NARRATIVAS E DOCUMENTOS: A INTENCIONALIDADE DA DISCUSSÃO SOBRE GÊNEROS E SEXUALIDADES NOS/DOS/COM OS COTIDIANOS DE UM CURSO DE LICENCIATURA EM GEOGRAFIA

- 215271
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
NARRATIVAS E DOCUMENTOS: A INTENCIONALIDADE DA DISCUSSÃO SOBRE GÊNEROS E SEXUALIDADES NOS/DOS/COM OS COTIDIANOS DE UM CURSO DE LICENCIATURA EM GEOGRAFIA I – Introdução Os espaços educativos devem seguir diretrizes políticaspedagógicas comuns para construir suas identidades formativas, que, por serem tecidas por pessoas, podem mudar ao longo do tempo. Essas diretrizes são formalizadas no Projeto Político-Pedagógico (PPP), documento que define o caminho a ser seguido por escolas, universidades e cursos para atingir seus objetivos. Como destaca Veiga (2013, p. 13), “o projeto busca um rumo, uma direção”. A exigência do PPP para cursos universitários surgiu com a Constituição de 1988 e foi consolidada pelo artigo 12, inciso I, da LDB (1996), que determina a responsabilidade das instituições de ensino superior na elaboração e execução de suas propostas pedagógicas. Sobre a proposta pedagógica, é necessário enfatizar que “é político no sentido do compromisso com a formação do cidadão para um tipo de sociedade” (VEIGA, 2013, p. 13) e: Na dimensão pedagógica reside a possibilidade da efetivação da intencionalidade (...), que é a formação do cidadão participativo, responsável, compromissado, crítico e criativo. Pedagógico, no sentido de definir as ações educativas e as características necessárias às escolas de cumprirem seus propósitos e sua intencionalidade. (VEIGA, 2013, p. 13). Sendo assim, neste trabalho realizamos uma viadificação[1] crítica em relação a alguns trechos escritos do PPP no que tange às dimensões intencionais[2] políticas e pedagógicas do curso de Licenciatura em Geografia de uma universidade pública, localizada no Estado do Rio de Janeiro e sua preocupação com as questões dos gêneros e das sexualidades. II – Metodologia Optamos por um referencial teórico metodológico que estivesse em sintonia com a nossa vida, com os cotidianos de opressão que vivenciamos diariamente. Um dos autores deste trabalho se autodenomina viado, por isso a necessidade de uma abordagem de pesquisa em que, o que ele chama de escritaviada[3], pudesse se amparar, para ser expressada em forma de uma narrativa sentimento. Assim, só a pesquisa nos/dos/com os cotidianos pôde nos auxiliar. O cotidiano exige ver além daquilo que os outros já viram, e que aquelx[4] que faz a pesquisa possa mergulhar com os sentidos no que está sendo pesquisado. A pesquisa nos/dos/com os cotidianos envolvem mais cinco movimentos: virar de ponta-cabeça, beber em todas as fontes, narrar a vida/literaturizar a ciência, a importância dxs indivíduxs praticantes e a circulação dos conhecimentossignificações (ALVES, 2002, 2008; ANDRADE, CALDAS & ALVES, 2019). Esses movimentos dialogam com nossa concepção de pesquisa e justificam a escolha dessa metodologia para esta investigação, sobretudo pelo quinto movimento, que valoriza xs sujeitxs pesquisadxs. III - Analisando o Projeto Político Pedagógico O documento nomeado de “Reforma curricular do curso de licenciatura em Geografia” traz no terceiro parágrafo da sua primeira página os seguintes apontamentos e estratégias: Frente aos novos desafios apontados pelas transformações na sociedade brasileira, no mundo do trabalho e da educação, e apoiados na autonomia universitária garantida pela Constituição de 1988 e reafirmada pela Lei 9394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), a partir das quais as Universidades ganharam liberdade para organizar as suas atividades acadêmicas, segundo a perspectiva de suas necessidades e realidades locais, regionais e nacional, acredita-se poder reordenar o currículo, afim de abrigar a geração e comunicação de conhecimentos que sejam realmente capazes de formar um profissional qualificado e socialmente comprometido, para responder e corresponder à complexidade do mundo contemporâneo. Espera-se que, com esse olhar, o Curso de Geografia da [....] seja capaz de definir e redefinir os seus objetivos e implementar o seu Projeto Pedagógico, articulando teoria e prática, qualificação profissional e compromisso social, evidenciando, assim, o caráter de um curso comprometido com o conhecimento universal e, ao mesmo tempo, com a sociedade. (REFORMA... 2005, p. 01 - Grifos do autor). Destacamos em negrito os três termos na citação acima, pois são fundamentais, especialmente para nós, grupos minoritários, que vemos em nossxs aliadxs pessoas cruciais na luta contra a opressão, principalmente nas instituições educacionais. Segundo York (2020), xs professorxs são aliadxs potenciais dxs estudantes, pois têm o compromisso ético-político de criar outrxs aliadxs, ouvindo e entendendo vítimas de ações LGBTQIPNfóbicas. E o PPP não se faz sozinho, ele é formulado enquanto documento e política institucional pelxs professorxs, portanto, por aquelxs que são ou deveriam ser nossxs aliadxs. (...) As alianças que têm se formado para exercer os direitos das minorias sexuais e de gênero devem, na minha visão, formar ligações, por mais difícil que seja, com a diversidade da sua própria população e todas as ligações que isso implica com outras populações sujeitas a condições de condição precária induzida no nosso tempo. E esse processo de ligação, não importa qual difícil seja, é necessário, pois a população das minorias sexuais e de gênero é ela mesma diversa - uma palavra que não é precisa o suficiente para expressar o que eu gostaria de dizer (...). (BUTLER, 2018, p.76 e 77) Xs aliadxs, neste caso, xs professorxs do curso pesquisado, precisam ter um compromisso não apenas com nossa comunidade, mas com a sociedade como um todo. A luta é tanto nossa quanto de nossxs aliadxs, é para que a sociedade mude sua forma de pensar sobre corpos dissidentes e deixe de violentá-los. No entanto, durante a pesquisa que tecemos, ao entrevistar o docente "B[5]", percebemos que o comprometimento com as questões sobre os gêneros e as sexualidades não estava tão presente em sua prática docente cotidiana. Indo mais no objetivo na sua questão. Eu acho que não consegue preparar, assim como não consegue preparar um estudante, para lidar com um contexto diferencial, talvez periférico, favelado. Assim, talvez eu não consiga preparar, acho que um pouco mais recentemente para lidar com situações de racismo em sala de aula, talvez tenha avançado um pouquinho ali. Não prepara. A inexistência de (inaudível), por exemplo, de gênero e sexualidade enquanto campo aqui no nosso departamento, demonstra que isso não é um tema engajado por ninguém. Isso já gera uma lacuna, gera uma questão (...). X docente afirma que o curso em si, não prepara para lidar com as questões dos gêneros e sexualidades, ou seja, xs estudantes do curso precisam buscar conhecimentos para além de sala de aula. As narrativas dxs docentes entrevistadxs evidenciam como foi feita a reforma curricular. Apresentamos a seguir a narrativa do Docente “B”: Como é que a gente faz isso, vamos dizer, como eu vejo, né? Eu vejo que a gente pode fazer isso com um aumento não individual, mas um aumento mais coletivo, tipo uma demanda do estudante. A reforma curricular, ela foi aberta, não chegaram propostas de estudantes para a reforma curricular, a gente não foi intencionado. Eu não lembro de ninguém na reunião, intencionar sobre o gênero e a sexualidade, nenhum de nós, as pessoas ou professores ali presentes. Também não observo uma legislação que nos pressione isso. X docente “C”, traz uma fala, em nosso ponto de vista muito importante, sobre esses embates e vai um pouco além do que ocorre dentro das disputas curriculares: Então, isso cada vez mais se torna um embate dentro do contexto dos departamentos, dentro dos contextos dos encontros de Geografia, encontros de forma em geral, para que a gente possa não só é ampliar a leitura do real, mas combater todas as formas de dominação. Algo que fica nítido na fala dx docente B, é a ausência de uma identidade cotidiana universitária, voltada para as discussões sobre as questões de gêneros e sexualidade. A narrativa produzida, inclusive responsabiliza xs discentes, por elx nãos terem participado das discussões da reforma curricular, não intencionando sobre a temática dos gêneros e sexualidades. Talvez a saída seja, como mencionado em uma das falas, ter uma legislação que xs “obrigue” a discutir tais temáticas. Mas aí fica a pergunta, precisa de uma legislação para trabalhar com tal temática, quando estamos no país que mais mata pessoas trans[6] no mundo? O CIStema[7], produz e faz com que a gente reproduza masculinidades e feminilidades padrão, e a escola é a instituição escolhida para controlar os corpos dxs alunxs, perpetuando assim a lógica heterossexual, e construindo (in)verdades sobre as sexualidades, as identidades e expressões de gêneros dissidentes, xs colocando em lugares subalternizados. Além dos cotidianos de muitas escolas operaram dentro dessa lógica que exclui, também temos muitas famílias tentando impedir que as homossexualidades adentrem suas casas, muitas vezes dando continuidade ao sistema patriarcal que diz que as mulheres são submissas ao homem que deve ser o dominador. Por isso, torna-se fundamental o diálogo sobre essa temática nos/dos/com os cotidianos dos cursos de formação de professorxs, para que as escolas tornem-se locais realmente inclusivos para todxs os corpos. IV - Algumas considerações: Ao fazermos leituras das narrativas docentes e dos fragmentos do PPP, questionamos: Onde estão os gêneros e as sexualidades nos/dos/com os cotidianos do curso de formação de professorxs de Geografia na instituição pesquisada? Sabemos que estão lá, quando, principalmente, alunxs xs trazem por demandas vividas nos estágios, estão lá quando discentes dialogam entre si sobre as suas vivências ou sobre livros/textos, vídeos, youtubers, que leram/assistiram, estão lá quando xs alunxs LGBTQIAPN+ se acariciam e se beijam na boca dentro da instituição e estão lá representados pelos corpos femininos que são maioria, porém minorizados, (SANTOS, 2020) na instituição. Compreendemos que a busca de conhecimento para além das paredes da sala, são necessárias e muitas vezes até mais enriquecedoras. Porém, isso não tira a responsabilidade da universidade de estar atenta, não apenas no discurso, mas institucionalmente, a favor da mudança dessa lógica que excluí, que violenta e mata os corpos dissidentes. Referências: ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho ─ o cotidiano das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa; ______. Pesquisa no/do cotidiano das escolas: sobre redes de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. ______. Sobre os movimentos das pesquisas nos/dos/com os cotidianos. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa; ______. Pesquisa nos/dos/com os cotidianos das escolas: sobre redes de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2008. ANDRADE, Nívea; CALDAS, Alessandra Nunes; ALVES, Nilda. Os movimentos necessários às pesquisas com os cotidianos-após muitas ‘conversas’ acerca deles. In.: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; PEIXOTO, Leonardo Peixoto; SÜSSEKIND, Maria Luiza. Estudos do cotidiano, currículo e formação docente: questões metodológicas, políticas e epistemológicas. Curitiba: CRV, 2019. BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018. Autor. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx. 2024. Dissertação (Mestrado em Educação) – xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx, 2024. KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA Luiz Carlos. A coerência textual. São Paulo: Contexto, 2010. NOGUEIRA LIMA, Francielle Elisabet; HELIODORO SOUZA GITIRANA, Julia; PLACHA SÁ, Priscilla. A segregação do corpo travesti no cistema prisional brasileiro: comentários à Medida Cautelar na ADPF 527. Revista Direito e Práxis, v. 13, n. 2, 2022. SANTOS, Richard. Maioria minorizada: um dispositivo analítico da racialidade. Rio de Janeiro: Telha, 2020. REFORMA curricular do curso de licenciatura em geografia. São Gonçalo, RJ. 2005. VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção coletiva: In. VEIGA, Ilma Passos Alencastro (Org.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Campinas: Papirus, 2013. YORK, Sara Wagner. TIA, VOCÊ É HOMEM? Trans da/na educação: des(a)fiando e ocupando os "cistemas" de Pós-Graduação. Dissertação de Mestrado. ProPEd -UERJ, 2020. [1] Viadificação é uma verificação viada, onde se analisa, seja os documentos ou a relação entre pessoas, a partir do olhar daquelx que é visto como “anormal” por boa parte da sociedade. Este olhar se torna necessário, pois buscamos igualdade e ela nunca virá daqueles que gozam os privilégios de gênero e sexuais (Autor, 2024, p. 69). [2] “a intencionalidade refere-se ao modo como os emissores usam textos para perseguir e realizar suas intenções, produzindo, para tanto, textos adequados à obtenção dos efeitos desejados.” (Koch e Travaglia, 2010, p. 97). [3] De acordo com autor, 2024: “O conceito de escritaviada apesar de muito embrionária, tem a intenção de não se enquadrar no padrão de “escrita normativa”, e surge da “necessidade de evitar que uma língua fria submeta todos a uma mesma expressão” (RIBETTO, 2016, p. 63), ou seja, da escrita binária ou daquela que impõe o gênero masculino como universal para toda e qualquer identidade. As escritasviadas utilizam-se de linguagem e dialetos incorporados pela comunidade LGBTQIAPN+, como é o caso da linguagem pajubá e também ressignifica termos ofensivos, tornando-os potentes ou em palavra de orgulho e resistência. [4] O uso do “X” nas palavras, do ponto de vista linguístico e gramatical, é uma forma de usar uma linguagem escrita que expresse maior igualdade entre homens e mulheres. A Língua Portuguesa determina que o plural dos substantivos deva usar o gênero no masculino. Essa generalização do plural é considerada sexista e machista por certos grupos e indivíduos, resultando assim em propostas por um gênero plural não sexista a ser adotado em português. O uso do "X" é uma tentativa de, no âmbito da escrita, tornar a língua mais democrática. [5] Importante mencionar que os nomes dxs sujeitxs que participaram da nossa pesquisa foram alterados para preservar suas identidades. [6] https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2025/01/27/dossie-reve… [7] (,,,) Opta-se por substituir “sistema(s)” por “cistema(s)”, em vista das considerações críticas tecidas quanto ao discurso de matriz cisheteronormativa sobre os corpos. (LIMA, GITIRANA, SÁ, 2022, p. 1139)

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  • GE Cotidianos - éticas, estéticas e políticas