MÚLTIPLAS VOZES ENTRE FORMADORES E PROFESSORES DE MATEMÁTICA EM CONTEXTO DE LESSON STUDY Introdução Este trabalho encontra-se no campo da formação de professores que ensinam matemática (PEM) mediante estudo e investigação da própria prática. Faz parte de uma pesquisa de doutoramento em curso que busca compreender as interações comunicativas que ocorrem entre formadores e professores, durante estudos colaborativos de Lesson Study (LS), e suas contribuições para o desenvolvimento profissional docente (DPD). Assumimos que o processo de aprendizagem docente não ocorre somente em contextos de cursos de formação oferecidos por instituições ou na própria prática de ensinar. Ela ocorre também, e de modo mais efetivo, em ambientes em que os professores buscam problematizar e investigar suas práticas de sala de aula. O Lesson Study Híbrido (LSH), termo utilizado pelo Grupo de Sábado (GdS), pode ser considerado um processo especial de DPD centrado na prática letiva e que assume uma natureza eminentemente colaborativa e reflexiva (RICHIT; TOMKELSKI, 2022), podendo ser também investigativa para os professores participantes (LOSANO; FIORENTINI, 2024). Esse contexto formativo-investigativo do LSH possibilita o DPD em uma perspectiva decolonial (FERNANDES; GIRALDO; MATOS, 2022), pois esse modelo estabelece uma relação colaborativa entre a universidade e a escola pautada por relações dialógicas, portanto, não colonizadoras das práticas escolares, sendo os professores e os formadores co-construtores das práticas curriculares possíveis, tendo em vista os interesses e necessidade dos professores e não dos formadores. Buscamos, neste estudo em desenvolvimento, apresentar as primeiras análises acerca das interações comunicativas proporcionadas neste contexto colaborativo, ao qual analisamos recortes de diálogos ao longo de um ciclo de LSH, utilizando como perspectiva analítica a teoria do diálogo de Bakhtin (1984). Aspectos metodológicos da pesquisa O contexto no qual estamos realizando a presente pesquisa é o GdS que tem como principal característica a colaboração e a diversidade, congregando professores da educação básica, professores formadores da universidade e estudantes da pós-graduação, que se reúnem para investigar a prática docente de PEM. O GdS desenvolve um projeto de formação e investigação, fundamentado no estudo de aula (LS), organizando-se em três subgrupos (Ensino Fundamental I, EF II e Ensino Médio), que teriam suas práticas de ensino planejadas e analisadas coletivamente, com o interesse investigativo de compreender como se dá a aprendizagem dos alunos e o DP dos professores participantes. Nossa pesquisa busca compreender como as interações comunicativas são formadas e desenvolvidas na interlocução colaborativa universidade-escola. Para a produção de resultados, analisamos de forma longitudinal, a orquestração das diferentes vozes, pautadas em gravações de áudio, vídeo, conversas no WhatsApp e narrativas produzidas pelo professor, buscando observar a relação entre a cultura oral e a escrita. A interpretação e análise será feita mediante Análise Narrativa Dialógica (RIESSMAN, 2008), a qual requer a leitura do contexto, do cenário, da trama discursiva e das circunstâncias. A seguir, descrevemos e analisamos as múltiplas vozes que possibilitaram a construção de um entendimento comum sobre conceitos e saberes pedagógicos envolvendo o ensino de porcentagem. Alguns resultados parciais A escolha do tema para estudo de aula partiu do interesse dos professores do subgrupo GETAF (Anos Finais do EF) em propor uma tarefa sobre porcentagem, a qual seria trabalhada ao longo de um semestre mediante realização de um ciclo de LS na escola. Para subsidiar o planejamento de uma aula investigativa sobre porcentagem, foram lidos alguns textos. Na leitura e discussão de um desses textos (GUERREIRO; SERRAZINA; PONTE, 2018), um Professor do EF II (PEF) e um Professor Formador (PF) realizaram as seguintes falas, sendo a primeira via WhatsApp e a segunda em reunião online: “Primeiro o que é porcentagem? Uma unidade de medida, é a divisão de um número por 100, uma razão, uma fração com denominador 100? O que é fração para cada um de nós? E matematicamente, qual é sua definição? É um número racional?” (PEF - Conversa do WhatsApp) “Quando ele (o texto) fala de (relação) multiplicativa no cálculo, não sei, se é só o cálculo mesmo em si... E no sentido de várias representações, eu tenho uma dúvida também, porque pra mim porcentagem é aquela fórmula de representação. Você consegue transformar a porcentagem em um outro tipo de número que é o decimal e você faz o contrário também se você quiser. Então eu sempre olhei a porcentagem dessa forma e daí ele apresenta que é várias representações, e quando você fala 0,5 pra mim eu acho que isso não é uma porcentagem, você pode converter ela em uma porcentagem, representar como 50%, mas, eu estranho muito e em algumas coisas eu não concordo com o texto. Da minha prática sempre trabalhei dessa forma, então pra mim fica difícil, igual ele fala.” (PEF - Gravação da reunião). “A proporcionalidade trabalha muito com essa natureza multiplicativa. […] quando você diz 5% só, não faz sentido. Eu entendo que deveria ser 5% de alguma coisa. Quanto seria, por exemplo, 5% de 40? É 5/100 multiplicado por 40, ou seja, você pega aí 40 e divide em 100 partezinhas e multiplica pela quantidade correspondente (5). E vai dar o valor, né! Essa situação me parece expressar a natureza multiplicativa da porcentagem. E que tem a ver com a proporcionalidade quando você estabelece essa relação proporcional com 100. Por isso, ela é também relacional.” (PF – Gravação da reunião) O recorte revela um processo dialógico no qual diferentes participantes do grupo tentam construir e negociar o significado da natureza multiplicativa e relacional da porcentagem. O professor formador apresenta uma explicação estruturada, conectando conceitos matemáticos como proporcionalidade, multiplicação e representação decimal. Esse diálogo inicial demonstra que os significados não são os mesmos para todos, mas podem ser ressignificados na interação entre as diferentes vozes, implicando em construções epistemológicas e exigindo ao professor expandir suas fontes de conhecimento (BAKHTIN, 1984). Percebemos que, mesmo após esse diálogo ainda pouco convergente entre o professor e o formador, o professor evidencia não ter ainda compreendido o significado e a relevância dos conceitos abordados no texto. Embora o formador tenha tentado esclarecer alguns destes conceitos, isso parece não ter sido suficiente. Entretanto, o planejamento das tarefas já ajudou a avançar nesse sentido, mas foi preciso uma outra voz para que isso pudesse acontecer — a voz do aluno. Foi durante a implementação, observação e análise das resoluções dos alunos que o professor, nessa polifonia de vozes, passou a perceber o real sentido de alguns desses conceitos: “É claro que como matemático compreendo o que o texto fala sobre o princípio multiplicativo, inerente à proporcionalidade. Mas, vê-lo sendo utilizado nos cálculos dos alunos, me fez perceber a sua importância para o ensino aprendizagem de porcentagem. É incentivar o pensamento e o cálculo mental dos alunos. Na Figura 1, por exemplo, os alunos do grupo perceberam a relação entre 25% e 75% e encontraram o valor correspondente multiplicando por 3. Está aí o princípio multiplicativo da porcentagem” (PEF – Narrativa escrita) Figura 1 - Resolução da questão 2 Fonte: Narrativa escrita do professor “Mesmo em cálculos que julgamos simples como professor (Figura 2), que seria encontrar o valor de 1% para depois encontrar o de 30%, envolve a construção do princípio multiplicativo pelos alunos. Utilizo-o frequentemente em sala de aula, mas não conhecia o seu fundamento teórico apresentado no texto e cujo sentido passei a compreender, refletindo sobre a produção dos alunos nessa prática.” (PEF – Narrativa escrita) Figura 2 - Resolução da questão 3 Fonte: Narrativa escrita do professor O recorte da narrativa do professor demonstra um movimento dialógico entre o saber teórico e a prática pedagógica. Neste contexto de LS, o professor não apenas tem contato com a teoria, mas ele a ressignifica com base nas interações no grupo e nas experiências dialógicas em sala de aula. Isso reforça a ideia de Bakhtin (1984) de que a aprendizagem pode ser construída e enraizada mediante participação no diálogo. Conclusão As análises das interações comunicativas entre os participantes do GETAF, ao desenvolverem um ciclo de estudo colaborativo de aulas sobre ensino e aprendizagem de porcentagem, evidenciaram que o diálogo pautado na orquestração de diferentes vozes oriundas da literatura, dos professores escolares, dos formadores, dos alunos da escola ao resolverem tarefas sobre porcentagem que envolvem suas práticas sociais, possibilitou ressignificações epistemológicas e conceituais acerca dos conhecimentos profissionais da docência em matemática e contribuições à aprendizagem discente e ao currículo do ensino de matemática. Referências BAKHTIN, Mikhail. Problems os Dostoevsky’s Poetics. University of Minnesota Press. 1984. FERNANDES, Filipe Santos; GIRALDO, Victor; MATOS, Diego. The Decolonial Stance in Mathematics Education: pointing out actions for the construction of a political agenda. The Mathematics Enthusiast. v. 19, n. 1, 2022. p. 6–27. GUERREIRO, Helena Gil; SERRAZINA, Lurdes; PONTE, João Pedro. A percentagem na aprendizagem com compreensão dos números racionais. Zetetiké. Campinas-SP. v.26, n.2, 2018. 354-374. LOSANO, Ana Letícia; FIORENTINI, Dario. Apropriação cultural do Lesson Study: percepções e aprendizagens de uma comunidade fronteiriça universidade-escola. Zetetiké. Campinas-SP. v. 32, 2024. p. 1-28. RICHIT, Adriana; TOMKELSKI, Mauri Luís. Desenvolvimento Profissional de Professores que Ensinam Matemática em Lesson Study. Educação Matemática em Revista-RS. v. 1, n. 23, 2022. p. 189-197. RIESSMAN, Catherine Kohler. Narrative Analysis. California: Sage. 1993.