JUVENTUDES DA CLASSE TRABALHADORA E OS SENTIDOS DA ESCOLA BÁSICA

- 216194
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
JUVENTUDES DA CLASSE TRABALHADORA E OS SENTIDOS DA ESCOLA BÁSICA CONSIDERAÇÕES INICIAIS A pesquisa desenvolvida se ancora em reflexões desenvolvidas pela autora no período de 2008 a 2020 que tem como objeto as memórias de estudantes da modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) sobre suas trajetórias escolares. Esse recorte considera as juventudes que ocupam a sala de aula da EJA na rede pública municipal de educação do Rio de Janeiro. As reflexões tecidas sobre a EJA, seus atores e as perspectivas das relações que diferentes estudantes estabelecem com a escola dessa modalidade de ensino, instigou a dialogar sobre as potencialidades da relação trabalho e educação para os jovens estudantes da EJA. Mais especificamente, busco analisar a relação trabalho educação sob a perspectiva das demandantes no contexto de uma época de destituição de direitos à escola básica – e à escola da EJA sobretudo. Recorrerei a dados coletados durante a pesquisa de doutoramento (2008-2012) que permitem (re)conhecer as expectativas juvenis em relação à escola, aspecto relevante para compreendermos como as escolas que atendem às juventudes precisam se constituir para esses atores como espaços de diálogos e efetivamente formativos para os mundos do trabalho, sendo essa uma perspectiva para repensarmos a escola da EJA e suas configurações educacionais. Para o recorte dessa pesquisa de estágio pós-doutoral foram considerados 48 jovens com idade compreendida entre 15 e 29 anos. São considerados os jovens que saíram da escola pública na infância e retornaram na escola da EJA, mesmo critério utilizado por ocasião da pesquisa de doutoramento. Do ponto de vista teórico, é importante considerar os diálogos com autores que vêm definindo juventudes, no plural, por entendê-la na sua multiplicidade e diversidade e, por conseguinte, o que demandam no espaço escolar e para além dele, nas suas necessárias interfaces. Esses diálogos se constituem a partir dos estudos de Pais (2009), dentre outros, e possibilitam compreender que os jovens não são únicos, formatados. Indo mais além, permitem compreender as diferentes etapas do ser jovem e da transitoriedade para a vida adulta, com seus “ritos de passagem e de impasses”, como tão bem classifica Pais (2009). Reflexões sobre as fazes do ser jovem, a noção de juventude socialmente construída e seus sentidos, a centralidade do trabalho e os sentidos entrecruzados na relação com a educação também são abordagens significativas dessa pesquisa. A partir das narrativas dos jovens pesquisados sobre suas memórias do passado (Bosi, 1994) tendo como referência a escola da infância, é possível perceber como a categoria trabalho em seu sentido ontológico e a relação trabalho e educação por meio de diálogos com Frigotto (2009), Alves (2008), Antunes (2000a; 2000b) atravessam os contextos de saída e de retorno à escola, bem como as lembranças da escola de outrora e as expectativas do retorno. Diante disso, a problemática da pesquisa se ancora em duas questões centrais: (1) Como se configura a centralidade do trabalho para os jovens que chegam à escola da EJA? E (2) Como a escola que não qualifica e, portanto, não certifica para o trabalho, poderá atender à demanda por conquista de trabalho/emprego apresentada pelos jovens? Nesse contexto, o trabalho como princípio educativo se apresenta como base para repensar a elaboração de novas proposições para a escola da EJA no século XXI. Mas, qual escola para qual jovem? A resposta a esta pergunta é relevante no movimento de reflexão sobre a escola necessária para as juventudes e que demanda buscar conhecer o que dizem as políticas públicas no âmbito da educação e das juventudes. CAMINHOS METODOLÓGICOS A escolha dos caminhos e referenciais teórico-metodológicos consideram não apenas os estudos do campo das memórias e das juventudes, mas referenciais da área de trabalho e educação. Nesse ir e vir esses caminhos são construídos no percurso da caminhante – a pesquisadora – a partir de dinâmicas que envolvem a produção de sentidos decorrentes das respostas dos estudantes pesquisados. A análise dos dados da pesquisa se ancoram na perspectiva da Análise de Conteúdo (Bardin, 2011) recorrendo a análise semântica para a construção de categorias temáticas e subcategorias, de acordo com as respostas atribuídas pelos pesquisados. Para tanto, os dados coletados junto a jovens estudantes da EJA no âmbito de escolas do Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA), da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME/RJ) permitem um revisitar da pesquisadora a dados coletados no final dos anos 2000 e, assim, estabelecer diálogos com os sentidos que esses jovens estudantes atribuem ao trabalho/emprego como meta a ser conquistada ao concluírem a etapa escolar em que se encontram. CONVERSANDO COM OS ASPECTOS TEÓRICOS E OS SENTIDOS DA PESQUISA Considerar a relação escola, trabalho e educação buscando compreender o papel da escola para as juventudes que se inserem no mundo do trabalho, no contexto das políticas públicas de EJA, requer refletir para que serve a escola e como a educação e suas formas de fazer se apresentam dentro do contexto da escola como princípio educativo e da possibilidade de uma escola outra na perspectiva gramsciana (Gramsci, 2000), unitária e omnilateral. Essa escola outra precisa ser “desinteressada”, ou seja, “escola única de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre de modo justo o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente e industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual” (Gramsci, 2000, p. 33). Essa concepção de escola deve considerar as experiências vividas, as culturas, a perspectiva de formação para o trabalho de forma integrada nos espaços educativos e para além deles, formando para a vida. Se a escola da EJA é a escola das oportunidades para tantos jovens que foram excluídos do ensino regular, precisa ser essencialmente, espaço de relações, manifestada pelos conhecimentos produzidos, pelas culturas que chegam e entram no espaço escolar, pela busca do ser mais freireano que transcendem os espaços educativos formais. Precisa ser, portanto, espaço de compartilhamento de saberes e, assim, essa escola precisa se fazer cidadã, plural, inclusiva, de forma que a escola e o mundo lá fora conversem e em que os atores escolares que nela trabalham compreendam quais são as reais necessidades das juventudes. A partir das memórias de estudantes reveladas e dos sentidos atribuídos à escola, é possível refletir sobre o necessário viés potencialmente formativo da escola e sobre os sentidos da escola da EJA para a potencial garantia de trabalho e emprego. A educação para as classes trabalhadoras precisa, mais do que contemplar caminhos que busquem a libertação de situações de opressão, assegurar acesso a saberes da vida, numa permanente valorização dos saberes do senso comum que carregados de conhecimentos e de culturas, podem e devem se articular aos saberes científicos e construir caminhos significativamente relevantes no movimento contínuo de ensinaraprenderensinar que se estabelece na relação humana. Dessa forma, a proposta de educação para trabalhadores requer a possibilidade de se constituir como contribuição para a formação humana, integrando-se esses saberes escolares à formação para o trabalho e, portanto, para a vida por meio de suas diferentes experiências e construções individuais e coletivas. No diálogo com os 48 jovens que se encontravam matriculados em dez escolas de PEJA pesquisadas, ao serem perguntados sobre o que motivou o retorno deles para a escola e tendo como metodologia para análise dos dados a Análise de Conteúdo (Bardin, 2011), emerge a categoria projeção no futuro. 9 afirmaram que voltaram para a escola motivados pela busca de um futuro melhor, 8 consideraram que a escolarização lhes possibilitará ser alguém na vida e 4 por terem sonho a realizar, constituindo-se essas três em subcategorias relacionadas à projeção no futuro. Outra categoria que se manifestou foi trabalho, compreendendo as subcategorias atualizar-se, com frequência 6 e emprego/emprego melhor, com 4. A perspectiva do estudo como caminho fundante para a conquista de um emprego melhor possibilita reconhecer o que o motiva para retornar os estudos. A terceira e última categoria delineada a partir da análise do conteúdo das respostas foi aprender, a qual compreendera as subcategorias concluir os estudos com frequência 8 e aprender mais, com frequência 7. Embora a categoria trabalho não tenha sido a mais frequente entre os jovens estudantes participantes da pesquisa, em diálogo com a categoria projeção no futuro permite inferir o quanto a preocupação com o futuro e a realização pessoal estão configuradas nas falas desses estudantes como motivos que os levaram de volta para a escola. Tal análise pode ser reafirmada quando se olha para a categoria aprender. Indo mais além é possível inferir que a preocupação com o futuro perpassa, de maneira geral, as categorias e subcategorias criadas a partir das falas manifestadas pelos estudantes. Essa análise aponta para a necessidade urgente de reestruturar a educação básica, o que requer refletir sobre as políticas públicas em educação e para as juventudes. Serão elas suficientemente inclusivas para permitir que jovens brasileiros, sobretudo os das classes populares e trabalhadoras, construam seus itinerários de escolarização em consonância com a formação cidadã e a inserção no mundo do trabalho? A escola e a concepção de educação com a qual esses jovens vêm acessando suas chances de conquistarem uma certificação consideram o trabalho como princípio educativo? É urgente repensar e reformular as políticas públicas para o campo da educação para pessoas jovens e adultas e para as juventudes, considerando-se a existência de especificidades que as definem como categoria e que a colocam no patamar de “uma fase sensível a situações culturais, sociais ou políticas críticas, já que as mesmas causam efeitos para o seu futuro” (Frigotto, 2009, p. 107). Em se tratando da relação trabalho e educação, é fundante que se compreenda sua necessária indissociabilidade para a formação humana. A perspectiva da aprendizagem ao longo da vida estabelecida pela Unesco e referendada na V Conferência Internacional de Educação de Adultos (CONFINTEA), em 1997, projeta essa perspectiva para o centro do debate. Duas décadas depois, em 2018, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em seu artigo 3º, ao tratar dos princípios do ensino, no inciso XIII reconhece a aprendizagem ao longo da vida e o direito à educação como necessidades a serem asseguradas. Não se pode deslocar as reflexões do contexto de vulnerabilidade que atinge significativamente jovens de baixa escolaridade. Todavia, Alves (2009) relaciona como problema os baixos níveis de escolaridade associados à falta de emprego. A superação dessa situação requer políticas públicas que sejam eficientemente capazes de articular educação e emprego de forma que as juventudes possam mudar sua condição humana. Mas será a escola, tal como se apresenta, a redentora? É preciso, portanto, considerar uma perspectiva em que essas políticas públicas precisam dialogar entre si e que seja reconhecido que educação–juventudes–trabalho constituem um tripé. Uma sem as outras ou mesmo duas delas sem uma não promoverá um outro olhar para a inserção de jovens na escola que o forme para a vida e para o trabalho. UM PIT STOP NO DIÁLOGO O necessário diálogo com a relação trabalho e educação no contexto das políticas púbicas de educação e de juventudes remete à reflexão: para que serve a escola e como a educação e suas formas de fazer se apresentam dentro do contexto da escola como princípio educativo? Remate também a buscar compreender qual concepção de escola interessa para que o trabalho político-pedagógico se ancore nas perspectivas da formação humana. É necessário compreender “a EJA como um tempo de educação de trabalhadores” (Arroyo, 2017, p. 43) em que os itinerários dos jovens trabalhadores se constrói no movimento do trabalho (quando lhes é assegurado) para a escola, seja qual for o trabalho, precarizado ou não. Contudo, o que se observa ao olhar para o cotidiano da escola básica é que “o trabalho tem estado distante da agenda pedagógica, apesar de ser uma experiência tão determinante (…). Apesar de ser o trabalho o princípio educativo de formação humana” (Arroyo, 2017, p. 44). Esta posta, portanto, a indissociabilidade entre trabalho humano e prática educativa. É no fazer-se dessa relação e da compreensão do sentido da formação humana e da escola única, unitária, omnilateral que se ancora o trabalho como princípio educativo. Optar pela concepção de escola que contemple esse ideal é um ato político da educação e é compreender que a natureza da educação vai além das amarras dos conteúdos instituídos, contemplando culturas, respeito às diferenças em todas as suas formas em diálogo com conteúdos e temas que sejam significativos, de forma que a educação caminhe rumo a intercâmbios com práticas mais amplas que considerem a vida humana e suas necessidades em busca por uma educação emancipadora. REFERÊNCIAS ALVES, Natália. Juventudes e inserção profissional. Lisboa: EDUCA Unidade de I&D de Ciências da Educação, 2008. ALVES, Natália. Jovens pouco escolarizados e políticas activas de emprego. RUMMERT, Sonia Maria; CANÁRIO, Rui; FRIGOTTO, Gaudêncio (orgs). Políticas de formação de jovens e adultos no Brasil e em Portugal. Niterói: Editora da UFF, 2009. p. 125-146 ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000a. ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho?:ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 2000b. ARROYO, Miguel. Passageiros da noite: do trabalho para a EJA: itinerários pelo direito a uma vida justa. Petrópolis: Vozes, 2017 BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: edições 70, 2011. FRIGOTTO, Gaudêncio. Projetos societários em disputa no Brasil e a juventude com vida provisória. RUMMERT, Sonia Maria; CANÁRIO, Rui; FRIGOTTO, Gaudêncio (orgs). Políticas de formação de jovens e adultos no Brasil e em Portugal. Niterói: Editora da UFF, 2009. p. 109-124. FRIGOTTO, Gaudêncio. Demerval Saviani e a centralidade ontológica do trabalho na formação do “homem novo”, artífice da sociedade socialista. In: Interface – Comunicação, Saúde e Educação, 2017. n 21(62), p. 509-519. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. PAIS, José Machado. A juventude como fase de vida: dos ritos de passagem aos ritos de impasse. In: Saúde e Sociedade. São Paulo, v. 18, nº 3, 2009. p. 371-381.

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  • 1 Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ
Track
  • GT18 - Educação de Pessoas Jovens e Adultas