Introdução Nas pesquisas que desenvolvemos, no campo da educação, com os cotidianos, compreendemos que os movimentos éticos, estéticos, políticos e poéticos não são apenas importantes, mas essenciais para dar sentido aos caminhos trilhados. No dia a dia das nossas existências, pensamos e sentimos com todo o nosso corpo as múltiplas formas de criação com os artefatos tecnológicos curriculares presentes em nossas redes educativas (Alves, 2019). Dessa forma, refletimos sobre as questões que envolvem o ato de criar e pensar nos diversos espaços 'dentrofora' das escolas, atravessados por diferentes saberes e significados, pois “o cotidiano é aquilo que nos prende intimamente a partir do interior. É uma história a meio caminho de nós mesmos” (Certeau, 2012, p. 31). Nos estudos com os cotidianos, a comunicação é um elemento essencial na criação de relações e nas ‘redesdeconhecimentosesiguinificações’ ‘dentrofora’ das escolares. Entre as diversas formas, a conversa se destaca como um meio privilegiado de troca, aprendizado e criação coletiva. Nos cotidianos, ela se manifesta nos mais diversos contextos – nas salas de aula, nas salas dos professores, nos corredores, nos pátios e até mesmo nos portões –, constituindo-se como um processo vivo e dinâmico. A conversa, nesse sentido, como metodologia para o que nos propomos pesquisar, assume um papel fundamental, pois não apenas transmite informações, mas também potencializa experiências, significados e novas formas de pensar e agir. Desse modo, Alves e Ferraço (2018) inferem acerca da importância das conversas nas pesquisas com os cotidianos, pois elas evocam a intensidades das experimentações que nos movimentam, especialmente, na relação e na intensidade dos encontros. As conversas proporcionam o compartilhamento de ações e reflexões dos sujeitos e das suas realidades, estando também “[...] sujeitas às indeterminações e aos acasos que fazem das nossas vidas uma permanente abertura diante do imprevisto.” (Ferraço, Alves, 2018, p. 55). Sendo assim, as redes educativas são ‘espaçostempos’ em constante transformação, onde práticas e teorias se articulam de maneira fluida e dinâmica. Essas interações ocorrem com intensidades e sentidos diversos, dependendo do contexto, dos seus praticantes envolvidos e das ações que desenvolvem. Inúmeras pesquisas desenvolvidas nas relações educação e mídias têm permitido identificar modos como as crianças, os jovens e os adultos, com os professores em uma condição mediadora, vão tecendo redes em seus usos (Filé, 2000; Alves, 2004; 2005). Algumas outras pesquisas, desenvolvidas com os cotidianos, preocupadas com as relações que os docentes estabelecem com as diversas mídias, em várias gerações, vêm identificando as redes educativas com os 'conhecimentossignificações' que nelas vão sendo criados e articulados, buscando compreender o significado da criação de tecnologias nos 'usos' cotidianos de artefatos culturais colocados para consumo.” (Alves, 2019, 130). Enquanto navegamos pelos espaços escolares Os estudantes, em todos os seus níveis, vêm criando canais inusitados para os 'conhecimentossignificações' dentro das redes educativas que formam e nas quais se formam. Entretanto, o uso de celulares e outras tecnologias digitais tem sido um dos temas centrais nas discussões sobre educação. Se, por um lado, esses dispositivos ampliam as possibilidades de aprendizagem, conectando estudantes a diversas fontes de conhecimento e permitindo novas formas de interação, por outro, seu uso em sala de aula tem gerado preocupações sobre distração e impacto nas práticas pedagógicas. Nesse contexto, o Ministério da Educação (MEC) instituiu a proibição do uso de celulares nas escolas, orientando redes de ensino a restringirem o acesso a esses dispositivos durante as atividades escolares, inclusive nos intervalos. A medida tem a justificativa de priorizar a atenção dos alunos, reduzir distrações e fortalecer as interações presenciais. Essa decisão tem gerado debates entre educadores, pesquisadores e famílias. Enquanto alguns defendem a proibição como uma forma de garantir maior concentração e engajamento dos alunos nas atividades escolares, outros argumentam que a tecnologia, quando bem integrada ao ensino, pode ser uma aliada no processo de aprendizagem. Outro ponto de discussão é a viabilidade da medida na prática, considerando que muitos professores e gestores enfrentam desafios para fiscalizar o uso dos dispositivos e que, em alguns contextos, o celular também é uma ferramenta de apoio pedagógico, uma vez “[...] precisamos ir além da ideia de produtos, equipamentos, serviços e técnicas inventados” (Soares; Santos, 2012, p. 03). Com isso, essa proibição levanta questões importantes sobre as redes educativas que se formam ‘dentrofora’ das escolas. Como destacado por Alves (2019), os estudantes já se relacionam cotidianamente com diversas mídias e tecnologias, criando novas formas de 'conhecimentossignificações' que extrapolam os espaços formais de ensino. Proibir o uso do celular pode significar uma ruptura entre os saberes escolares e os modos de aprendizagem que os estudantes criam em seus cotidianos digitais. Muitos professores vêm explorando o celular como ferramenta pedagógica, promovendo atividades interativas, pesquisas instantâneas e criação de conteúdos, conectando a aprendizagem escolar às práticas digitais contemporâneas. As redes sociais, por exemplo, têm sido utilizadas por educadores para compartilhar vivências, dialogar com estudantes e ampliar os espaços de troca e produção de conhecimento. Surge, então, o desafio: em vez de simplesmente proibir, como podemos ressignificar o uso do celular na escola? Como criar práticas pedagógicas que integrem as tecnologias de forma crítica e criativa, sem perder de vista os desafios que elas apresentam? Essas questões nos convocam a pensar sobre a escola como um ‘espaçotempo’ em que as múltiplas redes de aprendizagens – presenciais e digitais – possam coexistir, contribuindo para a formação de cidadãos mais reflexivos e preparados para os desafios da contemporaneidade A proibição do uso do celular na escola não impede que os estudantes encontrem outras formas de interação e compartilhamento dentro dos ‘espaçostempos’ escolares. Mesmo sem acesso direto às telas, a lógica das redes sociais continua presente nas práticas dos jovens, que ressignificam suas formas de comunicação e expressão. Observa-se uma adaptação das dinâmicas digitais para o ambiente escolar, demonstrando que as redes educativas ultrapassam o uso dos dispositivos e se enraízam nas formas como os sujeitos se relacionam, aprendem e criam coletivamente, pois, “nesse contexto, um horizonte de oportunidades se vislumbra - o que nos permite dialogar, interagir, colaborar e compartilhar nossas ideias e produções” (Amaral, 2024. p. 27). Navegando pelas redes sociais, encontramos várias postagens de professores, compartilhando as criações dos alunos, que, mesmo sem o celular em mão, usam táticas e se comunicam de maneira bem-humorada com seus pares em sala de aula. Em uma dessas postagens, um aluno escreve o tradicional bilhete – aquele que passa de mão em mão pela sala – imitando publicações de redes sociais, ou seja, os alunos recriam digitalmente no papel aquilo que fazem online: postar conteúdos, reagir a interações e engajar em conversas que normalmente aconteceriam no ambiente virtual. Esse fenômeno sugere que, mesmo na ausência do celular, a lógica das redes sociais permeia as práticas comunicativas dos jovens, evidenciando o quanto essas plataformas influenciam sua maneira de se expressar e interagir. Seguimos navegando O desafio não está apenas em regular o uso dos dispositivos, mas em compreender como as tecnologias podem potencializar aprendizagens, ampliar interações e fortalecer práticas pedagógicas mais significativas. Ao invés de negar essas transformações, a escola pode se tornar um espaço de experimentação, no qual diferentes linguagens e formas de conhecimento coexistam, possibilitando a tessitura de ‘saberesfazeres’ mais conectados com a contemporaneidade. Em vez de tratar as redes sociais apenas como uma distração, podemos percebê-las como parte das confluências que atravessam os cotidianos escolares, onde diferentes formas de conhecimento, expressão e interação se entrelaçam. As tecnologias não estão separadas da experiência dos seus praticantes; pelo contrário, fazem parte de um fluxo contínuo de saberes que circulam e se reinventam nos espaços de aprendizagem. REFERÊNCIAS ALVERNAZ, Aline; SANTOS, Edméa. Instagram Como Ambiente Virtual de Aprendizagem na Formação de Professores na Cibercultura. Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, [S. l.], v. 5, n. 09, p. 35–52, 2023. ALVES, Nilda; FERRAÇO, Carlos Eduardo. Conversas em redes e pesquisas com os cotidianos: a força das multiplicidades, acasos, encontros, experiências e amizades. In: SAMPAIO, Carmen S.; RIBEIRO, Tiago; SOUZA, Rafael de (Orgs.). Conversa como metodologia de pesquisa – Por que não? Rio de Janeiro: Ayvu, 2018. p. 55-63. ANDRADE, Nívea; CALDAS, Alessandra Nunes; ALVES, Nilda. Os movimentos necessários às pesquisas com os cotidianos. In OLIVEIRA, Inês Barbosa de; SUSSUKIND, Maria Luiza; PEIXOTO, Leonardo (orgs). Estudos do cotidiano, currículo e formação docente - questões metodológicas, políticas e epistemológicas. Curitiba: CRV, 2019: 19-46. ALVES, Nilda. Práticas pedagógicas em imagens e narrativas: memórias de processos didáticos e curriculares para pensar as escolas hoje. São Paulo: Cortez, 2019. AMARAL, Mirian Maia do. A ciberpesquisa em educação: autorias e inspirações teórico-metodológicas do GPDOC - Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura. São Carlos: Pedro & João Editores, 2024. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano 1: artes de fazer. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano 2: morar, cozinhar. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012