MÍDIA-EDUCAÇÃO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: UMA EXPERIÊNCIA FORMATIVA PARA O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO CRÍTICO NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL INTRODUÇÃO A crescente influência da cultura digital e dos processos algorítmicos no cotidiano contemporâneo tem ampliado os desafios relacionados à formação cidadã, sobretudo, entre jovens em situação de vulnerabilidade social. Nesse contexto, torna-se imprescindível desenvolver ações educativas que articulem criticamente os impactos das tecnologias digitais à formação de sujeitos críticos e reflexivos. A presente pesquisa, em andamento, investiga a relação entre mídia-educação e o desenvolvimento do pensamento crítico de jovens aprendizes matriculados em um Programa de Educação Profissional - Curso de Aprendizagem Profissional - de uma instituição privada de ensino, sem fins lucrativos. Apesar das crescentes discussões sobre os impactos da IA e das mídias digitais na formação dos sujeitos, ainda é reduzido o número de estudos que investigam, na prática, propostas formativas voltadas ao desenvolvimento do pensamento crítico entre jovens aprendizes inseridos em contextos de educação profissional. Esse fato pode ser reforçado a partir dos resultados de uma busca realizada no Portal de Periódicos da CAPES, em 25 de março de 2025. Ao utilizar os descritores “media literacy” e “vocational education”, no período de 2015 a 2025, a busca resultou em três estudos que retratam os temas da mídia-educação e da formação profissional, evidenciando uma produção reduzida sobre o tema, em um período de dez anos. Sendo assim, a falta de pesquisas voltadas para o contexto brasileiro, com foco em jovens em situação de vulnerabilidade social inseridos em cursos de aprendizagem profissional, reforça a relevância e a originalidade da presente investigação. FUNDAMENTOS TEÓRICOS Fundamentada nos pressupostos da mídia-educação (Buckingham, 2010; 2012; 2022; Fantin, 2006; 2012; 2014; 2016) e nas discussões sobre os impactos das tecnologias digitais na sociedade contemporânea (Castells, 2019; Lévy, 2019), a investigação parte da compreensão de que a leitura crítica das mídias e o debate ético sobre a inteligência artificial (IA) são essenciais para a construção de uma postura autônoma diante das novas formas de mediação tecnológica (Buckingham, 2023). Nesse sentido, a presença da mídia-educação na educação profissional torna-se relevante, uma vez que esse campo formativo está voltado à preparação de jovens para o mundo do trabalho e para o exercício da cidadania em contextos influenciado por intensas transformações tecnológicas e comunicacionais. A formação crítica nesse ambiente requer que os estudantes compreendam não apenas os aspectos técnicos das tecnologias, mas também suas implicações sociais, culturais e políticas. METODOLOGIA A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com delineamento metodológico fundamentado na pesquisa-intervenção (Thiollent, 2011), tendo em vista seu compromisso com a transformação da realidade investigada por meio de práticas colaborativas. A investigação está sendo desenvolvida junto a um grupo de jovens aprendizes matriculados em um Programa de Educação Profissional (Curso de Aprendizagem Profissional) de uma instituição privada de ensino, sem fins lucrativos. A proposta formativa foi estruturada em encontros temáticos que abordam os seguintes eixos: vieses algorítmicos da inteligência artificial, manipulação midiática e implicações éticas do uso das tecnologias digitais. A pesquisa é conduzida por docentes, monitores de educação profissional da própria instituição, que atuam simultaneamente como pesquisadores e observadores do processo formativo. Os dados prévios são oriundos de atividades realizadas no período de novembro de 2024 a março de 2025. A coleta dos dados iniciais ocorreu por meio da observação direta dos momentos de interação entre os participantes nas atividades propostas. A partir dessas observações, buscou-se identificar indícios do desenvolvimento de uma postura crítica frente às mídias digitais e aos discursos mediados por tecnologias. A proposta formativa foi planejada para ocorrer em 11 encontros de cinco horas cada. Até o momento, foram realizadas sete aulas, que incluíram discussões em grupo e trabalhos colaborativos, promovendo momentos de debate e reflexão sobre os temas propostos. A análise dos dados segue os princípios da análise de conteúdo, conforme proposto por Bardin (2016), a partir da categorização das observações feitas com base nas interações dos participantes ao longo dos encontros. RESULTADOS PARCIAIS E DISCUSSÃO As observações realizadas ao longo dos primeiros encontros revelam indícios de mobilização crítica por parte dos participantes. Inicialmente, observou-se que os jovens apresentavam conhecimentos restritos sobre o funcionamento da inteligência artificial e seus impactos sociais. No entanto, ao realizarem pesquisas simples em mecanismos de buscas e explorarem o site “whichfaceisreal.com”, os estudantes começaram a identificar padrões de manipulação e estereótipos nas imagens produzidas e representadas pela plataforma. Essa experiência fomentou reflexões sobre a origem dos vieses e a falta de diversidade nos bancos de dados utilizados para treinar inteligências artificiais. Com o avanço dos encontros, os jovens foram orientados a refletir sobre o papel das mídias na mediação da realidade e os riscos associados à desinformação e ao uso manipulado das tecnologias digitais. Essas reflexões continuaram no quarto encontro, onde os estudantes foram desafiados a criar um projeto com o objetivo de informar e conscientizar a comunidade escolar sobre os perigos dos golpes digitais mediados por IA e suas possíveis implicações no desemprego e na exclusão social. O planejamento incluiu a criação de um perfil no Instagram e a produção de um mural físico com conteúdos informativos sobre segurança digital, desinformação, algoritmos e mercado de trabalho. A turma estruturou a ação em grupos, distribuindo tarefas relativas à identidade visual, produção de conteúdo, aos processos e prazos de execução. A análise parcial dos dados permitiu identificar e agrupar três categorias principais: reconhecimento dos vieses algorítmicos; autonomia reflexiva e protagonismo juvenil; e uso da mídia-educação como estratégia de conscientização social. Durante a roda de conversa final dos primeiros encontros, foi possível perceber avanços no pensamento crítico dos estudantes, que questionaram a suposta neutralidade dos algoritmos, apontaram a influência da IA em decisões econômicas e reconheceram a importância de regulamentações éticas para reduzir os impactos do problema na sociedade. Além disso, a produção inicial de conteúdos para o perfil no Instagram proporcionou aos alunos um espaço para exercitar a autoria e refletir sobre a disseminação de informações no ambiente digital. Até o momento, foram publicados dois conteúdos: um post com alerta sobre golpes digitais e um vídeo em que os estudantes simulam uma situação em que a imagem de uma pessoa é manipulada e informações falsas são veiculadas nas redes sociais. Ressalta-se que, por se tratar de uma pesquisa em andamento, o perfil no Instagram encontra-se em fase de ampliação de conteúdos e o mural físico ainda está em processo de planejamento. Ainda assim, os resultados iniciais apontam para a efetividade da mídia-educação como estratégia formativa, capaz de promover a leitura crítica das tecnologias digitais e fomentar uma participação mais ativa e consciente dos jovens diante das mediações tecnológicas que permeiam suas vidas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência formativa reforça o potencial da mídia-educação como estratégia pedagógica para o desenvolvimento do pensamento crítico de jovens em cursos de aprendizagem profissional. Como etapa futura do projeto, está prevista a ampliação da ação por meio da realização de rodas de conversa em escolas da cidade. Essa nova fase será realizada pelos próprios estudantes, buscando fortalecer o protagonismo juvenil e expandir o debate sobre os riscos e as possibilidades do uso da inteligência artificial e das mídias digitais, a fim de promover uma formação mais consciente, ética e participativa. REFERÊNCIAS BARDIN, L. Análise de conteúdo. 4. ed. São Paulo: Almedina, 2016. 280 p. 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