ENTRE A PESQUISA E A DOCÊNCIA COM BEBÊS: O AFETO E O SENSÍVEL Este trabalho, desdobramento de uma dissertação, tem como objetivo discutir a docência na creche e as especificidades da ação pedagógica com bebês. A referida pesquisa de mestrado buscou compreender como os encontros sensíveis entre bebês e adultos em uma creche pública implicavam na constituição subjetiva de bebê, professora e pesquisadora. Também, como o olhar para esses encontros era emblemático na trilha de adensar as discussões do campo da Educação Infantil acerca da construção de uma docência entendida como relacional. Fundamenta este trabalho a compreensão da creche como lugar de ampliação de relações, de experiências plurais e como território inventivo mobilizador do sensível e, ainda, a perspectiva da creche como direito das crianças, desde os bebês, primeira etapa da educação básica, expressando uma opção política educacional brasileira (Brasil, 1996). Aqui, especialmente, mobiliza-se a atenção para a creche pública tendo em vista um cenário que indica a supressão de berçários em creches próprias em diversos municípios brasileiros e um incentivo ao aumento do atendimento aos bebês por vias das creches parceiras, indicando uma fragilização da creche pública - “própria” e do lugar dos bebês e, um distanciamento no processo de solidificação dos berçários nas creches públicas e de luta política pela qualidade do atendimento. A discussão a respeito da creche e das dimensões do trabalho docente povoa o campo de debates da Educação Infantil. Rocha (2001), em estudo pioneiro no campo, sublinhou como objeto da Educação Infantil, oferecida em creche e pré-escola, as relações educativas, mobilizando o entendimento da pedagogia da educação infantil como uma pedagogia das relações. A pesquisa empreendida por Gonçalves (2014) no catálogo de teses e dissertações da CAPES revelou uma docência com bebês marcada pelas relações e pelo compartilhamento de experiências. Schmitt (2014) propôs pensar a ação docente contornada e afetada no conjunto das relações que acontecem na creche. Essa perspectiva conjuga-se com as ideias de Coutinho (2017) acerca de uma docência com bebês sustentada na responsividade do adulto que observa que sua ação está relacionada à ação da criança. As pesquisas em destaque sublinham a relacionalidade como uma marca dessa docência, ou seja, uma docência que se faz na relação com os bebês. Na pesquisa de mestrado sugeriu-se colocar outras camadas na discussão da centralidade das relações compondo a constituição da docência e expressando o trabalho pedagógico com bebês com a proposição do afeto como modulador nas relações na interlocução com os estudos de Daniel Stern (1991, 1992, 2007). As análises empreendidas por Stern mediante observação, sem tarefa pré-definida, da relação entre mãe (ou adulto cuidador) e bebê, conjugadas à pesquisa e à clínica, expõem uma dimensão afetiva da experiência relacional, sobretudo, em um plano pré-verbal. Nas suas escritas salta um bebê que é multissensorial, sensível aos afetos que variam em seus crescendo, diminuindo, explodindo, e desejoso de estar com o outro, constituindo, ativamente, desde os primeiros dias de vida, sensos de si e domínios do relacionar-se que coexistem por toda a vida. Entre olhares partilhados, corpos em pendulação, sorrisos responsivos e microgestos cotidianos, modos miúdos, muitas vezes não verbais de estar com o outro, da ordem dos segundos, em presentidade (Stern, 2007), co-criados entre bebês e adultos em uma creche saltou o que o autor nomeou como sintonia afetiva (Stern, 1992). Ou seja, uma dinâmica relacional na qual ocorre uma equiparação com o estado afetivo interno do outro, exibindo um sentir partilhado que requer um esforço corpóreo-afetivo para o estar com, modulando-se em variações sensíveis, na relação, em co-presença atenta ao que se passa entre dois e entre mais que dois. A pesquisa de mestrado que inspira este texto sugeriu a nomenclatura uma cartografia em dois tempos para dizer do arranjo metodológico inventado para acompanhar os encontros entre bebês e adultos. O primeiro tempo da pesquisa aconteceu no berçário de uma creche pública na cidade do Rio de Janeiro, ao longo de um ano, e se compôs mais fortemente pelo caminhar na fronteira (ou melhor seria em composição) entre professora e pesquisadora. Na pesquisa propôs-se o hífen na junção dos dois termos entendendo que este arranjo comporta a dimensão da composição, afastando-se de um binarismo empobrecedor marcado por um ou isto ou aquilo. No primeiro tempo da pesquisa experimentou-se a organização de contextos, a produção de registros e algumas primeiras indagações. O segundo tempo da pesquisa foi marcado pelo movimento inventariante e inventivo da pesquisadora no encontro com os registros produzidos no primeiro tempo, ascendidos à arquivo. Com Munhoz e Aquino (2020) entendemos o arquivo como campo de possibilidades, como “um conjunto articulado de discursividades que se desloca, se transforma e se atualiza de modo permanente” (p. 314). O arquivo foi visto, revisto, organizado, reorganizado, acompanhado em suas intensidades, analisado; provocando escritas afetivas e inventivas. Nesse percurso, alguns sentidos despontaram, são eles: o olhar como convite, o brincar dos bebês com bonecas-bebês na tensão experiência cultural e repertório afetivo, e contextos e cenários como mobilizadores do sensível. Importante sublinhar a cartografia como aposta metodológica (Passos et al., 2009) para acompanhar os encontros entre bebês e adultos, seus movimentos, linhas traçadas e as partilhas sensíveis. Como metodologia de pesquisa, a cartografia comparece como possibilidade de caminhar com os bebês, em um caminhar que é mais atencional do que intencional (Ingold, 2015), modulado pelos afetos, desviando de linhas prévias, em abertura ao que pode tocar. Temos entendido também a cartografia como um modo de estar na pesquisa que não diz respeito apenas a um procedimento metodológico, mas que mostra uma ética e uma política na relação com a pesquisa (e com a docência e com a vida). Compôs o gesto do viver a pesquisa, o cuidado em relação a uma escrita em sintonia com a ideia de uma pesquisa processual, atencional e sensível aos afetos em variação. Na dissertação se faz presente o que chamamos de escrita afetiva e inventiva expressando o desejo por um modo de narrar o encontro entre bebês e adultos, de dentro, a partir dos afetos, em suas sutis variações vitalísticas, sublinhando o sentir partilhado como um componente importante na pesquisa e na docência. As escritas inventadas foram nomeadas de cena entendendo que esta palavra comporta melhor a dimensão do entre, do que ocorre em uma relação. Entende-se que o expressar de um sentir adulto é um modo de buscar o sentir do bebê, colocar-se em relação, constituindo visibilidades. Abaixo, uma das escritas afetivas e inventivas é destacada diante do desejo de discutir a docência na creche e as especificidades da ação pedagógica com bebês. Danilo é o primeiro a chegar na sala. E, tão logo chega, tão logo se aproxima do cenário preparado pelos adultos. O primeiro contato com a areia se dá por intermédio de uma colher que é posta a caminhar dentro de uma das bacias com areia. A colher parece ser, ao mesmo tempo, uma extensão da sua mão e um modo mais reservado de se aproximar da areia. De cócoras, Danilo transporta a areia da bacia verde para a prateada. Suas vocalizações-vibrações acompanham os momentos de despejo da areia na bacia prateada. Movimentos do corpo, modulações da voz e as materialidades estão em sincronicidade. Em um dado instante, percebo Melissa pousar o olhar em Danilo e em sua ação. Parece que suas vocalizações-vibrações em repetição capturam a atenção de Melissa a ponto de parar por um momento o seu fazer. Sua aparente surpresa é compartilhada comigo. Estou ali com eles, observando-os, filmando e fotografando. Melissa me olha e dá uma risadinha. Sinto que as vocalizações-vibrações de Danilo contagiam, fazendo Melissa vibrar de algum modo também. Sua vibração-encantamento expressa-se na forma de olhares partilhados com Danilo, com sua ação e comigo. Sua risadinha vem até mim como uma onda crescente. Sorrio também. Melissa pega uma pequena colher, levanta com ela em suas mãos e vai até um outro espaço da sala pegar uma boneca. Trata-se de uma boneca que recorrentemente é buscada por ela. Quais novos contornos a presença da boneca poderia acrescentar? Volta, senta-se próxima à bacia prateada com areia. Por um tempo, a boneca fica ao seu lado e a colher em uma das suas mãos. Sua outra mão, aberta, desliza pela areia, movimentando-a. Percebo-a também atentar-se para a sua mão que some e aparece (ainda que parcialmente). Sua mão, na pausa daquele encontro, ao ser tirada da bacia, abriga alguns pequeninos grãos. Enfim, Melissa acolhe a boneca em seu colo e braços. Com a colher em uma das mãos, vai buscando um pouco de areia na bacia e posicionando-a, em seguida, repetidas vezes, na boca da boneca. Cena de dezembro de 2022 De início, salta da cena um cenário/contexto criado pelos adultos com o desejo de provocar encontros e mobilizar o sensível e o acontecimental. Como se dariam os encontros e composições entre bebês, adultos e materialidades e o que emergiria deles? No primeiro tempo da pesquisa, os cenários/contextos, expuseram a composição pesquisa e docência (pesquisa-docência) sendo, ao mesmo, uma estratégia metodológica, um dispositivo de pesquisa; e um modo de atuar docente sutil, conforme têm indicado os estudos do campo da Educação Infantil (Coelho, 2015; Gonçalves, 2014; Rodrigues, 2021; Schmitt, 2014). Entre bebês, adultos, areia, potes e colheres, emergiram composições. Acompanhamos a areia ser transportada de uma bacia para a outra em uma ação na qual movimentos do corpo e vocalizações estiveram em sincronicidade. Acompanhamos aquilo que nasceu em um, contagiar o outro, convidando a um partilhar de um sentir, iniciado por um olhar que toca e convida para estar com. Acompanhamos corpos multissensoriais em encontros também multissensoriais e vitalísticos com a areia em sua intensidade: temperatura, textura, fluidez, peso/leveza... Na cena acompanhamos também a areia ser transformada em alimento, ao preencher uma colher e ser levada próximo à boca de uma boneca, em um brincar de alimentar e cuidar no qual um bebê-boneca foi acolhido no colo de uma bebê. Na ocasião da pesquisa, cenas de bebês em encontros múltiplos com bebês-bonecas foram frequentes: colos, gestos de acalentar e cuidar, encontros de olhares, brincadeiras partilhadas. O brincar de cuidar insinua afetos, afinal, o que se imita e cria, é aquilo que afeta, provoca. Memória, corpo, cultura e afeto estão enlaçados. No brincar de cuidar está em jogo a experiência afetiva do cuidado. O acompanhar atencional como gesto de pesquisa que se fez no primeiro tempo, no cotidiano com os bebês, e no segundo tempo, na inventariação dos registros, pode ser inspirador na invenção de uma docência com bebês na qual o acompanhar o bebê comparece como ação pedagógica. Trata-se de uma perspectiva de docência distanciada da hegemônica docência tarefeira e controladora dos percursos e, modulada pelo afeto e pela atenção conjunta. Nesse prisma, o acompanhamento, a organização de contextos/cenários e, também, o planejamento, são compreendidos como ações docentes de co-presença com adultos e bebês. Sugerimos aqui adensar a proposição da relação como constitutiva da docência e como eixo da pedagogia com os bebês com a atenção ao que temos chamado de dimensão relacional-afetiva, que vem à tona, como em um zoom, alargando o que ocorre no entre, em encontros por vezes não verbais, miúdos, muitos da ordem dos segundos, entre olhares, sorrisos e sincronicidade de movimentos. Assim, professora, bebê, docência e pesquisa são efeitos do entre. Invenções de si e de mundo; de professora, pesquisadora e bebê; de pesquisa e docência, se dão como em uma dança neste estar com. O sentir partilhado constitui um campo sensível que qualifica o que é pedagógico na creche; nesse sentindo, a prerrogativa da creche como direito é adensada com a proposição da creche como um espaço de garantia do direito aos afetos, ao olhar revidado, à atenção conjunta, à sintonia afetiva, em encontros responsivos. PALAVRAS-CHAVE: creche; bebês; relação; afeto; sensível REFERÊNCIAS BRASIL. Lei no 9.394. Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: CNE, 1996. COELHO, Flávia. Espaços e Tempos da Educação Infantil: investigando a ação pedagógica com os bebês. Dissertação (Mestrado em Educação). UFMG, Belo Horizonte, 2015. COUTINHO, Ângela Maria Scalabrin. A experiência de ser bebê na creche: o ator social e a constituição da docência. Humanidades e Inovação, Tocantins, v. 4, n. 1, p. 37-45, 2017. GONÇALVES, Fernanda. A educação de bebês e crianças pequenas no contexto da creche: uma análise da produção científica recente. Dissertação (Mestrado em Educação). 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