IN(EX)CLUSÃO DIGITAL DE PERIFERIAS SOCIAIS E SUAS IMPLICAÇÕES: NARRATIVAS DOCENTES E PRÁTICAS EDUCATIVAS

- 215157
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
IN(EX)CLUSÃO DIGITAL DE PERIFERIAS SOCIAIS E SUAS IMPLICAÇÕES: NARRATIVAS DOCENTES E PRÁTICAS EDUCATIVAS No cenário mundial contemporâneo, as tecnologias digitais tornaram-se elementos centrais na organização social, econômica e educacional. No entanto, o avanço e o acesso tecnológico não ocorrem de maneira equitativa, reproduzindo e ampliando desigualdades sociais estruturais já existentes. A exclusão digital atinge de forma desproporcional populações marginalizadas, reforçando barreiras de acesso ao conhecimento e limitando oportunidades de desenvolvimento. No Brasil, essa problemática se manifesta de forma particularmente acentuada nas periferias urbanas, onde a precariedade de infraestrutura tecnológica e as dificuldades socioeconômicas impõem desafios significativos para a implementação de políticas educacionais que promovam a equidade na inclusão digital. Nesse contexto, a inserção de tecnologias na educação pública surge como um campo de disputa entre abordagens que enfatizam suas possibilidades emancipatórias e aquelas que a instrumentalizam sob uma lógica mercadológica e tecnocrática, alinhada às tendências neotecnicistas e ao avanço do neoconservadorismo global. Nosso estudo objetiva compreender e discutir as dinâmicas de inclusão e exclusão digital nas práticas pedagógicas desenvolvidas por professores dos anos finais do ensino fundamental e ensino médio da rede pública de educação em periferias sociais. Para isso, adotamos a abordagem metodológica narrativa (Connelly; Clandinin, 2011), que analisa as experiências narradas de docentes que atuam em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, tecidas a partir de discussões abertas em grupos colaborativos compostos por professores da rede pública estadual de São Paulo (Ibiapina, 2016), nos quais se problematizou a in(ex)clusão digital nas escolas periféricas e os desdobramentos do (não) acesso às tecnologias digitais nesses espaços educativos. A análise das narrativas é orientada pelo paradigma indiciário (Ginzburg, 1989; Aguiar; Ferreira, 2021), permitindo a identificação de indícios que revelam as formas como as condições materiais e estruturais atravessam as experiências e os cotidianos dos professores e estudantes. A carência de infraestrutura tecnológica nessas localidades não apenas limita o acesso a atividades, recursos e possibilidades digitais, mas também reforça dinâmicas de exclusão social e educacional vigentes. A inclusão digital, quando equitativamente implementada, pode funcionar como ferramenta emancipatória, fomentando o desenvolvimento crítico e participativo dos estudantes em cenários de resistência e de construção identitária no âmbito da cultura digital. No entanto, indiciamos que o acesso à tecnologia, por si só, não é suficiente para transformar a educação, sendo fundamental o papel da mediação qualificada dos professores e das relações humanas na efetivação do uso pedagógico das tecnologias digitais. As narrativas docentes indicam que objetos, ideias e recursos digitais já fazem parte do repertório cultural dos professores, influenciando sua forma de pensar e agir no ambiente escolar e possibilitando o acesso a conteúdos e produções por vezes viabilizados exclusivamente pela mediação tecnológica. No entanto, essas mesmas narrativas evidenciam tensões e desafios associados à in(ex)clusão digital, pois a falta de formação específica e a precariedade da infraestrutura em contextos periféricos intensificam desigualdades e geram receios diante das transformações trazidas pela cultura digital. Ainda que docentes reconheçam as potencialidades das ferramentas digitais para ampliar o engajamento dos estudantes e promover práticas colaborativas de aprendizagem, persistem tensões que vão desde a carência de dispositivos adequados até a insuficiência de suporte formativo, reforçando a necessidade de políticas públicas que ampliem o acesso e fomentem uma formação continuada e reflexiva. Seguindo o que afirma Pretto e Pinto (2006), o uso de tecnologias digitais não se restringe à adoção de novos dispositivos, mas implica repensar o processo de ensino e aprendizagem, sublinhando a importância de investir na mediação docente e na valorização de práticas educativas emancipatórias que respondam às demandas sociais e culturais dos territórios em que se inserem. O estudo também problematiza o avanço das tendências neotecnicistas no campo educacional, que preconizam o uso das tecnologias digitais como solução simplificada para os problemas estruturais da educação pública, alheias às particularidades de cada contexto. Tais tendências, fortemente alinhadas ao movimento neoconservador global, promovem uma abordagem instrumental e mercantilizada da educação, fundamentada em lógicas de produtividade e eficiência que desconsideram as condições materiais dos sujeitos, bem como a necessidade de práticas pedagógicas voltadas à formação crítica e transformadora. Ao compreender a tecnologia como panaceia para desigualdades históricas, o neotecnicismo negligencia as barreiras sociais, econômicas e estruturais que perpetuam a exclusão, sobretudo em espaços periféricos, onde a precariedade de infraestrutura e o déficit de investimento em formação docente inviabilizam um uso efetivamente emancipatório dos dispositivos digitais (Rodrigues; Almeida, 2023). Dessa forma, essa perspectiva tecnocrática reforça a falsa crença de que a simples presença de equipamentos e plataformas seria capaz de elevar a qualidade da educação, ignorando o papel fundamental da mediação docente e o vínculo necessário entre inovação tecnológica, práticas colaborativas e reconhecimento das múltiplas dimensões que atravessam o fazer educativo. Nos contextos periféricos, a perspectiva neotecnicista se traduz na imposição de tecnologias digitais como nova roupagem para o consumo de conteúdos, sem a devida infraestrutura e suporte pedagógico, criando uma ilusão de modernização educacional que, na prática, reafirma velhas práticas e aprofunda as desigualdades existentes. Além disso, a inserção da tecnologia na educação pode ser acompanhada de mecanismos de monitoramento e vigilância por parte da gestão institucional, o que levanta preocupações sobre o controle e a disciplinarização dos corpos estudantis e docentes, limitando a autonomia pedagógica e reforçando dinâmicas de opressão dentro do ambiente escolar (Freitas, 2011). A pesquisa demonstra que, ao invés de promover uma inclusão digital efetiva, essa abordagem acaba reproduzindo dinâmicas de precarização do ensino, dificultando o desenvolvimento de uma educação que dialogue com a realidade dos estudantes e valorize suas vivências culturais. Assim, a cultura periférica e suas formas de resistência são impactadas por uma lógica tecnocrática que ignora a potência das práticas educativas comunitárias e da mediação docente como elementos centrais na promoção de uma aprendizagem significativa. Desse modo, nosso trabalho contribui para a formulação de apontamentos sobre a necessidade de políticas públicas que promovam a inclusão digital como um caminho para a justiça social. Além disso, busca evidenciar e questionar as violências sociopolíticas derivadas do neotecnicismo, que reforçam desigualdades educacionais e deslegitimam práticas pedagógicas voltadas à emancipação dos sujeitos periféricos. Ao explorar a relação entre exclusão digital e marcadores sociais de diferença, esperamos ampliar o debate sobre o potencial das tecnologias digitais na construção de resistências e identidades periféricas, contribuindo para uma educação pública mais inclusiva e comprometida com a transformação social. Palavras-chave: Inclusão digital; Exclusão digital; Educação pública; Práticas educativas; Neotecnicismo. REFERENCIAS AGUIAR, Thiago Borges de; FERREIRA, Luciana Haddad. Paradigma Indiciário: abordagem narrativa de investigação no contexto da formação docente. Educar em Revista, Curitiba, v. 37, 2021. CONNELLY, F. Michael; CLANDININ, D. Jean. Pesquisa narrativa: experiências e história na pesquisa qualitativa. Uberlândia: EDUFU, 2011. FREITAS, Luiz Carlos de. Responsabilização, meritocracia e privatização: conseguiremos escapar ao neotecnicismo? In: Seminário de Educação Brasileira, Centro de Estudos Educação e Sociedade, Campinas, fev. 2011. IBIAPINA, Ivana Maria Lopes de Melo; BANDEIRA, Hilda Maria Martins; ARAUJO, Francisco Antonio Machado (Org.). Pesquisa colaborativa: multirreferenciais e práticas convergentes. 1. ed. Teresina: EDUFPI, 2016. PRETTO, N.; PINTO, C. Tecnologias e novas educações. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 11, n. 31, jan./abr. 2006. RODRIGUES, Alessandra; ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de. Para além das plataformas e do tecnicismo: narrativas digitais e formação docente crítico-reflexiva. Sisyphus Journal of Education, v. 11, n. 03, p. 46-68, 2023. GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

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