ENTRE A COMUNIDADE E A ESCOLA NA CIDADE: PERCURSO EDUCACIONAL DE JOVENS NA AMAZÔNIA

- 214983
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
ENTRE A COMUNIDADE E A ESCOLA NA CIDADE: PERCURSO EDUCACIONAL DE JOVENS NA AMAZÔNIA INTRODUÇÃO A presente pesquisa se volta para as juventudes que fazem parte da população de Itacoatiara, mas que precisam atravessar o rio Amazonas diariamente para continuar os estudos na escola urbana, na transição do Ensino Fundamental para o Ensino Médio, uma vez que não veem na modalidade EM mediado por tecnologia, (que é ofertada nas imediações das comunidades onde moram), a possibilidade um futuro com mais oportunidades, no mercado de trabalho e no ingresso à universidade. Assim, falar da Amazônia, particularmente no espaço amazonense, onde está inserida a cidade de Itacoatiara, consiste em considerar os diversos desafios ligados à ordem ambiental, social, política, histórica, cultural e, sobretudo geográfica, isso porque os cenários amazônicos têm se revelado múltiplos, mediante à ação humana, tanto no que diz respeito à degradação do meio ambiente, quanto em relação à importância do processo educacional, assumindo uma postura de luta, na tentativa de combater o descaso e o desrespeito, no tratamento com a Amazônia, sobretudo pelo poder público, grandes latifundiários, garimpeiros, entre outros que, visando a exploração das potencialidades desta terra, com interesses capitalistas, colaboram para a perpetuação das desigualdades sociais na nossa região, pois o percentual de pessoas em situação de vulnerabilidade em 2022, no Amazonas foi de 2.293.974, representando 55, 1% da população e 16,9% no total da região (IBGE, 2022). É ancorada nesse cenário, composto por diversos elementos relacionados ao contexto amazônico e à identidade dos agentes da pesquisa, que a presente investigação vem se delineando, pois além do histórico esquecimento por parte dos governos, mediante à escassez de políticas públicas educacionais para estes jovens, é necessário melhorar as condições de acesso à escola, uma vez que a história do EM mostra que há uma urbano centralidade na sua oferta. Como observado por Bourdieu (2003, p. 153) “seria necessário pelos menos analisar as diferenças entre as juventudes, ou, para falarmos depressa, entre as duas juventudes”. Elegeu-se como questão problema: Qual o alcance das políticas de acesso e permanência para a escolarização destes jovens, no cenário amazônico? O objetivo geral consiste em analisar o alcance das políticas de acesso e permanência no EM, para a escolarização de jovens no interior do Amazonas. De modo específico, evidenciar as Políticas Públicas Educacionais para o EM, conhecer o valor das estratégias pessoais e familiares para a escolarização e refletir acerca da noção das juventudes amazônidas. METODOLOGIA O caminho metodológico percorrido constituiu-se pela pesquisa de abordagem qualitativa, partindo da realidade social a ser investigada pela ótica da subjetividade, amparada em Minayo (2010, p. 47), “é objetivo desse modelo de pesquisa a tentativa de interpretação dos aspectos psicológicos, sociais, econômicos e individuais” em que a juventudes amazônicas estão inseridas. A pesquisa ampara-se na Sociologia Crítica de Pierre Bourdieu, pois sua visão sobre o mundo social se estrutura na oposição entre dominantes e dominados. A comparação entre o atual contexto educacional brasileiro, a partir do Novo Ensino Médio e as análises feitas em 1950 na França, bem como outras regiões da Europa, quando os autores chamam a atenção “até o final dos anos 50, as instituições de ensino secundário conheceram uma estabilidade muito grande fundada na eliminação precoce e brutal das crianças oriundas de famílias culturalmente desfavorecidas” (Bourdieu; Champagne, p. 290, 2023). Nesse sentido, a reforma do Ensino Médio causa não só um expressivo retrocesso, como também um processo de exclusão na trajetória educacional das juventudes, sobretudo quando se refere aos jovens das regiões mais longínquas, isso porque estabelece uma divisão entre os que continuam tendo acesso ao ensino de boa qualidade e a grande população da escola pública que fica limitada ao acesso a um ensino técnico de baixa qualidade, como acontecia na década de 1990 no Brasil. A construção do conhecimento a que se propõe neste estudo só será possível a partir da escuta destas juventudes, e nesse sentido o Grupo Focal (GF) mostrou-se como instrumento para reunião de informações com potencial para assim fazê-lo. De acordo com Gondim (2003, p.152), o uso dos grupos focais está relacionado com os pressupostos e premissas do pesquisador. “Alguns [...] os veem como promotores de autorreflexão e da transformação social e há aqueles que os interpretam como uma técnica para a exploração de um tema pouco conhecido, visando o delineamento de pesquisas futuras”. A técnica utilizada para a interpretação de dados se deu pela análise de conteúdo, que, conforme Bardin (1977), define a metodologia como: um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens (Bardin, 1977, p. 48). Em nossa pesquisa, analisar o conteúdo das trocas promovidas nos encontros do GF com os jovens apresenta um potencial significativo no sentido do acesso às suas histórias familiares, pessoais e coletivas, pois morando do outro lado do rio, atravessam cotidianamente um trajeto fluvial para frequentar uma escola pública urbana, em Itacoatiara-AM. DISCUSSÃO DE RESULTADOS PARCIAIS A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (Lei nº 9.394/1996), em seu artigo 4º determina que a frequência à educação básica é obrigatória dos 4 aos 17 anos de idade. Sendo que entre os 15 a 17 anos, estima-se que os jovens estejam cursando o ensino médio. Por isso, a Meta 3 estabeleceu que, até 2024, 85% dos jovens de 15 a 17 anos deveriam cursar o ensino médio. O atendimento da Meta está relacionado à garantia, por parte do Estado, de atendimento educacional para toda a população, independentemente de sua idade, origem social e local de moradia. Gráfico 1 - Percentual da população de 15 a 17 anos de idade que frequentava a escola ou havia concluído a educação básica, por localização – Brasil – 2012-2019/2022-2023 Analisar por local de residência é um exercício que nos aproxima ainda mais do nosso objeto de tudo, pois a análise dos dados revela a continuidade das desigualdades no acesso à escola entre os jovens de 15 a 17 anos que moram em área urbana ou rural. Os dados são de 94,6% para as áreas urbanas e de 90,3% para as áreas rurais, mas as duas áreas demonstram queda em relação ao ano anterior, e um avanço muito pequeno, em mais de uma década, quando comparamos o início da série histórica, conforme observemos no Gráfico 1: Fonte: Relatório do 5º ciclo de monitoramento das metas do Plano Nacional de Educação (2024). Uma grande parcela dos jovens que estão inseridos nas escolas da cidade, vêm de uma realidade diferente da área urbana, de um espaço, situado às margens do rio, que não tem garantido as mínimas condições de um percurso educacional mais tranquilo e com oportunidades de inserção qualificada no mercado de trabalho e acesso às universidades públicas. Essas demandas são as mais sofríveis e necessitam de ações efetivas do Poder Público para que a estas juventudes seja assegurado o direito à educação. Dayrell (2016, p. 184) nos lembra de que “o local de moradia deixa de ser marca somente das desigualdades econômicas, para exercer impactos sociais e culturais, especialmente no que tange ao acesso a determinados bens e serviços”. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao abordar a análise das políticas públicas e a garantia da educação como direito universal, destacamos a importância do Documento Final da CONAE 2024, com vistas ao novo Plano Nacional de Educação, para afirmar a o acesso e a permanência e “sucesso” no percurso educacional das juventudes brasileiras, focando no caso desta investigação, na população juvenil que precisa atravessar o rio diariamente para chegar à escola na cidade, pois esse caminho revela grandes desafios para o projeto de educação popular e democrática, destacamos o compromisso que o conjunto do Documento revela, pelo repúdio ao modo como a educação tem sido atacada; a insuficiência no papel do Estado e o espaço dado à iniciativa privada nas reformas educacionais. REFERÊNCIAS BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. BOURDIEU, Pierre. Questões de Sociologia. Lisboa: Fim de Século, 2003. BOURDIEU, Pierre. Os excluídos do interior. In: NOGUEIRA, M. Alice; CATANI, Afrânio (Orgs). Escritos de Educação. 17. ed. Rio de Janeiro. Petrópolis, Vozes, 2023. p. 290- 301. BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades e Estados do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/am/itacoatiara/panorama. Acesso em: 20 de jun. de 2023 BRASIL. Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Relatório do 5º ciclo de monitoramento das metas do Plano Nacional de Educação. Brasília, DF: Inep, 2024. CONFERÊNCIA NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONAE), 2010, Brasília, DF. Construindo o Sistema Nacional articulado de Educação: o Plano Nacional de Educação, diretrizes e estratégias. Documento Final. Brasília: MEC, 2010. Disponível em: https://pne.mec.gov.br/images/pdf/CONAE2010_doc_final.pdf. Acesso em: 20 dez. 2024. DAYRELL, Juarez. Por uma pedagogia das juventudes: experiências educativas do Observatório da Juventude. 1. ed. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2016. GONDIM, Sonia. Grupos focais como técnica de investigação qualitativa: desafios metodológicos. Paidéia. 2003. MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 29. ed. Petrópolis, RJ: Vozes. 2010.

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Institutions
  • 1 UFAM - Universidade Federal do Amazonas
Track
  • GT14 - Sociologia da Educação