ENTRE A ESCRITA, A MONTAGEM E A IMAGINAÇÃO: DEVIRES DE UMA DOCÊNCIA DA DIFERENÇA

- 214809
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
Favorite this paper
How to cite this paper?
Abstract
ENTRE A ESCRITA, A MONTAGEM E A IMAGINAÇÃO: DEVIRES DE UMA DOCÊNCIA DA DIFERENÇA Do saltar do desejo O trabalho apresenta movimentos de pensamento de uma dissertação em processo de qualificação, da linha de pesquisa Educação Especial, Saúde e Processos Inclusivos do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De começo, o movimento disparador é o da escrita. A pesquisa surge do desejo de que algo se passe no entre das palavras, desde uma aposta no escrever como um ato de criação. Dessa forma, ela parte de um questionamento afirmador, quando concorda com Duras (2021, p. 82) de que “[...] deveria haver uma escrita do não escrito”, e quando, na companhia de Rodrigues e Damico (2018), questiona: o que será que disso poderia saltar? Os impulsos se encontram nos campos da educação e da diferença. Ensaiar saltos no entre desses campos, é parte do que a investigação procura. Seu objetivo está em ensaiar de que modo devires podem ser escritos em uma docência da diferença. Aqui, pensa-se a diferença como um limite que “detona”, nas palavras de Corazza (2013, p. 138), os “devires-docentes”, em uma aproximação do “impensável”, do “intolerável”, do “inimaginável” em educação. Para isso, utiliza-se o referencial da filosofia da diferença. Dos impulsos conceituais: devires, docências, diferenças O devir é de uma ordem múltipla. Escrevem Deleuze e Guattari (2024) que um devir acontece por contágio, produzindo alianças em todo o tempo imanentes. Os devires transformam dimensões; transpassam para gerar diferenciações. Eles operam em blocos, por meio das relações e das afetações que engendram. No entre dos encontros e dos desencontros, os devires tumultuam as identidades; eles causam inquietações e maquinam violências. Quem sabe, podemos dizer que algo se passa, no desencadear de um devir, misturando elementos heterogêneos. Contudo, são menos os elementos que dizem de um devir, do que os próprios processos de mistura, de agenciamento. Se o devir é um processo, é algo como: “[...] a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso [...]” (Deleuze; Guattari, 2024, p. 67). É no processo de devir que Corazza (2013, p. 119) parece perceber o docente da diferença, quando escreve que ele é um extrator de partículas, “[...] que não pertencem mais a como vive, pensa, escreve, pesquisa, mas são as mais próximas daquilo que está em vias de tornar-se, e através das quais ele se torna diferente do que é [...]”. Aqui, pensa-se a diferença como aquilo que difere para diferir, distante da força da identidade, pelo menos da identidade primordial, e da supremacia da representação. Deleuze (2024) aponta o apetite moral platônico de eliminar o simulacro como causa da submissão da diferença aos imperativos da representação. De outra maneira, ele aposta no simulacro como um “[...] sistema em que o diferente se refere ao diferente por meio da própria diferença” (Deleuze, 2024, p. 367). Em tais sistemas, não encontramos identidades prévias, mas multiplicidades que se desencadeiam implicando outras, variando as dimensões a partir da repetição. Nesse sentido, repetir é diferenciar. Deleuze (2024, p. 393) utiliza a noção nietzschiana do eterno retorno para pensar em um eterno retorno da diferença, sendo “[...] eliminadas pelo eterno retorno precisamente as instâncias que jugulam a diferença, que paralisam seu transporte, submetendo-a ao quádruplo jugo da representação”. Diz Deleuze (2024, p. 14), ainda, que se trata da tarefa de uma vida “[...] fazer com que coexistam todas as repetições num espaço em que se distribui a diferença”. Contudo, de que modos podemos afirmar essa tarefa? Em educação, docência e diferença aparecem como palavras carregadas de imagens colonizadas, majoritariamente com representações. É comum percebermos a diferença recebendo um estatuto adaptativo, proveniente de uma presumida aceitação para incorporação ao currículo majoritário, que se pauta na aprendizagem por recognição. Para que isso aconteça, associa-se a diferença com a noção de identidade. Porém, quando a pesquisa propõe movimentar a diferença no distanciamento desse âmbito, não significa que não reconheça os atributos da identidade, sobretudo no que diz da relevância dos processos identitários para a conquista de direitos. De forma correspondente, não se espera um afastamento absoluto, ocasionando uma supressão completa das representações ou dos estratos que, para Deleuze e Guattari (2022), são o organismo, a significância e a subjetivação. É em certo deslocamento, de aparições e de desaparições de devires, que encontramos o campo de estudo da dissertação. Se o docente da diferença é aquele que “[...] atravessa os limiares do sujeito em que se tornou, das formas que adquiriu, das funções que executa” (Corazza, 2013, p. 119), ele faz isso quando experimenta as oportunidades que os estratos podem proporcionar, criando desterritorializações. Assim, o docente torna-se capaz de “[...] vivenciá-las, assegurar aqui e ali conjunções de fluxos, experimentar segmento por segmento dos contínuos de intensidade, ter sempre um pequeno pedaço de uma nova terra” (Deleuze; Guattari, 2022, p. 27). Quem sabe, outro impulso para os movimentos que o projeto propõe possa ser: em um território povoado de verdades, como o da educação e o da diferença, de que forma podemos explorar pequenos pedaços de novas terras? Dos deslocamentos metodológicos: escritas, montagens, imaginação Na busca de uma aproximação do inimaginável, a escrita surge como uma operação que percebe no desenrolar dos inacabados um caminho interessante. “[...] sempre em via de fazer-se”, diz Deleuze (2019, p. 11) sobre o escrever, tomando-o também como algo da ordem dos devires. Com o objetivo da pesquisa em pensamento, ensaiar de que modo algo pode ser escrito, não é outra coisa senão escrever. Logo, não se trata de pensar categorias de escrita; mas de propor a escrita enquanto um dispositivo, com potencialidade de movimentar os conceitos de devir, de docência e de diferença. Na via do fazer-se, constitui-se uma dissertação composta de três seções rizomáticas, alicerçadas em movimentos resistentes aos estratos: desarticulação (para trabalhar os conceitos), experimentação (para trabalhar o percurso) e nomadismo (para saltar para fora) (Deleuze; Guattari, 2022). Traiçoeiras, operam para formar e para desformar uma escrita possível, ao passo que se imbricam e pouco denotam uma sequência. Assim, disserta-se caleidoscopicamente, não na busca de uma imagem simétrica, mas na procura de um deslocamento das cores, criando aparições e desaparições do que poderiam ser fragmentos escritos dos devires de uma docência da diferença. Os fragmentos, escritos pela pesquisadora, relacionam-se com as seções pela montagem. Didi-Huberman (2020) utiliza a expressão “mostração de diferenças”, quando se refere à montagem. Para ele, trata-se de “[...] montar o que não podemos ver, para, se possível, dar a pensar as diferenças entre algumas mônadas visuais [...] como uma forma de dar a conhecer apesar de tudo aquilo que é impossível ver inteiramente, aquilo que permanece inacessível como um todo” (Didi-Huberman, 2020, p. 197, grifos do autor). Assim, os escritos produzem imagens de pensamento, porém enquanto simulacros da diferença. Ou seja, pela escrita, criam-se imagens para pensar os devires de uma docência da diferença, sem a preocupação de que elas se tornem resultados, mas com o desejo de que possam ser, seguindo uma perspectiva menor, alguns saltos de imaginação. Do cair no pedaço de uma nova terra Por fim, espera-se que a pesquisa proporcione o desenvolvimento de uma espécie de política da imaginação (Rodrigues; Gai, 2023, p. 4), em que “[...] o uso da montagem é uma forma de colocar em relação às palavras, ou seja, uma ligação com a montagem como um espaço possível de imaginação”. Quem sabe, do salto do desejo de realizar uma pesquisa em educação da diferença, possamos cair em desterritorializações e reterritorializações dos fazeres docentes. Quem sabe, ainda, o escrever possa aparecer justamente como um desbravador dessas novas terras ‒ em pedaços pequenos, mínimos, imaginados. Afinal, nos diz Deleuze (2024, p. 15), que é necessariamente no ponto daquilo que não sabemos, ou que sabemos pouco, “[...] que imaginamos ter algo a dizer”. Palavras-chave: Devir; Docência; Diferença. REFERÊNCIAS CORAZZA, Sandra Mara. O docente da diferença: identidade e singularidade. In: CORAZZA, Sandra Mara. O que se transcria em educação? Porto Alegre: Doisa, 2013, p. 119-141. Disponível em: https://www.ufrgs.br/escrileiturasrede/. Acesso em: 16 fev. 2024. DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. 5 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2024. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 3. 2 ed. 3 reimp. São Paulo: Editora 34, 2022. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2. Vol. 4. 2 ed. 3 reimp. São Paulo: Editora 34, 2024. DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: Editora 34, 2020. DURAS, Marguerite. Escrever. Belo Horizonte: Relicário, 2021. RODRIGUES, Elisandro; DAMICO, José Geraldo Soares. Dispositivos Pedagógicos de Educação em Saúde Coletiva. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, Botucatu, v. 22, n. 64, p. 285-294, 2018. DOI: 10.1590/1807-57622017.0016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/icse/a/HKDBMnGvDvJD353VQPSsjwd/?format=pdf&lang…. Acesso em: 16 fev. 2025. RODRIGUES, Elisandro; GAI, Daniele Noal. Política da imaginação: a imagem como transcriação e criação de dispositivos pedagógicos na educação. In: 41ª REUNIÃO NACIONAL DA ANPEd, 2023, Manaus. Anais da 41ª Reunião Nacional da ANPEd, 2023, p. 1-6. Disponível em: https://anais.anped.org.br/sites/default/files/arquivos_1_47.. Acesso em: 22 fev. 2025.

Share your ideas or questions with the authors!

Did you know that the greatest stimulus in scientific and cultural development is curiosity? Leave your questions or suggestions to the author!

Sign in to interact

Have a question or suggestion? Share your feedback with the authors!

Institutions
  • 1 PPGEDU/UFRGS
Track
  • GT17 - Filosofia da Educação