EDUCAÇÃO DO E NO CAMPO: CONCEPÇÕES EM DISPUSTA O artigo situa-se na área da educação do e no campo. O objetivo é analisar as concepções de Educação Profissional Rural e da Educação Profissional do Campo, a fim de compreender como essas abordagens influenciam as práticas pedagógicas e os processos de produção no espaço agrário brasileiro. Nesse espaço, os projetos de desenvolvimento são sustentados por dois modelos que se encontram em disputa entre a classe dominante e os movimentos sociais do campo: o primeiro – Educação Profissional Rural – é orientado pela lógica do capital, com ênfase na agricultura empresarial e caracterizado pela produção de mercadorias para o mercado interno e exportador e maximização da produção e do lucro; o segundo – Educação Profissional do Campo – é orientado pela agricultura camponesa e visa a produção de alimentos e a reprodução da vida, com foco no abastecimento local (Abramovay, 2007; Macedo; Bicalho, 2019). A Educação Profissional Rural tem sido promovida no Brasil por instituições patronais como o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e a sua concepção teórico-metodológica possui similaridades com a Educação Rural, cuja gênese, segundo Fernandes e Molina (2004), está vinculada à ideologia latifundista, ao assistencialismo e a dominação privada sobre a terra e aos sujeitos que a habitam. O SENAR a define como, [...] um processo educativo, sistematizado, que se integra aos diferentes níveis e modalidades da educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia, objetivando o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes para a vida produtiva e social, atendendo às necessidades de efetiva qualificação para o trabalho com perspectiva de elevação da condição socioprofissional do indivíduo (Senar, 2016, p. 25). Como se pode inferir, a formação profissional por esse modelo tem o viés da formação restrita e aligeirada para o mercado, da empregabilidade, visando atender aos setores produtivos rurais e, como tal, se alinha à perspectiva tecnicista da teoria do capital humano, que buscar justificar a maximização da produtividade e do lucro, com base no trabalho humano individual e desprovido de autonomia. Já a Educação Profissional do Campo, que emerge no contexto da luta dos movimentos sociais pelo acesso à terra, à infraestrutura de produção e ao conhecimento solidário, tendo por base as experiências pedagógicas e reflexões construídas no contexto da educação do e no campo. Essa concepção propõe uma formação ampla, mediante a integração dos conhecimentos construídos historicamente com os específicos para a formação profissional do campo, estando, pois, alinhada a uma perspectiva de desenvolvimento onde o trabalho e os trabalhadores ocupam a centralidade e se constituam como sujeitos e como classe, na construção de um projeto histórico que possibilite a geração de vida e identidade (Caldart, 2010). METODOLOGIA Neste estudo, foi utilizada a abordagem qualitativa, baseada em três princípios: a contextualização, a compreensão dos processos sociais e a interpretação dos significados atribuídos pelos participantes, considerando o contexto no qual os fenômenos acontecem (Minayo, 2014). As informações foram analisadas a partir do método dialético por ser, segundo Gatti (2002) aquele que em relação às demais, fornece maiores possibilidades epistemológicas para se analisar o objeto investigado em suas múltiplas e concretas determinações históricas, sendo este bastante utilizado em pesquisa de perspectiva subjetiva. RESULTADOS A Educação Profissional Rural está intimamente relacionada ao processo de modernização da agricultura, o qual se caracteriza pela adoção de pacotes tecnológicos fundamentados no uso intensivo de insumos químicos e na prática do monocultivo e da degradação do meio ambiente. Sob essa perspectiva, configura-se a agricultura empresarial brasileira, a qual, no contexto histórico contemporâneo, é denominada como agronegócio (Macedo; Bicalho, 2019). A matriz pedagógica da formação profissional promovida por essa concepção de educação, baseia-se em uma ciência cartesiana e positivista, que fragmenta o conhecimento e desvaloriza os saberes tradicionais dos agricultores (Froehlich, 2010), perpetuando uma formação que atende à reprodução do agronegócio e desconsidera as especificidades do contexto rural brasileiro. Marinho (2016) alerta que a formação desconectada da realidade local dos agricultores, prejudica a atuação profissional no campo e tornando-a limitada diante da complexidade do campesinato. Já a concepção da Educação Profissional do Campo, tem o potencial de proporcionar formações emancipadoras, capacitando os trabalhadores a se tornarem sujeitos críticos e atuantes, capazes de intervir de maneira consciente e transformadora na realidade local, o que possibilita a construção de novas relações no campo fundamentadas no diálogo entre saberes científicos, técnicos e populares (Caldart, 2010). Nesse sentido, essa concepção de educação defende a formação de agricultores alicerçada em valores coletivos e solidários, com ênfase na valorização da cultura e dos saberes tradicionais, na preservação dos recursos naturais e no uso sustentável da tecnologia. Essa abordagem busca, pois, superar a formação fragmentada e autoritária que ainda predomina na qualificação profissional para o campo, a qual, em sua maioria, visa exclusivamente a formação de trabalhadores voltados para o mercado de trabalho. (Froehlich, 2010). A Educação Profissional do Campo não se limita à formação técnica estreita e aligeirada e, sim, integra uma perspectiva mais ampla de transformação social, articulando a luta dos movimentos sociais do campo com os princípios da agroecologia e da sustentabilidade. Isso contribui para descaracterizar a visão tradicional de que os agricultores são meros "expectadores" do desenvolvimento rural, e reforça sua capacidade de influenciar positivamente os processos de mudança no campo (Marinho, 2016). Por sua vez, essa Educação Profissional será ofertada para os sujeitos que vivem no meio rural na perspectiva de uma Educação do Campo, construída no seio da luta dos movimentos sociais do campo, que nega a formação de caráter urbana e se contrapõem a ofensiva do capital no meio rural, com princípios e características articuladas ao modo de produção da existência dos sujeitos do campo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base nas reflexões apresentadas, é possível perceber que a Educação Profissional Rural, reforça a reprodução de um sistema agrícola voltado para a industrialização e monocultura, distantes das realidades e necessidades locais dos agricultores. Essa abordagem tem se mostrado limitada e desconectada da complexidade do contexto rural brasileiro, o que prejudica a atuação dos profissionais e a sustentabilidade dos processos de desenvolvimento no campo. Já a Educação Profissional do Campo, com seu enfoque emancipatório, é uma alternativa capaz de transformar esse cenário, ao integrar saberes científicos, técnicos e populares, e valorizar os conhecimentos tradicionais dos agricultores. Nesse sentido, não é apenas uma formação técnica, mas uma ferramenta essencial para a construção de novas relações no campo, fundamentadas na participação ativa, solidário e na construção de um futuro justo e sustentável. REFERÊNCIA ABRAMOVAY, R. Paradigmas do Capitalismo Agrário em Questão. 3 ed. São Paulo: Edusp, 2007. CALDART, Roseli Salete. Educação Profissional na perspectiva da Educação do Campo. In: CALDART (org.) et al. Caminhos para a transformação da escola: reflexões desde práticas da licenciatura em educação do campo. 1 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010. FERNANDES, Bernardo Mançano; MOLINA, Mônica Castagna. O campo da Educação do Campo. In: MOLINA, Mônica Castagna; JESUS, Sônia Meire Santos Azevedo de (orgs.). Contribuições para a construção de um projeto de Educação do Campo. Brasília: Articulação Nacional Por Uma Educação do Campo, 2004. FROEHLICH, José Marcos. A novelesca reforma curricular das ciências agrárias e a sustentabilidade: novas demandas, velhos problemas. Rev. Bras. de Agroecologia. 5(2): 3-15 (2010). GATTI, Bernardete A. A construção da pesquisa em educação no Brasil. Brasília, DF: Plano, 2002. MACEDO, Pedro Clei Sanches; BICALHO, Ramofly. Educação Profissional Rural versus Educação Profissional do Campo: uma análise gramsciana da atuação do SENAR e dos movimentos sociais camponeses. Revista Trabalho Necessário 17(34), 192-214. MARINHO, Dalcione Lima. Rompendo cercas e construindo saberes: a juventude na construção da educação profissional do campo no sudeste do Pará. Recife: Imprima, 2016. Minayo, Maria Cecília Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde 14 ed. São Paulo: Hucitec; 2014.