ESTUDAR, TRABALHAR, CUIDAR: DESAFIOS DE JOVENS MULHERES NAS PERIFERIAS

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
ESTUDAR, TRABALHAR, CUIDAR: DESAFIOS DE JOVENS MULHERES NAS PERIFERIAS O trabalho pretende refletir sobre a relevância do olhar para as interfaces entre as múltiplas combinações entre estudos, trabalho e cuidado, partindo de uma pesquisa realizada junto a jovens moradores de periferias urbanas, em especial mulheres, entre os anos de 2020 e 2023. A pesquisa, com apoio da Fapesp e CNPq, focalizou jovens inseridos em uma miríade de situações – informais, precárias ou no trabalho por conta própria que passam a ser nomeadas como “empreendedorismo”, diante das novas configurações do trabalho e do capital (Dardot; Laval, 2016). Ao mesmo tempo, enfrentavam o acirramento de várias crises: econômica, social, política e sanitária, durante e após a pandemia de covid-19. Este conjunto de fatores contribuiu para tornar evidente a necessidade de complexificar o olhar para a situação de jovens que combinam trabalho e estudos, com especial atenção para a intersecção das desigualdades de classe, gênero e cor/ raça (Collins; Bilge, 2020). A presença do trabalho e as combinações entre trabalho e estudos são constitutivas da condição juvenil do Brasil (Sposito, 2005). Estudos recentes evidenciam o quanto as combinações dessas dimensões têm se alterado, de acordo com variáveis como faixas etárias (15-17 anos, 18-24 anos, 25-29 anos), origem social, gênero, cor/raça e local de moradia (Sposito, Souza, Silva, 2017). No entanto, observa-se que a reflexão sobre a presença e relevância do trabalho na experiência de jovens tem privilegiado a análise do trabalho remunerado, obscurecendo-se o trabalho não remunerado, como o trabalho doméstico e o trabalho de cuidado, ou do trabalho produtivo e reprodutivo, que marcaram as primeiras reflexões sobre as interfaces entre gênero e trabalho (Hirata; Kergoat, 2003). No Brasil, a problematização das relações entre trabalho doméstico não remunerado e trabalho assalariado está presente desde Heleieth Saffioti (1969). Ao lado das análises sobre a ampliação do próprio conceito de trabalho, diferentes balanços evidenciam uma variedade de estudos em torno das desigualdades de gênero no trabalho, como a maior presença das mulheres na informalidade e em ocupações marcadas pela precariedade, em postos com menor remuneração e piores condições de trabalho, em ocupações socialmente desvalorizadas, ao lado da persistência de barreiras para sua progressão quando acessam carreiras de prestígio, a despeito da maior escolaridade. (França e Facchini, 2017). Neste contexto o “tema do cuidado – e do trabalho que o provê” (Guimarães, Hirata, 2020, p.18) ganha centralidade no período recente, considerando o ponto de vista demográfico, com a diminuição da população menor de 15 anos e o crescimento da população de adultos e idosos, desde a primeira década deste século, ou o ponto de vista do mercado de trabalho, nas representações sobre o feminino e o corpo, nas novas configurações das famílias e nas demandas das mulheres por direitos, incluindo o direito a não cuidar. “O cuidado tem cara, sexo, cor e idade. Quem cuida em geral são mulheres, e majoritariamente negras, predominando no cuidado remunerado ou não remunerado, considerado parte das obrigações familiares. (Camarano, 2023, p.13). Rocha e Rezende (2023) destacam que embora a demanda por cuidados não se restrinja a uma dada faixa etária, a maioria dos estudos focaliza a infância e o envelhecimento, deixando de lado a reflexão em torno da juventude. Além disso, muitas das análises sobre os cuidados destacam a perversidade das desigualdades de gênero na distribuição das tarefas, sem enfatizar a dimensão etária, no lugar que os jovens – e sobretudo as jovens – ocupam na realização destas atividades no interior dos domicílios. No conjunto de estudo que focalizam a relação dos jovens com o trabalho e com os estudos, diferentes balanços evidenciam a limitada presença das categorias gênero e raça nas análises, bem como a centralidade atribuída ao trabalho remunerado, persistindo o desafio de incorporar o trabalho doméstico e o trabalho de cuidados nas análises, bem como a intersecção das desigualdades de classe social, gênero e cor/raça e o olhar para outros tipos de trabalho juvenil remunerado (Peregrino, 2009; Miranda, Arancibia, 2018). A manutenção de expressivos índices de jovens que não estudam e não trabalham, que se agravou diante da crise da pandemia de covid-19 (Silva, Rezende, 2023), fez com que as experiências vividas no interior de suas famílias ganhassem centralidade, na medida em que as análises revelavam a maior presença de jovens pobres, mulheres e negras no interior da controversa categoria “nem nem”, evidenciando uma quantidade expressiva de trabalho não remunerado feito por elas (Cardoso, 2013, Souza, Ribeiro, 2019). O que dizer dos jovens, e em especial das jovens, que estão em uma dupla situação de atividade – no trabalho e nos estudos, e mais ainda, o que dizer da situação de jovens inseridos em situações específicas no mundo do trabalho, tais como o trabalho informal, precário e naquilo que mais recentemente passa a ser passa a ser ressignificado como “empreendedorismo”? (Tommasi, 2018; Lima e Oliveira, 2021). A investigação foi realizada em distritos das periferias Sul e Leste da cidade de São Paulo, com foco em 103 jovens que trabalhavam por conta própria, identificando-se ou não como “empreendedores/as”. Para a análise foram utilizados os softwares SPSS e Atlas-ti, e dada a necessidade de distanciamento social em função da covid-19, a pesquisa foi realizada de modo remoto, com apoio de jovens pesquisadores/as dos mesmos territórios em que residiam os interlocutores, recorrendo à metodologia de pesquisa entre pares (Philipper, 1999). Em termos de perfil, metade dos jovens entrevistados tinham entre 18 e 24 anos, 36% com idades entre 25 e 29 anos e 14% entre 31 e 32 anos. Ainda que o limite etário para o final do período da juventude seja 29 anos, decidiu-se considerar o modo como se identificavam naquele momento. A maior parte identificou-se com o gênero feminino (53,1%), contra 40,6% do gênero masculino e 6,2% de outros gêneros. A presença de pessoas que se identificaram como negras (pretos e pardos) foi muito relevante: 64,1% contra 34,4% dos que se identificaram como brancos (34,4%). A renda familiar era baixa: metade pertencia a famílias com renda entre 1 e 2 salários-mínimos e outra metade entre 3 e 4 salários. Se a maior parte ainda residia com os/as genitores (53%), um conjunto expressivo já residia sozinho (32%) ou com companheiros/as (15%). Também era elevado o percentual do que eram responsáveis pelos recursos ou parte dos recursos do domicílio (73%). Apenas 10% tinham filhos, mas 40% das jovens mulheres tinham alguma responsabilidade de cuidado com membros da família. Em relação aos estudos, 40% estavam cursando nível médio e superior, contra 60% não matriculados. A grande maioria tinha concluído a educação básica (95,7%), contra 4,3% no ensino médio, mas chama nossa atenção o elevado percentual dos que iniciaram mas não finalizaram o ensino superior (35%), inclusive pelas dificuldades de combinação entre estudos e trabalho. Se a informalidade predomina entre os pequenos negócios, em nossa pesquisa ela era expressiva entre jovens mulheres e negras: 60% delas não tinham seu negócio formalizado. A relevância das categorias gênero e raça também se expressa no tipo de negócio: muitas das atividades envolvidas eram tradicionalmente atribuídas às mulheres, tais como alimentação, estética e estética negra e moda, em especial moda afro. O desemprego, aliado à necessidade de renda, mas também a fuga de trabalhos de baixa qualidade, baixos salários, distantes de suas moradias e marcados pela discriminação, foram motivações muito presentes para o início de um negócio entre as mulheres, particularmente entre as jovens negras. Ao mesmo tempo, fatores relacionados à busca por um trabalho que possibilitasse mais tempo para dedicação aos estudos e às atividades domésticas e de cuidados (de filhos, irmãos/as ou parentes) aparecem como relevantes. No entanto, fica cada vez mais evidente a dificuldade de combinação: 50% delas destacaram a falta de tempo para estudar ou continuar estudando, considerando as exigências do trabalho que realizavam e as demandas no interior de suas famílias. Como afirma Alice, que começa a trabalhar como trancista em sua própria casa: “no início pensei que teria mais tempo para estudar, mas foi o contrário, passei a trabalhar muito mais. E ainda tinha que dividir minha atenção entre o meu trabalho e o cuidado do meu irmão, já que estava trabalhando em casa (Alice, 21 anos, negra, interrompeu o ensino superior). Mais expressiva ainda foi a menção à falta de tempo para realização dos afazeres domésticos e cuidados com membros/as da família, apontada sobretudo pelas jovens mulheres: 68,1% delas enfatizaram essa dificuldade depois que iniciaram seus pequenos negócios. Relatos indicavam sobrecarga, por conta do acúmulo de trabalhos (produtivo e reprodutivo), ao lado do sofrimento em função de condutas discriminatórias cometidas por seus pares masculinos, interseccionando gênero e idade, como reconhecia Helena, que se identificou como jornalista freelancer e empreendedora. Ao ser questionada sobre as condutas discriminatórias vivenciadas, relata que já tinha ouvido muitas frases de pares masculinos e mais velhos, ao apresentar seu trabalho: “Ah, vai estudar menina! O que você está fazendo aqui?” ´É preciso reconhecer o deslocamento de algumas fronteiras nas novas gerações quando considerada a divisão do trabalho doméstico. Algumas jovens afirmaram terem sido “protegidas” do trabalho doméstico e de cuidados para se dedicarem aos estudos e ao trabalho remunerado. Esta “proteção”, no entanto, vinha, em grande parte dos casos, da ação de uma outra mulher (mãe, tia ou avó) que na tentativa de construir para elas um destino diferente, sobrecarregavam-se de muito trabalho, sinalizando as dificuldades de ruptura dos padrões tradicionais de gênero, que naturalizam a associação entre mulher, maternidade e cuidados, ao lado da insuficiente provisão pública de serviços de acolhimento (Faur, 2012). Em relação a este último aspecto, cabe destacar o caráter muito recente de uma Política Nacional de Cuidados no Brasil, instituída apenas em dezembro de 2024 (Lei 15.069/24). No conjunto de dados obtidos por nossa pesquisa, destaca-se a iniciativa de um grupo de jovens mulheres que tinham empreendimentos relacionados à moda, estética e no campo da cultura. Diante das dificuldades de combinação de suas atividades profissionais, em grande medida realizadas a partir de suas próprias casas, e as atividades de estudos, trabalho doméstico e de cuidados e também da “cultura machista”, decidiram constituir um coletivo de mulheres. O coletivo Da Raiz ao Fruto, iniciado no ano de 2021, se constituiu como uma rede de 22 jovens mulheres por meio de três pilares: o cuidado com crianças e terceiros, os empreendimentos circulares, materializado através de ações de venda de roupas de brechós, livros usados, divulgação e consumo dos empreendimentos das jovens e a reflexão e debate de temas diversos. Particularmente em relação ao cuidado, havia um revezamento entre as jovens do grupo, garantindo com que todas pudessem dar conta das várias atividades que possuíam. Se o trabalho de cuidado não remunerado é parte do cotidiano de famílias das camadas populares no Brasil, muitas vezes nomeado como “ajuda” (Guimarães e Vieira, 2020), chamou-nos a atenção o modo como estas jovens buscaram construir uma saída coletiva para demandas pouco consideradas no conjunto de ações públicas destinadas aos jovens. Nos limites deste trabalho, os dados revelam a necessidade de avanços no olhar para as experiências de jovens que buscam combinar estudos e trabalho, considerando faixas de idade e as etapas da escolarização, mas também o tipo e a qualidade do trabalho realizado, incluindo nesta reflexão não apenas o trabalho remunerado, mas o trabalho não remunerado – doméstico e/ou de cuidados, e a centralidade das desigualdades sociais de classe, gênero e raça. REFERÊNCIAS CAMARANO, A.A. Introdução. In: Camarano, A.A; Pinheiro, L. Cuidar, verbo transitivo: Rio de Janeiro: Ipea, 2023.p.13-27. CARDOSO, A. 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