FILOSOFIA, MODOS DE VIDA E EDUCAÇÃO Esta comunicação é parte de um trabalho de pesquisa, ainda em desenvolvimento, que pretende investigar o caráter formativo da atividade filosófica e sua relevância contemporânea, tendo como fio condutor autores e autoras que pensaram a filosofia como modo de vida. Nessa pesquisa nos utilizamos do método da revisão bibliográfica. Em um cenário no qual o papel das humanidades no currículo da escola é questionado, é fundamental discutirmos o caráter formativo da filosofia, lançando um olhar mais amplo para o mundo contemporâneo. Nesse sentido, essa comunicação dialoga com a abordagem de Pierre Hadot (1922-2010) acerca da filosofia como modo de vida. Segundo o autor francês, vida filosófica e discurso filosófico são inseparáveis, mesmo que de ordem heterogênea, pois a escolha existencial sempre escapa à expressão do discurso filosófico. No entanto, na perspectiva hadotiana, é a filosofia antiga que expressa o sentido característico e autêntico da filosofia como um todo, que se perdeu ao longo do tempo devido à separação entre vida e discurso. A relação entre vida filosófica e discurso filosófico, segundo Hadot, pode ser pensada de três maneiras diferentes, mas que estão estreitamente ligadas. Primeiramente, o discurso filosófico justifica teoricamente a escolha do modo de vida. Dessa forma, se podemos reconhecer um “grande esforço de conceitualização e de sistematização” (Hadot, 2014a, p. 254) na filosofia antiga, esse esforço deve ser visto como uma busca de justificação do modo de vida. Uma segunda forma de articulação entre vida filosófica e discurso filosófico se apresenta quando o segundo se configura como “um meio privilegiado graças ao qual o filósofo pode agir sobre si mesmo e os outros” (Hadot, 2014a, p. 254). O discurso então assume, direta ou indiretamente, um papel formador, advindo da “opção existencial daquele que o sustenta” (Hadot, 2014a, p. 254), produzindo uma transformação do eu. Nessa condição, o discurso filosófico se apresenta como um exercício espiritual. O terceiro e último aspecto assumido pela relação entre discurso filosófico e vida filosófica é quando o primeiro se apresenta como “uma das formas de exercício do modo de vida filosófico” (Hadot, 2014a, p.257), como, por exemplo, na relação do modo de vida platônico com o diálogo. A forma do discurso é condizente com o exercício de um determinado modo de vida. O discurso filosófico é, assim, ao mesmo tempo, o meio e o modo de expressão da vida filosófica, ele é sua parte constituinte, que mantém e anima, por sua força lógica e persuasiva, o compromisso com a opção existencial. Como alerta Hadot, o discurso filosófico se torna um perigo para a vida filosófica quando se basta a si mesmo, quando se torna independente da vida que o anima, e isso ocorre quando essa dimensão teórica se torna autônoma em relação ao modo de vida. Segundo o autor francês, é esse processo que se assiste no ensino moderno e contemporâneo de filosofia, que a transformou em um discurso teórico ou sistemático desvinculado dos modos de vida filosóficos. Isso se dá, no entanto, devido a uma mudança de ordem histórica gerada pelo progresso do cristianismo, que “apresentou-se muito cedo como uma filosofia no sentido antigo da palavra, isto é, como um modo e uma escolha de vida implicando certo discurso, a escolha de vida segundo Cristo” (Hadot, 2014a, p. 355). O cristianismo incorporou uma série de elementos da filosofia tradicional greco-romana, porém, especialmente a partir da idade média, se tornou o responsável por operar a separação entre discurso filosófico e modo de vida. Se por um lado, alguns modos de vida vinculados às escolas antigas desapareceram, como o epicurismo, outros modos de vida, como o platonismo e o estoicismo, sobreviveram na medida em que foram incorporados ao modo de vida cristão. Se os discursos filosóficos aristotélicos e platônicos subsistiram, isso se deu na medida em que se tornaram materiais para o debate teológico, reduzidos assim a um plano teórico, desvinculado do modo de vida que os inspiraram. A filosofia enquanto discurso teórico se tornou escrava da teologia. Quando consegue se libertar da teologia na modernidade, a filosofia exibe a tendência a se manter nesse plano teórico. Na medida em que o modo de vida cristão se apresenta como o único modo de vida válido, essa tendência permanece. Apesar da diversidade de suas fundações e funcionamentos, as universidades são herdeiras da universidade medieval. Sendo assim, mesmo que se assista, segundo Hadot, a uma tendência a reunir novamente discurso filosófico e vida filosófica em filósofos como Montaigne, Descartes, Rousseau, Kant, Schopenhauer, Emerson, Kierkegaard, Nietzsche, Wittgenstein e Merleau-Ponty, a filosofia moderna se constitui “como uma ciência teórica, já que a dimensão existencial da filosofia não tinha mais sentido na perspectiva do cristianismo que era, simultaneamente, doutrina e vida” (Hadot, 2014a, p. 364). Dessa forma, é necessário distinguir entre a representação que os antigos possuíam da filosofia e sua representação nos dias atuais, pelos menos da “imagem transmitida aos estudantes por conta das necessidades do ensino universitário” (Hadot, 2014a, p. 16-17). A imagem construída pelo ensino universitário é a de que cada filósofo se esforçou para construir, cada um de maneira original, abstrata e sistemática, uma explicação do universo. Dessas teorias se desdobram “doutrinas ou críticas da moral que extraem as consequências, para o homem e para a sociedade, dos princípios gerais do sistema e convidam, a partir disso, a fazer uma escolha de vida [...]” (Hadot, 2014a, p.17). Ou seja, nessa representação da filosofia a escolha do modo de vida se apresenta ao fim da atividade filosófica. Dessa forma, seria um erro aplicar essa imagem da filosofia a filosofia antiga, pois é a escolha do modo de vida e não a teoria que se encontra no início da atividade filosófica antiga. Segundo Hadot, na imagem habitual da filosofia construída nos tempos atuais, a possibilidade da teoria levar à escolha de um modo de vida não é algo determinante, e sim um “apêndice acessório” (Hadot, 2014a, p.17). Podemos dizer que as questões existenciais ficaram marginalizadas na escola moderna e contemporânea, e isso se deu, se nos orientarmos pela perspectiva hadotiana, devido ao fechamento do horizonte para a escolha do modo de vida, processo que encontra sua origem no avanço do cristianismo. Esse fechamento quebrou a dinâmica entre vida e discurso característica da filosofia antiga. Hadot nos convida a pensar a dimensão formativa da filosofia justamente a partir dessa dinâmica e, assim, ao mesmo tempo em que aponta para as tensões que caracterizam o processo de escolarização da atividade filosófica, nos incita a vislumbrar o cenário no qual o caráter peculiar da formação filosófica ganharia novamente relevância. As questões étnico-raciais e de gênero, a afirmação da diversidade, das diferenças, dos pluralismos, ganham cada vez mais força no mundo contemporâneo, o que, em sociedades como a brasileira, latino-americana, se soma à crítica ao eurocentrismo, à problematização da modernidade, agora não mais sob a ótica da própria intelectualidade europeia, mas de uma perspectiva decolonial, como a orientada pelo conceito de colonialidade. Será que essas pautas contemporâneas possuem o potencial para abrir o horizonte para as escolhas existenciais? Essas pautas suscitam uma forte reação conservadora no cenário político, canalizada em grande parte pela extrema-direita. Podemos pensar o neoconservadorismo no mundo contemporâneo, entre outros aspectos, como uma reação a essa potencial abertura do horizonte para as escolhas existenciais? Se a dimensão formativa da filosofia se encontra na possibilidade de experimentação com as formas de vida, não estaríamos diante de um cenário propício para pensar o seu sentido e sua relevância para o currículo das escolas e das universidades? Diante dessas instigantes questões cabe observar como esses estabelecimentos de ensino estão reagindo a essas pautas contemporâneas, na medida em que perdura o discurso educacional hegemônico de defesa de uma educação voltada à formação para o mercado de trabalho, para o uso das novas tecnologias, para o desenvolvimento de habilidades e competências, para uma concepção instrumental de cidadania, sem pensá-la para além do reconhecimento de direitos e deveres. Se essa abertura do horizonte para as escolhas existenciais é possível, se faz necessário ir para além dos modos de vida das escolas gregas, mesmo que para filósofos como Hadot se apresentem como universais, e considerar não só a desnaturalização do modo de vida cristão, mas também do modo de vida neoliberal, e nos abrirmos para outras maneiras de viver, oriundas de outras tradições. REFERÊNCIAS FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. FAUSTINO, Marta; TESTA, Federico (orgs.). Filosofia como Modo de Vida – Ensaios Escolhidos. Lisboa: Edições 70, 2022. HADOT, Pierre. O que é a filosofia antiga? São Paulo: Loyola, 2014. ____________. Exercícios Espirituais e Filosofia Antiga. São Paulo: É Realizações Editora, 2014. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999. _______________. Sobre a pedagogia. Piracicaba: Ed. UNIMEP, 2004. QUIJANO, Aníbal. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas. 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