EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA, FEMINISMO E FORMAÇÃO CONTINUADA

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA, FEMINISMO E FORMAÇÃO CONTINUADA “Paulo Freire disse: - A educação não muda o mundo. Muda as pessoas que vão mudar o mundo. E eu assinalo: - E as pessoas que vão mudar o mundo serão feministas.” Iria Marañón, 2020. PALAVRAS INICIAIS O presente ensaio é fruto da organização da rede feminista, criada a partir do Grupo de Estudos Feministas Lélia Gonzalez, vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nosso objetivo principal é socializar o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo grupo e seus impactos no cotidiano das mulheres que o compõem. Compreendemos, a partir do que já foi escrito na educação popular, principalmente por Carlos Rodrigues Brandão, que a educação é feita em diferentes espaços, através dos processos da vida. Portanto, a educação ultrapassa os limites do presencial, formal e sistematizado pelos espaços formais da educação. Logo, este artigo é pensado de forma articulada com a educação, as lutas feministas e antirracistas, mostrando que a educação precisa ter “lado” (Freire, 2021). Movimentos sociais, grupos étnico-raciais, mulheres do Sul global, principalmente as latino-americanas e caribenhas, tensionaram o diálogo com o movimento feminista hegemônico — constituído em sua maioria por mulheres brancas — problematizando questões referentes ao diálogo interseccional acerca de raça, gênero, classe e diversidade (Vergè, 2021). Por meio dessas problematizações, esses grupos se organizam e criam redes. Tratamos aqui essencialmente das redes feministas, que mobilizam o combate à pobreza, ao machismo, ao racismo institucional e cotidiano, as desigualdades, a misoginia, a violência doméstica, o feminicídio e outras práticas de opressão (Castro; Céjas, 2023). O lugar de que falamos é o lugar de posicionamento, de resistência das mulheres que constroem redes feministas em seus cotidianos e, mais que isso, buscam estremecer a ordem estruturante imposta pela sociedade patriarcal, capitalista e neoliberal. A base dessa ordem nunca nos coube. Portanto, radicalizar e ir à luta com amorosidade, termo cunhado por bell hooks (2020), tornou-se cotidiano. CONTEXTUALIZANDO O GRUPO LÉLIA A luta pela liberdade e contra a opressão, bem como o enfrentamento da violência, das desigualdades e da exclusão social faz parte de nossa realidade, pois sabemos que nossos passos vêm de longe. Assim, construímos redes e, de forma coletiva, sonhamos para além das cercas da opressão, unindo-nos às pessoas que participam das atividades do Grupo de Pesquisa para criar a possibilidade de um mundo novo, sustentado pela luta antirracista, feminista e pela defesa dos Direitos Humanos. Dessa maneira, no Brasil, o ativismo de outros coletivos tem intensificado as práticas e discussões para o aquilombamento. Neste caso, por exemplo, o Instituto Lélia Gonzalez, o Instituto Marielle Franco, o Mulheres Decidem, resistem e, assim como as redes feministas, marcam a história de luta contra o patriarcado. Importante destacar que o Grupo surge em um cenário político em que a única possibilidade era a de resistência. O até então presidente, Jair Messias Bolsonaro, consolidou-se com o bordão já por nós conhecido: “Homem branco, honesto, cristão e patriota” propagando a cultura política brasileira pautada naquilo que e a extrema direita acredita ser princípios, valores e costumes associados à moral, à religião e ao patriotismo. O discurso do mencionado ex-presidente foi validado nas urnas, e a maioria de votos levou à sua eleição para presidente da República. Desde o início do (des)governo (2019-2022) que assombrou o país, buscamos formas de nos mantermos unidas, resistindo às mais diversas formas de opressão. Além disso, é possível afirmar que: [...] não é possível falar da criação e desenvolvimento do grupo sem falar do contexto político e social no qual ele está inserido: um cenário negacionista, de profundo ódio político o qual ameaça os direitos das mulheres, negras(os) e pobres, ainda por cima, em meio a uma grande crise sanitária (Castro et al., 2023, p. 156). Nesse mesmo contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia de COVID-19, instaurando uma crise sanitária global. Diante de um cenário marcado pelo negacionismo, pela intolerância e pelo isolamento, como manter as redes e a união? O Grupo Lélia Gonzalez foi construído para fortalecer vínculos entre mulheres comprometidas com as lutas sociais, conforme já mencionado. Desde o dia 14 de setembro de 2020, dia da oficialização do Grupo Lélia, compartilhamos pesquisas, desenvolvemos e criamos estudos e “escrevivências” (Evaristo, 2020). Traçamos o caminho do dialógico e da formação por meio de cursos e formações que organizamos desde que compreendemos a importância de nossas redes. Em um contexto geral, o grupo tem como um de seus principais objetivos a disseminação e a valorização da ciência e dos estudos acadêmicos, mas, sobretudo, compartilha a luta com afetividade e amorosidade (hooks, 2020). Nosso cotidiano é a pesquisa militante. É na luta que a gente se encontra e, é nas redes que encontramos forças para continuar os diálogos e partilhas desde o início. METODOLOGIA A metodologia deste trabalho, assim como temos feito desde o período de nossa criação, é comprometida com a educação e o feminismo, na trincheira da luta cotidiana para um “mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” (Luxemburgo, 2018) O movimento que fazemos é o de buscar conhecer e reconhecer o nosso passado, conectadas com a ancestralidade, para que consigamos entender o presente e não somente prepará-lo, mas também revolucioná-lo para o futuro. Bartra (1998) nos aponta que a metodologia feminista é feita a partir do ponto de vista das mulheres, para mulheres e com as mulheres. Atrelada à metodologia feminista, trabalhamos com pressupostos de uma pesquisa participante (Brandão, 1986), tendo em vista o caráter político que assumimos. Servindo como uma alternativa teórica-metodológica, a pesquisa participante rompe com os modelos das ciências humanas e sociais baseadas em uma lógica positivista e eurocêntrica. Freire (2018) aponta que o ato de participar pode ser percebido como um exercício de ter voz, exercitando a cidadania, para que possamos lutar por justiça e emancipação social. UTOPIA E FORMAÇÕES POLÍTICAS DO GRUPO Principalmente após a ascensão das forças “conservadoras” e o espaço que conquistaram por meio do discurso de ódio, já falávamos, mesmo antes de oficializar o Grupo, da necessidade de socializar o que fazíamos, de alcançar pessoas fora dos muros da universidade, levando as discussões de forma acessível para todas as pessoas. Quando iniciamos as nossas atividades, contamos com colegas de todas as regiões do Brasil, de Norte a Sul. E, mais que isso, o Grupo foi construído mesmo em meio a ataques racistas, fascistas e misóginos. Apesar desses ataques, o Grupo se manteve forte e atuante com ações de pesquisas, grupos de estudos, cursos de formação e eventos acadêmicos, além de ativismo em redes sociais. Hoje, contamos com uma série de ciclos formativos e cursos de verão. Mas, o que de fato temos proposto? Três eventos realizados pelo grupo se destacam: o I Seminário do Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares Lélia Gonzalez; I Congresso Internacional do Grupo; e recentemente, o II Congresso Internacional do Grupo. Em novembro de 2020, o primeiro evento promovido pelo Grupo contou com 1.091 pessoas inscritas. Transmitimos o evento de forma online para que pudéssemos nos manter conectadas mesmo em meio a uma pandemia. O I Congresso Internacional do Grupo Lélia Gonzalez, realizado em novembro do ano seguinte, teve como objetivo principal debater questões relacionadas aos movimentos sociais, direitos humanos, gênero, desigualdades sociais, violências, educação popular e teorias decoloniais no campo das ciências humanas e sociais. O congresso reuniu pessoas de vários seguimentos, incluindo docentes, militantes e ativistas das cinco regiões do Brasil, além de colegas da Argentina, Colômbia, Cuba e Porto Rico. O evento contou com a apresentação de 100 trabalhos. É importante destacar que os trabalhos mencionados não pertencem apenas ao meio acadêmico, mas também constroem conhecimento a partir do cotidiano e da luta. O último e mais recente evento foi o II Congresso Internacional Lélia Gonzalez: educação e democracia, realizado em novembro de 2024. O objetivo principal do evento foi debater questões ligadas aos movimentos sociais, direitos humanos, gênero, desigualdades sociais, violências, educação popular e teorias decoloniais do campo das ciências humanas e sociais. Nosso ponto de partida para essas reflexões foram às análises de pesquisas e ações insurgentes e insubmissas de vozes dissidentes, sobretudo da América Latina e Caribe. O que mais se destacou ao longo da construção e trajetória deste evento foi a alta procura por submissão de trabalhos. Havia uma forte vontade das pessoas de socializar as inquietudes e compartilhar o que vêm construindo ao longo da vida. Dessa vez, para que conseguíssemos incluir todas, dividimos o congresso em dez Grupos de Trabalho (GT), com 186 apresentações. Os trabalhos apresentados irão compor os anais, que já estão em fase de editoração. Além disso, destacamos as nossas ações formativas, que foram iniciadas juntamente com a ideia de criação do grupo e seguem acontecendo até a presente data. No início, promovemos Grupos de Estudos para compartilhar leituras de textos que provocassem reflexões sobre as ordens sociais e abordassem pautas ausentes na agenda de quem detém o poder. Desde então, contabilizamos 26 formações pensadas e construídas para a participação de todas as pessoas, inclusive daquelas que não estão ocupando formalmente uma cadeira no espaço universitário, mas que compõem a luta conosco. As formações abordam temas como: “educação para as relações étnico-raciais”; “educação feminista”; “educação antirracista”; “como identificar o enfrentamento de violência contra mulheres”. E ainda, as vidas, obras e legados de mulheres que compõem a história da nossa luta, como Lélia Gonzalez, Maria Carolina de Jesus e Angela Davis. O que compreendemos, portanto, é que os conhecimentos compartilhados e as pesquisas realizadas durante as atividades do grupo se mantêm vivos e se movimentam mesmo em meio às adversidades do período que vivemos. Criamos e reconhecemos forças de resistência, seguimos resistindo e caminhando contra as adversidades, comprometendo-nos com as lutas e compreendendo que neutralidade e imparcialidade não são possíveis no contexto da criação e fortalecimento da rede feminista Grupo Lélia Gonzalez. CONSIDERAÇÕES FINAIS Em nossa caminhada utópica de forjar abordagens, análises e reflexões insurgentes, insubmissas de vozes dissidentes, estávamos e seguimos a contrapelo de uma sociedade racista, classista, sexista e LBGBTfóbica. O grupo, que chamamos de nosso, reivindica a liberdade das mulheres, da classe trabalhadora, das populações indígenas e do povo preto dentro e fora da academia, assim como nos ensinou Lélia Gonzalez. Pensado e feito a muitas mãos, nos construímos e nos fortalecemos por meio das redes. Como consequência dessa luta, o encontro entre mulheres se tornou parte fundamental de nosso cotidiano. O sinônimo do grupo é a resistência. Nascido em um contexto político e social conturbado, em meio à pandemia de COVID-19, vivenciamos o desmonte e o sucateamento de políticas públicas voltadas principalmente para populações historicamente excluídas. Mesmo diante das incertezas, nos mantivemos unidas, nos reunimos e continuando a trilhar caminhos lindos e poéticos, sem deixar que a amorosidade da luta caísse no esquecimento. Foi assim que encontramos formas de resistir diante da barbárie. Foi assim que encontramos uma forma de continuar esperançando em tempos de ódio. Os passos que vêm de longe, conforme afirmado ao longo deste trabalho, têm se expandido pelos países da América Latina. O grupo é composto por muitas mulheres, com trajetórias distintas e é assim que temos construído nossas formações. Quantas mulheres você tem lido? Quantas estão nas ementas, em seu referencial durante desenvolvimento das pesquisas? O difícil movimento de viver a contrapelo do patriarcado e de tudo que é excludente é feito pelo grupo, que é formado majoritariamente por mulheres da América Latina e Caribe, que é o “Lélia”. Assim como nos ensinou o legado de Lélia Gonzalez, buscamos, enquanto rede feminista, a liberdade das mulheres, da classe trabalhadora, das populações indígenas e da população preta dentro e fora dos muros acadêmicos. Deste modo, aqui temos uma busca da prática feminista e nossas novas redes de resistências. REFERÊNCIAS BARTRA, Eli. (Org.). Debates em torno de uma metodologia feminista. México, D.F.: UNAM, 1998. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Saber e ensinar: três estudos da educação popular. Campinas: Papirus, 1986. EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado. Escrevivência: a escrita de nós - Reflexões sobre as obras de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018. hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2020. LUXEMBURGO. Rosa. Rosa Luxemburgo II. São Paulo. Editora Unesp, 2018. MARAÑÓN, Iria. Educar a Un Nino En El Feminismo. Barcelona. Plataforma Editorial 2020. VERGÈ, Françoise. No todas feministas son blancas. Santande: Editora Lá Vorágine, 2021.

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