INFÂNCIA EM NARRATIVAS DE AVÓS E NETOS: TEMPO, VÍNCULO, AUTORIDADE E CUIDADO

- 216075
Resumo Expandido - Trabalho
Favorite this paper
How to cite this paper?
Abstract
INFÂNCIA EM NARRATIVAS DE AVÓS E NETOS: TEMPO, VÍNCULO, AUTORIDADE E CUIDADO Relações entre avós/avôs e netas/os têm sido interesse de pesquisas de diferentes áreas do conhecimento, em maior número nas de psicologia e gerontologia. Com ênfase nos papéis e funções assumidos pelas avós e os avôs nas famílias contemporâneas, tem se investigado como elas/eles lidam com atribuições que vão desde cuidados, para que a mãe e o pai trabalhem, até assumir a criação de suas netas e seus netos. Situada nos campos da educação e da infância, a pesquisa apresentada neste texto focalizou a infância nessa relação intergeracional, contemplando a perspectiva de avós/avôs e netas/os. Trata-se de uma pesquisa de doutorado em educação, que teve como objetivo geral analisar os sentidos construídos sobre infância a partir das narrativas de avós, avôs, netas e netos com fortes vínculos. Walter Benjamin (1987a, 1987b, 2002, 2015) e Martin Buber (2001, 2004, 2008, 2009) são os principais interlocutores teóricos e contribuem para a construção de um olhar crítico e sensível para a cultura contemporânea e as relações humanas. Enquanto Benjamin denuncia o empobrecimento da experiência humana no mundo moderno, Buber aponta o empobrecimento do diálogo. Metodologia Com as contribuições da antropologia, em especial de Tim Ingold (2019, 2020), sua metodologia consistiu, principalmente, em compartilhar presença, importar-se, deixar-se afetar e aprender. Segundo o autor, é necessário ouvir as pessoas levando-as a sério, tratando-as menos como informantes do que como professoras/es, que devem ser procuradas/os pelo que podem ensinar sobre o mundo. Não se trata de interpretar ou explicar o comportamento dos outros; não se trata de colocá-los em seu lugar ou consigná-los à categoria dos já conhecidos. Ao contrário, trata-se de compartilhar da sua presença, de aprender com as suas experiências de vida e de aplicar esse conhecimento às nossas próprias concepções de como a vida humana poderia ser, das suas condições e possibilidades futuras. (INGOLD, 2019, p. 10). O trabalho de campo foi sendo construído, assim, com as e os participantes e foi realizado durante o ano de 2020, primeiro ano de pandemia, entre os meses de maio e dezembro, através de interações pela plataforma Zoom e o aplicativo WhatsApp. Inicialmente, foram convidadas avós e avôs para entrevistas individuais. O critério foi o de familiaridade: as pessoas foram indicadas por pessoas do círculo de convívio da pesquisadora como avós e avôs com fortes vínculos com suas netas e netos crianças. Posteriormente, no final do ano, em dezembro, foram convidados as netas e os netos dessas avós e avôs para uma conversa coletiva. Participaram da pesquisa sete avós e três avôs, entre cinquenta e um e setenta e um anos de idade, moradores da cidade do Rio de Janeiro e um de Niterói. E seis de seus netos, entre cinco e doze anos de idade. Era intenção inicial que a pesquisa contemplasse uma variedade de origens de classe social, mas o modo virtual não possibilitou a participação de avós/avôs que não tinham acesso à internet de qualidade suficiente para sustentar uma chamada de vídeo. Para ouvir as crianças, foi construída uma estratégia diferente da entrevista com os adultos. Sobre isso, Campos (2008) discorre: Uma pesquisa que se propõe a incluir a participação das crianças supõe “um processo pelo qual as crianças são ‘empoderadas’ (empowered) para construir uma representação de seu mundo social”. Para isso, o pesquisador deve usar recursos para expressão das crianças que sejam adequados à sua faixa etária e sensíveis a seu ambiente cultural, levando em conta o que chamam de ‘moeda local de comunicação’ (Campos, 2008, p. 37-38). Buscando essa adequação, foi preparado um convite no formato PDF, explicando os objetivos da pesquisa de uma forma que elas pudessem compreender. Para isso, foram incluídas, nesse convite, ilustrações de livros infantis sobre avós e netos e questões que, talvez, pudessem proporcionar interesse e diálogo prévio com os adultos da família. No dia do encontro com as crianças, para puxar o tema da relação com as avós e os avôs, foram utilizadas ilustrações de livros infantis (dez ao todo), selecionadas previamente de acordo com as experiências narradas pelas avós e pelos avôs das crianças nos encontros individuais. Por exemplo, uma avó entrevistada é fotógrafa e costuma fotografar com seus netos –uma ilustração de uma avó com câmera, fotografando; tem um avô leva sempre o neto à praia –uma ilustração de um avô com uma neta na praia etc. Ao longo da conversa, foram mostrados os livros de onde as ilustrações foram retiradas e compartilhadas as imagens na tela do Zoom. E a cada imagem, iam sendo puxados fios para desenrolar a conversa. A tela era compartilhada para todos observarem a imagem e depois retirada para que pudessem se ver uns aos outros. Análise e discussão de resultados Emergem das narrativas das/os participantes as categorias infância e tempo, infância e vínculo, infância e autoridade, infância e cuidado. Infância e tempo É preciso saber que se tem uma história. [...] eu estou aqui porque a minha mãe veio antes de mim e trabalhou muito para que eu estivesse aqui hoje. E eu, da mesma forma, quero deixar para as minhas netas, dividir, distribuir com elas tudo aquilo que eu fui conquistando ao longo da vida. No sentido de trocar. Trocar... sabe aquela coisa de deixar flores no caminho? Quero deixar flores no caminho. (Carolina, 58 anos, Entrev., 16/5/2020) Eu ensinei uma coisa ao meu avô um dia: contar as estrelas! Eu não fiz isso com o meu avô ainda; às vezes eu faço isso para a minha mãe não perceber que eu estou dormindo. Quando ela estiver dormindo, eu vou sair de fininho e vou contar as estrelas lá no meu quarto assim: 1, 2, 3… (Diego, 6 anos, Entrev. Coletiva, 5/12/2020) As narrativas das e dos participantes da pesquisa possibilitaram pensar o tempo para além da sua dimensão cronológica. Em práticas cotidianas compartilhadas, os tempos de avós/avôs e netas/os se encontram, possibilitando experiências e aprendizados diversos. Nas histórias familiares registradas em diários, nos álbuns de fotografia e nas conversas corriqueiras, passado, presente e futuro se fundem, emergindo novas possibilidades de compreensão e invenção de si e do mundo. Na contramão da ideia de que tempo é dinheiro, parece que para as avós e os avôs participantes da pesquisa se ganha tempo ao brincar com as netas e os netos. Ganha-se em tempo de vida vivida em presença, com mais qualidade e menos pressa. Ganha-se ainda ao revisitar interesses infantis esquecidos e frequentemente considerados desimportantes na vida adulta. As crianças ganham tendo uma pessoa inteira em sua companhia, seja para “contar estrelas”, cantar junto ou ouvir o coral na praça. Essas experiências acontecem, segundo contam as/os interlocutoras/es deste trabalho, principalmente na casa das avós e dos avôs – a “casa da infância”. Nesses espaços, os vestígios do tempo são identificados em objetos antigos e contemporâneos, que se misturam nas brincadeiras. Infância e vínculo Da avó paterna eu tenho uma lembrança emocional muito forte de me sentir amada. Eu sabia que aquela pessoa me amava; isso era uma coisa muito clara para mim e desde muito criança. [...] O que eu percebo de netos e avós é que tem uma cumplicidade. Parece que o neto sabe que você tem um amor... que suplanta tudo. [...] E quando eu vejo o meu neto, quando eu sinto esse amor do meu neto por mim, eu lembro que minha avó me amava também. (Cecília, 51 anos, Entrev., 19/5/2020) Essa fusão de tempos também é observada quando se pensa o vínculo entre avós/avôs e netas/os. As referências das avós e dos avôs são acionadas na relação com as netas e os netos. Ficam evidentes nas narrativas as diferentes formas de vincular-se ao outro: envolvem expectativas, medos, conflitos, inclusive dependem da relação com a geração intermediária para que o vínculo seja construído. Porém, o destaque das e dos participantes está na “certeza do amor”, construída nos minúsculos gestos cotidianos, que produz uma segurança afetiva que ampara crianças e adultos. Desses encontros amorosos entre os mais novos e os mais velhos, parece se instaurar um estado de infância, uma força infantil, que produz novas possibilidades de vida. Essa relação amorosa foi enfatizada como algo que faz falta quando não há a possibilidade de estar junto, como durante o isolamento social em decorrência da pandemia. O jeito foi ser, por um período, “avó e avô de tela” para manter os laços e driblar as distâncias e os temores. Infância e autoridade Vemos umas coisas e dizemos: "Não é por aí não, a gente tem experiência, escuta o que estamos falando". [...] nós temos bagagem para interferir. Talvez tudo que a gente fale para eles [as filhas e os genros] não seja verdade, a verdade é nossa, mas vamos orientar muito. Eu estou com sessenta e cinco e a [minha esposa] tem setenta anos. Eu convivi com vários sobrinhos, e [minha esposa], com os irmãos dela. Então tudo isso tem que ser colocado na balança. Isso é vida, a pessoa participou disso tudo, então tem esse conhecimento. (Gilberto, 65 anos, Entrev., 04/12/2020). Ser avó ou avô coloca em discussão o tema da autoridade. Na relação com as filhas e os filhos – pais e mães das netas e dos netos -, surgem conflitos em decorrência das diferenças geracionais e são necessárias negociações em relação à educação das crianças. A tensão está entre dar ou não conselhos, em ter a “voz da experiência” escutada ou refutada. Sobre o modo de assumir sua autoridade na relação com as crianças, as e os participantes opõem-se à ideia de que as avós e os avôs deseducam. O afeto, a amorosidade, o diálogo e a brincadeira são aspectos valorizados na relação com as netas e os netos, mesmo quando é necessário que sejam colocados limites nas ações das crianças. A “deseducação” que parece acontecer está na oportunidade das avós e dos avôs, ao revisitar suas infâncias na relação com as crianças, experimentar um novo modo de ser adulto. Para as e os participantes, ser avó e avô envolve ainda a tarefa de transmitir algo do passado relevante para a vida das netas e dos netos. Ter “papo de avô e de avó” com as crianças é destacado como um papel a ser cumprido na educação das novas gerações, o que implica uma assunção de autoridade. Infância e cuidado Eu acho que as pessoas deveriam se preparar para isso, se preparar para estar ao lado dos netos. Você não está em um lugar de observador apenas. Você precisa se preparar tentando conhecer os hábitos, o que ele gosta, que tipo de brincadeira é mais legal para ele. (João, Entrev., 04/06/2020) Minha avó? Ela tem calma, ela tem muita calma na comida. O ingrediente secreto dela é amor. (Luan, 9 anos, Entrev. Coletiva, 5/12/2020) Cuidado parece ser o fio que costura tempo, vínculo e autoridade nas relações entre avós/avôs e netas/os. Para além da dimensão instrumental, as narrativas das e dos participantes da pesquisa apontam uma dimensão ética e humana do cuidado. Estar junto às crianças é destacado pelas avós e avôs como um ato de cuidado, que envolve escuta, partilha e reconhecimento de suas necessidades. Os modos de cuidar e a própria garantia do cuidado, entretanto, são afetados pelas condições de vida das pessoas. Diante disso, avós e avôs ressaltam a necessidade de ser apoio, auxiliando sobretudo as mulheres-mães, sobrecarregadas por uma estrutura social que as responsabiliza pelo cuidado das crianças enquanto alivia os homens dessa função. Seja mais esporádica ou constante em decorrência da necessidade, a convivência entre avós/avôs e netas/os envolve práticas de cuidado marcadas pela cultura familiar e pela cultura mais ampla. Entre as gerações, não há apenas transmissão dessas práticas, mas também possibilidade de acolhimento e criação do novo. Os gestos de cuidado, nas narrativas das/os participantes, evidenciam agrados e delicadezas (com destaque para a comida, mas não apenas), que deixam marcas na memória. Considerações finais As narrativas das e dos participantes reforçam a compreensão de infância como um estado que nos atravessa em qualquer momento da vida. Parece que esse estado infantil encontra terreno fértil numa relação marcada por alguns fatores, como: disponibilidade maior de tempo ou desejo de experimentar a vida em outro tempo; experiência de vida, especialmente da maternidade/paternidade, possibilitando viver a relação com as crianças de outro modo; e, sobretudo, amor. A força do amor, nessa relação, parece potencializar a força infantil, renovando a vida dos mais velhos e assegurando possibilidades de ser para os mais novos. Os mais velhos têm a oportunidade de experimentar novos modos de viver, e os mais novos têm seus caminhos pavimentados pelas experiências dos que os antecederam, o que possibilita a constituição de suas singularidades. Embora os conflitos e as contradições, inerentes a qualquer relação, não sejam enfatizados, as narrativas expressam modos de ser almejados e experimentados nas brechas do cotidiano. Anunciam modos de viver na contramão da pobreza de experiência denunciada por Benjamin ou da falta de diálogo, preocupação de Buber. Por meio da pesquisa testemunharam-se experiências que permanecem vivas em nós, relações que deixam rastros, conexões amorosas que nos constituem e fortalecem. Referências BENJAMIN, W. A hora das crianças: narrativas radiofônicas. Trad. Aldo Medeiros. Organização de Rita Ribes Pereira. Rio de Janeiro: Nau, 2015. BENJAMIN, W. Obras escolhidas I: magia e técnica; arte e política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1987a. BENJAMIN, W. Obras escolhidas II: rua de mão única. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1987b. BENJAMIN, W. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. Trad. Marcus Vinicius Mazzari. São Paulo: Ed. 34, 2002. BUBER, Martin. Do diálogo e do dialógico. Trad. Marta Ekstein de Souza Queiroz e Regina Weinberg. São Paulo: Perspectiva, 2009. BUBER, Martin. El caminho del ser humano y otros escritos. Trad. e notas de Carlos Díaz. Madri: Fundación Emmanuel Mounier, 2004. (Col. Persona; 11) BUBER, Martin. Eu e Tu. Trad. do alemão, introdução e notas de Newton Aquiles von Zuben. São Paulo: Centauro, 2001. BUBER, Martin. Sobre comunidade. Trad. Newton Aquiles von Zuben. Campinas, SP: Perspectiva, 2008. CAMPOS, M. M. Por que é importante ouvir a criança? A participação das crianças pequenas na pesquisa científica. In: CRUZ, S. H. V. (org.) A criança fala: a escuta das crianças em pesquisas. São Paulo: Cortez, 2008. p.35-42. INGOLD, Tim. Antropologia e/como educação. Tradução de Vitor Emanuel Santos Lima, Leonardo Rangel dos Reis. Petrópolis, RJ: Vozes, 2020. INGOLD, Tim. Antropologia: para que serve? Tradução de Beatriz Silveira Castro Figueiras. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.

Share your ideas or questions with the authors!

Did you know that the greatest stimulus in scientific and cultural development is curiosity? Leave your questions or suggestions to the author!

Sign in to interact

Have a question or suggestion? Share your feedback with the authors!

Institutions
  • 1 UERJ/PROPED - Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Track
  • GT07 - Educação de Crianças de 0 a 6 anos