IDENTIDADES PROFISSIONAIS DOCENTES NA BAHIA RESUMO Esta pesquisa objetiva analisar as transformações ocorridas nas condições de trabalho docente ao longo da última década (2014-2024) e apreender os sentidos e significados atribuídos pelos professores da Educação Básica à sua constituição identitária docente. A pesquisa seguiu uma abordagem qualitativa, de caráter interpretativo reflexivo. Utilizamos o questionário misto como instrumento metodológico e o procedimento analítico denominado Análise Temática Reflexiva. Participaram da pesquisa 102 professores(as) da rede pública de ensino de 24 municípios que compõem o Território de Identidade do Sudoeste Baiano, na Bahia. Concluímos que o processo de constituição identitária dos docentes investigados tem como propriedade o movimento dialético entre as condições de trabalho e os atos de pertencimento vivenciados ao longo de suas trajetórias profissionais, impactando na natureza social do trabalho docente e, consequentemente, no processo de (re)construção -individual e coletiva - das identidades profissionais. Palavras-chave: Mudanças Educacionais. Trabalho Docente. Identidades Docentes. Introdução O processo de constituição identitária dos professores está imbricado em múltiplas determinações socioculturais, econômicas, históricas e políticas que determinam e reconfiguram o trabalho docente. Todo esse movimento de mudança acarreta uma maior diversificação e ampliação da atividade educativa e, consequentemente, na deterioração e complexificação da prática profissional docente (Oliveira, 2012). Neste estudo, iniciamos com uma análise das mudanças educacionais ocorridas no Brasil desde os anos 1990, concentrando-nos, sobretudo, na última década. Com base na categoria ontológica da identidade profissional docente, questionamos: Como as condições de trabalho influenciam a construção da identidade profissional dos professores da Educação Básica no Sudoeste Baiano? Partindo desse questionamento, temos como objetivo analisar as transformações nas condições de trabalho docente ao longo dos anos de 2014 a 2024 e compreender os sentidos e significados atribuídos pelos professores da Educação Básica à sua identidade profissional, considerando essas mudanças. Esta pesquisa tem como fundamento teórico-metodológico os estudos sociológicos e psicológicos sobre identidade que possibilitam explorar as múltiplas interações sociais e culturais que constroem e reconstroem as identidades profissionais docentes em processos mutáveis, dinâmicos e reflexivos. Para a compreensão ontológica das identidades docentes, partimos das concepções teórico-filosóficas de Dubar (2009; 2020); Hall (2022); Bauman (2021); Ciampa (2005); Gatti (1996; 2019); Nóvoa (1999); e outros. Para apreendermos os sentidos e significados de constituição identitária docente, analisamos as respostas de 102 professores que lecionaram nos últimos dez anos na rede pública de 24 municípios do Sudoeste Baiano. Este trabalho foi organizado em quatro subtítulos: no primeiro discutimos sobre as reconfigurações do trabalho e da identitária profissional docente na contemporaneidade, no segundo apresentamos os procedimentos teórico-metodológicos, no terceiro os paradoxos emocionais da docência e as identidades profissionais docentes e, por último, as considerações finais. Reconfigurações do trabalho e da identidade docente na contemporaneidade Entender a complexidade da profissão docente nos dias de hoje é uma tarefa desafiadora. A carreira do professor enfrenta inúmeros obstáculos, como deficiências na formação inicial, excesso de trabalho, falta de reconhecimento profissional, entre outros (Gatti, 2019). Tudo isso exige do docente um contínuo processo de interpretação e reinterpretação da sua prática educativa enquanto tenta equilibrar sua identidade profissional com as múltiplas demandas que lhes são impostas. Tudo isso resulta em um ambiente de trabalho que provoca profundas crises de identidades e gera intensas incertezas e quadros de adoecimento mental (Oliveira, 2004; 2012; Hypolito, 2013). A identidade do professor é um processo dinâmico, construído ao longo do tempo, permeado por uma variedade de fatores sociais e pessoais e marcados, justamente, pelo sentimento de semelhança e diferença entre si mesmo e os outros (Deschamps, Moliner, 2009). Não pode ser compreendida de forma única e homogênea, pois é moldada por intenções políticas, ideológicas e pelas representações que a sociedade tem sobre a docência e pelos significados que cada docente atribui à sua prática cotidiana em uma dinâmica relação entre o sujeito e seu contexto social (Dubar, 2009, 2020). Nesse sentido, é fundamental reconhecer que os processos identitários dos docentes não são construídos em vazios conceituais e políticos, mas estão diretamente ligados às vivências e experiências que cada educador tem ao lidar com as diferentes formas de construção da própria docência que é construída no permanente encontro (ou confronto) entre o que é concebido e o que é vivido em um processo transformador tanto da realidade quanto do próprio sujeito (Colello, 2010). À medida que o papel do professor se redimensiona, torna-se necessário repensar os processos constitutivos dessas constantes mudanças educacionais no ambiente escolar e como isso influencia a constituição identitária docente. Historicamente, o trabalho docente, que antes se limitava a tarefas educativas na sala de aula, tem sofrido profundas reconfigurações desde as reformas educacionais dos anos 1990. Essas mudanças impuseram novas responsabilidades ao professor, que passou a ser sobrecarregado por cursos pré-formatados, manuais, ferramentas pedagógicas que atendam às demandas do mercado e da sociedade digital. O impacto disso é a perda de autonomia profissional e a crescente submissão a diversas formas de controle que avaliam os docentes com base nos resultados obtidos pelos alunos. Esse modelo de avaliação resulta, muitas vezes, na precarização das condições de trabalho dos professores e na desvalorização política e social da profissão, como já demonstrado por diversos estudos (Oliveira, 2004; 2012; Oliveira; Vieira, 2012; Hypolito, 2012; 2020; Sampaio; Marin, 2004; Duarte, 2010; Alves; Pinto, 2011). Destacamos que há um processo crescente de responsabilização dos docentes pelo insucesso dos estudantes e pelas ineficiências das reformas educacionais implementadas nos últimos anos, que se aproxima das tendências encontradas nas reformas educativas neoliberais em todo o mundo. Essas transformações influenciam a constituição identitária dos professores. Procedimentos teórico-metodológicos Para apreensão dos sentidos e significados atribuídos pelos professores da Educação Básica à sua constituição identitária docente no cenário contemporâneo, realizamos a aplicação de um questionário online, composto de perguntas abertas e fechadas, por meio da plataforma Google Forms, com 102 professores do Sudoeste Baiano que lecionam na Educação Básica há mais de dez anos. Participaram da pesquisa professores com diferentes níveis de experiência profissional (variando entre dez e trinta e um anos) e que lecionam nas diferentes etapas da educação básica (educação infantil, ensino fundamental e médio), em escolas públicas municipais e estaduais do Sudoeste Baiano. Para a análise e categorização dos dados, utilizamos como método qualitativo a Análise Temática Reflexiva (AT), de Braun e Clarke (2006, 2021). Essa escolha possibilitou o mapeamento, segmentação e categorização das ocorrências dos elementos significativos (códigos) presentes nas respostas dos professores em busca do conteúdo e do significado de padrões (temas) dentro do conjunto de dados, relacionando-os e os agrupando em torno de padrões e desenhos que os unem. Todo esse movimento dialético nos permitiu compreender os dados a partir da constituição de mapas temáticos, nomeados a partir dos extratos de texto que expressam semelhanças, complementaridades e contradições nos sentidos atribuídos pelos participantes. A partir dessa análise interpretativa reflexiva, sintetizamos as respostas dos professores em dois temas principais: 1. Sentimentos contraditórios da docência; 2. Atos de pertencimento – identidades para si. Os paradoxos emocionais da docência e as identidades profissionais docentes A constituição dos sentidos e significados atribuídos pelos professores foi interpretada a partir de dois temas principais: sentimentos contraditórios da docência e atos de pertencimento – identidades para si. Esses temas evidenciam a fragmentação e dicotomia da profissão docente nos últimos dez anos. A análise do tema sentimentos contraditórios da docência revela que, ao enfrentar desafios, muitos professores (88 participantes) buscam se desenvolver e adaptar às demandas contemporâneas. Contudo, essa busca tem gerado sobrecarga e um sentimento de inadequação diante das exigências externas. Essa dicotomização entre protagonismo dos professores e cobranças externas deforma a práxis social dos professores e consequentemente pode desencadear uma crise de identidade (Dubar, 2009), na qual esses profissionais se esforçam para conciliar suas percepções individuais com as demandas e expectativas sociais. Essa dicotomia tem produzido sentimentos de angústia e de incapacidade em realizar a sua prática pedagógica nas escolas. Esses sentidos são significados a partir da relação entre os sentimentos contraditórios de desistência e resistência da docência. Esse é um sentimento quase unânime dos participantes da pesquisa. A docente 38 elucida bem ao afirmar que ela é [...] Uma profissional responsável, preocupada com a sua prática pedagógica, porém cansada frente a desvalorização profissional e amedrontada pelas ameaças ao nosso trabalho. Sinto-me feliz em saber que muitos passaram por minhas mãos e realizaram seus sonhos através da educação. Porém, vejo uma descaracterização da profissão pelo próprio docente em não reconhecer a sua importância profissional. Não adianta buscar políticas públicas para atender nossas necessidades profissionais ou até mesmo avanços em planos de carreira se o "professor" não ter identidade expressiva na carreira profissional [...] (Docente 38). Essa frase traz uma reflexão interessante sobre a natureza da identidade. Ela reconhece a complexidade e o dinamismo daquilo que nos define ao longo do tempo. Esse sentimento reverbera em experiências cada vez mais fluidas, fugazes e imprecisas vividas pelos professores cujas identidades estão em constante deslocamento (Bauman, 2021; Hall, 2022). São movimentos que partem do externo para o interno, ecoando de volta para o externo. Esse ciclo contínuo dá origem a novos movimentos em um eterno transformar-se (Ciampa, 2005). No tema “atos de pertencimento -identidade para si” foi possível compreender os motivos e as histórias de vida dos professores que o levaram à docência. A análise desse tema foca no processo biográfico/identidade para si (Dubar, 2020) em suas características comuns a maioria dos professores. Procuramos entender como foi se dando ao longo dos últimos dez anos o processo de identificação dos docentes estudados com as dinâmicas sociais que os definem e que reconfiguram os modos de atuação profissional e pessoal. Os dados demonstram que as identidades dos docentes investigados estão atreladas às condições de ingresso na profissão (não foi uma escolha consciente para a maioria dos professores) e alguns aspectos dessa condição perfazem essas identidades. A importância que os professores atribuem ao seu trabalho depende da reflexão que fazem acerca dele, das suas emoções e do significado que atribuem às suas experiências anteriores relativamente às atuais. Aqui fica evidente o que muitos autores (Nóvoa, 1995; Dubar; 2009; 2020; Erikson, 1976; Ciampa, 2005; Pimenta,1996) apontam sobre a identidade como sendo decorrente de um processo de transformações vinculadas à época histórica e ao contexto social no qual os indivíduos estão imersos. Os professores vão constituindo-se e identificando-se com a profissão no decorrer de suas trajetórias docentes a partir das interações sociais estabelecidas no cotidiano escolar. Fica evidente como o vínculo afetivo se destaca como um fator crucial na construção das identidades docentes e como os sentimentos de pertença e identificação são formados ao longo da trajetória profissional em uma constante metamorfose (Ciampa, 2005). Considerações finais Concluímos que o processo de constituição identitária dos docentes do TISB tem como propriedade o movimento dialético entre as condições de trabalho e os atos de pertencimento vivenciados no decorrer de suas trajetórias profissionais. Em uma sociedade marcada por rupturas e transformações das relações profissionais e pessoais, os últimos dez anos representaram uma nova maneira de ser e viver a docência, desestabilizando, assim, todas as formas anteriores de representação e de ação, todas as antigas identidades profissionais, (Dubar, 2009) para um movimento de transição entre as antigas e as novas crenças, saberes, as identificações passadas e presentes em um processo de reconstrução identitária. Essa dicotomia permanece no trabalho docente, potencializando a compreensão de que a constituição identitária é apenas provisória, dinâmica, híbrida, socialmente construída e influenciada por contexto sociais, políticos, econômicos e organizacionais que faz com que elas devam ser remanejadas e reconstruídas ao longo de toda a vida. Assim, a identidade e o trabalho docente são aspectos complementares, que se influenciam mutuamente e são fundamentais para entender a realidade da profissão. A identidade do professor não se constrói de forma isolada, mas sim a partir das condições de trabalho e das pressões sociais e políticas que moldam sua prática. As constantes mudanças e exigências impostas pela sociedade e pelo sistema educacional interferem diretamente na construção dessa identidade, que, por sua vez, influencia a maneira como o professor lida com os desafios e a complexidade de seu trabalho. REFERÊNCIAS BRAUN, Virginia; CLARKE, Victoria. Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, 3:2, 2006. p. 77–101.
https://doi.org/10.1191/1478088706qp063oa. Acesso em: 10.06.2022. BRAUN, Virginia; CLARKE, Victoria. Thematic Analysis: a practical guide. 1. ed. New York: Sage Publications, 2021. CIAMPA, Antonio da Costa. A Estória do Severino e a história da Severina: Um ensaio de psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 2005. DESCHAMPS, Jean Claude; MOLINER, Pascal. A identidade em psicologia social: dos processos identitários às representações sociais. Petrópolis: Vozes, 2009. DUBAR, Claude. A socialização: construção das identidades sociais e profissionais. 2ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2020. DUBAR, Claude. A crise das Identidades: A interpretação de uma mutação. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.