MONSTROS, SUJEIRA E CURRÍCULOS: UMA CONVERSA NOS/DOS/COM OS COTIDIANOS ESCOLARES

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Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
MONSTROS, SUJEIRA E CURRÍCULOS: UMA CONVERSA NOS/DOS/COM OS COTIDIANOS ESCOLARES Introdução O presente trabalho, fruto de pesquisa doutoral em andamento, aposta na pesquisa com os cotidianos e nos relatos de horror para pensar os currículos criados cotidianamente nas conversas nos cotidianos escolares como criações manipuláveis híbridas, passíveis de sujeira, feiura e horror, cujos monstros que os manuseiam se multilocalizam nesses currículos. Numa dança de poder, em diferentes espaçostempos escolares, são monstrualizados e/ou monstruosos estudantes, professores e até a ganância do currículo prescritivo. Ainda, saberes alternativos, tomados como monstruosos, cedendo à tentação de uma perspectiva curricular higienista e eugênica leva ao extermínio. Abismal, o currículo prescritivo e seus diferentes instrumentos de avaliação crê banir o não saber, a ausência da pureza e separa o que é legítimo e o que é ilegítimo. Higienista porque acredita em uma pureza a ser preservada dos que representam uma ameaça ao imaculado e eugênica porque crê na separação do que julga ser superior e inferior. Sendo os currículos são criações cotidianas (Oliveira, 2016) fruto de manipulações (Certeau, 2014), sujas, uma vez que considerados praticantes da vida cotidiana os sujeitos também são artesãos/bricoleurs de conhecimentos, e de hibridismos, compreendidos aqui não apenas como a mistura, mas como ausência de pureza, e desvio de caminhos ditos oficiais. , Metodologia Enfrentando um problema metodológico (Garcia, 2003, p. 11), uma vez que aqui assumimos que não há objeto de pesquisa, pois o reconhecemos como sujeito, e que a pesquisa se dá em diálogo com o sujeito a ser pesquisado (Garcia, 2003, p. 13), adoto como metodologia a pesquisa com o cotidiano e no seu mergulho (Alves, 2001), pois nos assumimos como próprio objeto de estudo (Ferraço, 2003, p. 160), expondo a impossibilidade de falar sobre ou dealguma coisa específica. Ao pretender explicar os outros, estamos nos explicando. Somos também esses outros e outros ‘’outros’’. (Ferraço, 2003, p. 160). Assim, propomos aqui cruzar a linearidade da ideia de pesquisador e objeto de pesquisa, pois, crendo no estado físico gasoso (Coelho, 2018) dos currículos, isso impossibilita frisar demarcações que definam início, meio e fim, ou ainda algum rigor metodológico e largamente racionalizado. O fazer-com (Certeau, 2014) significa estar mergulhado no cotidiano e ser inextricavelmente como parte da pesquisa. Nós também somos monstrosos. Resultados parciais e discussão Redimensionar a noção de horror implica deslocar a crença de que existe centralidade e binarismos para os sentidos, notando os caminhos por vezes convergentes/divergentes pelos quais andamos em nossas salas de aula e nas escolas públicas. E são caminhos traçados por andarilhos curriculares que muito nos dizem do terror da vida cotidiana, escancaradamente notado/vivido nos guetos de violência identificados por formas únicas e higienistas de perceber o mundo. Os que fogem desses prismas epistemológicos, como os que não sabem nada são os mesmos que habitam as salas de aula quando a monstruosidade da aversão à feiura é transferida para aquele que sofre com essa própria forma de hostilidade, tornando-os abomináveis e fazendo emergir uma ambivalência, afinal ”se monstros existem são aqueles que têm a pretensão a um saber absoluto” (Maffesoli, 2000). As monstruosidades compoem uma categoria mista, fluida, “o monstro resiste a qualquer classificação construída na hierarquia ou em uma oposição meramente binária, exigindo um "sistema" que permita polifonia, resposta mista (diferença na semelhança, repulsa na atração) e resistência à integração” (Cohen, 2017, p. 7, tradução nossa). A defesa de que nas salas de aula não existe um único centro curricular, e sim muitos centros, que são instáveis e disformes e se deslocam constantemente, nos ajuda a compreender algumas das respostas possíveis a por que as fronteiras não param quietas (Barad, 2017). Se conversamos nos/com os espaçostempos (Alves, 2001) cotidianos fronteiriços nos quais nos constituímos professorespesquisadores e os reconhecemos como entre-lugares (Bhabha, 2013) de formação, conhecimento e deslocamento (Süssekind, 2019), caminhamos em/entre/sobre/sob ”passagens intersticiais entre identificações fixas, que abrem a possibilidade de hibridismos que acolhem a diferença sem uma hierarquia suposta ou imposta” (Bhabha, 2013, p. 23). Para um mundo sedentário, estático, o movimento, o deslocamento, a indefinição são monstruosos. Os monstros têm nome, têm vida, alguns têm família, outros não. Muitos vão à escola para se alimentar, outros habitam o fundo das salas, fazem barulho e mesmo no silêncio suas vozes fazem com que eles ecoem nos conselhos de classe, na sala da direção, nas reuniões pedagógicas, nos boletins de suspensão e ainda nos convites a se retirar da escola. Distante de diminuir as demandas docentes que emanam de alguns casos, e em outros adoecem professores, apenas buscamos ressaltar nesse trecho que aqueles que se desejam repelir são os que compõem as múltiplas porosidades culturais (Certeau, 2017, p. 139) dos currículos, que coexistem e têm direito a existir independentemente do desejo de supressão constante de sua existência. A obsessão (Süssekind, 2019) pela limpeza daquilo que contamina e empesteia os currículos é consideravelmente grande e exerce sua força produzindo fracassos na perspectiva de garantir um modelo de desenvolvimento (Garcia, 2012) higiênico, que elimina aquilo que ameaça sua pureza. Conforme defendemos no mestrado, as criações curriculares cotidianas faveladas, monstruosas e profanas são gasosas (Coelho, 2018), atuam permeando, minando as prescrições curriculares oficiais e criam lugares próprios nas salas de aula. Por outro lado, incomodam, contaminam e precisam ser banidas. Higienizar os currículos é também limpar espaços escolares da sujeira dos selvagens, bestiais (Lobo, 2015) que poluem o que tecnicamente deve permanecer limpo, sendo tarefa permanente de um necrocurrículo que relega para as margens os que cruzam caminhos demasiadamente tortuosos para o que se entende como unidade convictamente simétrica, sendo, portanto, inadmissível que essas sujeiras ameacem o que está posto como curricularmente limpo, central, basilar, fundamental. Desde os combinados da turma, o não saber, até os convites para se retirar da escola, podem ser entendidos como reflexos do pavor causado pela manipulação que suja o que está limpo, sendo a única alternativa eliminar os culpados pelas transgressões em prol da preservação da ordem e da qualidade. Assim, na tese, contamos a história de uma criança, do Ensino Fundamental I, cuja permanência na escola se tornou desafiadora apenas por fazer cocô nas calcas com regularidade. Considerações finais As monstruosidades que somos e nos cercam são plurais, cabendo à epistemologia delimitar e identificar quem são esses monstros capazes de causar medo, pânico e caos, cujo potencial de destruição relega, via políticas e práticas curriculares, muitos ao fracasso, à exclusão, ao silenciamento. Se novamente, com Maffesoli, os verdadeiros monstros são os que pretendem um saber absoluto, os necrocurrículos, oficiais e epistemicidas, muito contribuem para que os barulhos das máquinas de poder excomunguem das escolas aqueles que não se encaixam em uma métrica unívoca e uníssona (Süssekind, 2014) se tornando acima de tudo uma tecnologia destinada a permitir o exercício do biopoder, ‘‘este velho direito soberano de matar’’ (Mbembe, 2018, p.18), mas esses monstros, resistentes, descentram e criam espaços nas salas de aula, em suas qualidades multifocais e multilocalizados, fagocitam prescrições e fazem delas outros espaços de conhecer, onde sujeira e feiura são parte do fazer curricular, ainda que causem medo, pavor e ameacem a ordem e a pureza. Os currículos quando negam a manipulação e apagam a sujeira, se afastam da humanidade e flertam com a morte. REFERÊNCIAS ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho – os cotidianos das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; ALVES, Nilda. Pesquisa nos/dos/com os cotidianos das escolas: sobre redes de saberes. Petrópolis: DP et Alii, 2001. BARAD, Karen. No small matter: mushroom clouds, ecologies of nothingness, and strange topologies of spacetimemattering. In TSING, Anna; SWANSON, Heather, GAN, Elaine e BUBANDT, Nils (Org.). Arts of living on a damaged planet: ghosts of the anthropocene. University of Minnesota Press: Minneapolis, 2017. BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013. CERTEAU, Michel de. A cultura no plural. São Paulo: Papirus, 2017. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2014. COELHO, Gustavo. Monstros, Rojões, Bambus, Bolas e o Fundão: encantarias em performances de uma juventude rueira. Rev. Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v.8, n.2, p. 197-2018, abr./jun.2018. COHEN, J. J. Monster Culture (Seven Theses). In: COHEN, J. J. Monster Theory: Reading Culture. 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