’ atos educativos, múltiplos e complexos, e embora não organizados em disciplinas, organizávamos um currículo nos tantos cotidianos ali vividos. Lembrando, sempre, que currículo não é só o que está escrito e descrito em documentos. Currículos - sempre no plural- não são apenas as determinações institucionais oficiais, mas são as ‘práticasteorias’ cotidianas tecidas por ‘praticantespensantes’ das redes educativas, mergulhados em acontecimentos cotidianos, incluindo resistências e criações. Currículos são ‘praticadospensados’ com os e nos múltiplos corpos com as suas histórias, com as suas marcas, com as suas possibilidades de existência, com as suas diferentes aprendizagens, com as suas demandas, com os seus limites, com as suas potências. Então, nesse caminho de pensar as redes educativas, os currículos praticados em ‘espaçostempos’ nos ‘dentrofora’ das escolas é o que nos permitiu pensar a vigília “Lula Livre” como ‘espaçostempos’ de ‘aprenderensinar’. Para além e com a arquitetura, temos as redes formadas e que formamos ao estarmos nesses ‘espaçostempos’ das ruas. As pessoas transformam as ruas não somente com as suas interferências nas estruturas, como também com as suas criações: conversas, travessias, festejos, pausa para somente tomar um ar. A partir do momento em que as ruas são ocupadas, onde há grupos de pessoas se relacionando, há ‘aprendizadoensino’. E assim se deu na pesquisa realizada, com imagens e sons que mostram, como nas ruas de Curitiba, se ‘aprendeuensinou’ muito além do que se ‘aprendeensina’ com o conteúdo de disciplinas. Vamos, assim, a vivências nas redes e às criações curriculares cotidianas ali postas, no limite imposto pelas normas de trabalho: Logo pela manhã do dia seguinte à prisão de Lula, os manifestantes se organizaram nas ruas, se reagruparam e batizaram o cruzamento das ruas Guilherme Mattere (pintor paranaense) e Dr Barreto Coutinho (poeta pernambucano) de “Praça Olga Benário12”, pintando no chão de asfalto o seu nome. A Praça Olga Benário que era, a princípio, mais do que um cruzamento, tornou-se, imediatamente, uma praça de encontros. Nascia ali a equipe de cultura que, durante os 580 dias da vigília, acolheu e organizou as mais diversas manifestações em prol da libertação de Lula. Assim se forjou uma das vertentes mais fortes do movimento. Ali, na encruzilhada, naquele ponto de chegada, naquele lugar em que as ruas se encontram e os corpos da cidade circulam (Simas, 2020), fez-se um palco de atos mesclados de política e arte. Como o próprio Simas lembra: a encruzilha é um ponto de chegada, tem uma dimensão de transcedência, está ligada à ideia do encontro do convívio das diferenças. É a possibilidade de você entender que não existe um único caminho, que os caminhos são mais amplos do que a gente imagina. É um local que a diferença convive. O ser encruzilhado é aquele ser disponivel para conhecer o outro, para conhecer a beleza de outras culturas que não são necessariamente a dele. Então, a encruzilhada é o lugar da disponibilidade para que as coisas aconteçam e as pessoas se encontrem. E a vida se encante (Simas a, 2020, p. 69). Criou-se, ali, um ponto de encontro. Na procura de entender essa força, que reuniu tantas pessoas, partidos e tendências políticas e instituições em torno de uma luta, como nos provoca Nêgo Bispo[2], outro sentido para os ‘espaçostempos’ apareceu: o sentido de confluências. Isso, numa luta que se territorializa através da criação de uma praça e percebendo as praças como ‘espaçostempos’ de convivências, de trocas: um encontro outro de vidas que se movimentam em direções parecidas. Simplesmente isso. O termo confluência foi reeditado. Toda a vida se falou em confluências. Eu só reeditei, eu trouxe para as relações. Porque quando você diz: eu encontrei fulano por coincidência. Como assim? Vocês se encontraram porque vocês estavam andando, se movimentando. Se você não estivesse andando vocês não se encontravam, então não tem coincidência. Quando você discute a coincidência, você está escondendo a origem dos acontecimentos, você está negando a autoria dos acontecimentos, você está colocando o acontecido para o destino, para o mundo dos milagres. E quando você discute a confluência, aí sim, você está apresentando a origem dos acontecimentos, a autoria dos acontecimentos, o motivo dos acontecimentos. Então, todas as pessoas, por mais diferentes que elas sejam, elas têm um ponto em comum. A grandeza da confluência, por exemplo, porque ela vai aproximando as pessoas. (Nego Bispo, 2024) Em um terreno alugado, em frente ao prédio da policia federal, foram concentradas as informações e orientações acerca da agenda do dia e dos movimentos previstos cotidianamente. O aluguel desse terreno, no mês de julho, depois de muita procura e negociação com o proprietário e a justiça, possibilitou a otimização de diversas ações e atividades que aconteciam no dia a dia da vigília. A organização, por exemplo, do Espaço Saúde com infusões medicinais, ervas, aplicação de auriculoterapia, uma maca para massagens. Uma vez por semana, médicos voluntários compareciam a esse espaço e davam suporte para essa ação de cuidados. Nele aconteciam, ainda, rodas de conversas, palestras, exposição artísticas, esquetes teatrais. Logo pela manhã, o povo subia a ladeira que ia dar no prédio da Policia Federal e se concentrava ali na sede. Era a hora de dar o bom-dia ao presidente. Tudo embalado com muita cantoria acompanhada de uma viola e muitas vezes por outros instrumentos. Bom dia presidente / foi agora que eu cheguei / vou chegando e vou cantando a fazê companhia assumcê O povo chegou / o povo chegou / força Lula / que a luta só começou E no dia todo havia movimentação de gente vinda de todo o país, trazendo e levando artefatos culturais diversos, trocando e criando ‘conhecimentossignificações’ nas múltiplas dimensões das ações humanas – éticas, estéticas, políticas e poéticas – permitindo que se espalhasse pelo Brasil o que lá acontecia. Considerações finais Pelo limite do texto ficamos por aqui, nos comprometendo a “contar” e mostrar em fotografias muito mais sobre como movimentos sociais nas ruas resistem às agendas autoritárias e criam agendas de liberdade e democracia, em ações cotidianas. Referências ALVES, Nilda. Nós somos o que contamos: a narrativa de si como prática de formação. In: SOUZA, Elizeu; MIGNOT, Ana Chrystina. (orgs.). Histórias de vida e formação de professores. 1ed. Rio de Janeiro: Quartet, v. 1, 2008, p. 31-145. _______. Decifrando pergaminho: o cotidiano na escola nas lógicas das redes cotidianas. OLIVEIRA, Inês Barbosa de; ALVES, Nilda (orgs). Pesquisa nos/dos/com os cotidianos das escolas: sobre redes de saberes. 3ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2008: 13-18. _______. Práticas pedagógicas em imagens e narrativas: memórias de processos didáticos e curriculares para pensar as escolas hoje. São Paulo: Cortez, 2019. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano Vol. 1: Artes de fazer. 13ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. DELEUZE, Gilles. A dobra – Leibniz e o barroco. Campinas/SP: Papirus, 1991. INGOLD, T. 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https://youtu.be/gCTz kw1390?si=y-o_9-gJ7BYChUl3 SIMAS, Luiz Antônio. O corpo encantado das ruas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020. [1] Explicamos outra vez: trabalhando nas pesquisas com os cotidianos, percebemos que as dicotomias, necessárias à criação das ciências na Modernidade, significam limites ao que precisamos ‘fazerpensar’ nas pesquisas que desenvolvemos hoje. Com isso e para disso nos lembrar, sempre, passamos a escrever os termos, antes dicotomizados, dessa forma – juntos, em itálico e entre aspas simples – Ex: ‘práticasteorias’; ‘dentrofora’; ‘espaçostempos’; ‘aprendizagensensinos’. Muitas vezes, pluralizamos os termos e, mesmo, invertemos o modo hegemônico de escrevê-los. Percebemos, ainda, que ações, vistas como sucessivas, pelo pensar hegemônico, são sempre concomitantes (ex.: ‘verouvirsentirpensar’ filmes). Para nos lembrarmos disso, adotamos essa forma de escrever esses termos e verbos. [2] Nêgo Bispo lavrador quilombola, poeta, escritor, professor, ativista político, militante do movimento social e de direitos pelo uso da terra. É uma das principais vozes do pensamento das comunidades tradicionais do Brasil, morreu em dezembro de 2023.