ECOS DA PRESENÇA INDÍGENA NO PPGEDU/UFRGS Iniciei a fazer pesquisa com povos Guarani e Kaingang no limiar do século XXI. Na primeira década meu com-viver e aprender se deu nas aldeias, praticando o estar-junto afetivo (Maffesoli, 2001), base da etnografia. Pratiquei o que a antropologia chama de “mergulho”, compartilhando situações de vida em territórios indígenas do Sul do Brasil: minha pergunta principal era acerca da educação própria, da escola e da relação entre ambas. Esses povos, aos poucos, foram chegando na universidade e, com isso, nossa convivência passou a ser, majoritariamente, nos espaços acadêmicos, conquistado com as lutas do movimento indígena. Foram criadas políticas afirmativas no âmbito de universidades públicas para ingresso e permanência no ensino superior de grupos sociais historicamente furtados desse direito, entre eles os povos indígenas, inicialmente por iniciativas individuais das instituições de ensino e, depois, como uma política de Estado, com a aprovação da Lei Federal 12.711/2012, atualizada pela Lei n° 14.723/2023. A presença indígena nos cursos de graduação nas IESs do país já é um fenômeno consolidado, com muitos egressos atuando em órgãos indigenistas e em políticas públicas, inclusive no campo da educação. Outros, seguem na universidade ou a ela retornam para ocupar espaços de pesquisa, nos cursos de mestrado e doutorado, com olhos para o horizonte próximo que anuncia a universidade indígena no Brasil. É sobre a repercussão desta presença na pós-graduação stricto sensu que trata o presente trabalho. Anteriormente, me dediquei a compreender quem são estes intelectuais que buscam os espaços de pesquisa para fazer mestrado e doutorado, intelectuais que já vem de seus territórios com uma formação das sabedorias ancestrais e buscam complementá-la com uma formação acadêmica: são intelectuais interculturais, que fazem a mediação entre os conhecimentos originários de seus povos e os conhecimentos da ciência moderna que predomina na academia. Mas me instiga também compreender se a presença indígena reverbera neste espaço de produção de conhecimentos que é a pós-graduação; se efetivamente ocorrem movimentos interculturais, em que a academia absorve conhecimentos indígenas e se modifica em sua estrutura curricular. Há um movimento nas próprias instituições de ensino superior para que a diversidade seja incorporada e efetive uma educação intercultural, equitativa e respeitosa. No Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGEDU/UFRGS, o primeiro estudante indígena de mestrado ingressou em 2011, anterior às Ações Afirmativas (AAf), criadas em 2016. Desde então já foram diplomados 11 mestres e 03 doutores e, atualmente, há um grupo significativo de estudantes destes povos cursando mestrado (04) e doutorado (04). Destes doutores e mestres formados, um pertence ao povo Guarani Nhandewa, uma ao povo Kubeu, um ao povo Xokleng; os demais pertencem ao povo Kaingang. Contudo, nos atemos para que os movimentos que acolhem a presença dessa diversidade nos espaços acadêmicos também se assegurem em incorporar “las cosmovisiones, valores, conocimientos, saberes, sistemas lingüísticos, formas de aprendizaje y modos de producción de conocimiento de dichos pueblos y grupos sociales” (III CRES 2018, p. 8), reconhecendo e valorizando outras epistemologias. É esse movimento que impulsiona o presente trabalho, relatando uma pesquisa em andamento, que busca prescrutar se a presença de pesquisadores/as indígenas no PPGEDU/UFRGS, com suas cosmovisões, valores, conhecimentos, saberes e línguas, formas de aprendizagem e modos de produção de conhecimento ecoam na instituição; se o PPGEDU/UFRGS reconhece, valoriza e se modifica ao ser habitado por epistemologias, modos de aprendizagem e desenhos institucionais próprios dos povos indígenas. Um dos objetivos da investigação em curso é identificar a presença de mestrandos e doutorandos indígenas no programa, período de permanência (ingresso, qualificação do projeto e defesa final), linhas de pesquisa e professores(as) orientadores(as), bem como a sua produção científica (teses, dissertações e outras publicações). Para tanto foram consultados documentos da Secretaria do PPGEDU, bem como as próprias dissertações e teses já publicadas no Lume UFRGS, repositório digital de publicações. Em relação a esse objetivo, observamos que anterior a política de cotas os cinco vínculos indígenas no PPGEDU ocorreram numa mesma linha de pesquisa e que 3 dissertações e uma tese foram orientadas pela mesma professora, que trabalha com educação indígena na pesquisa-ensino-extensão; outro mestre foi orientado por uma professora da mesma linha e grupo de pesquisa. A partir da adoção de AAf pelo programa, cuja norma diz que todas as linhas de pesquisa devem oferecer, no mínimo de 30% de vagas reservadas, a presença indígena se expandiu: os 22 estudantes indígenas que ingressaram no PPGEDU no período de 2011 a 2024 foram ou estão inseridos em 6 diferentes linhas, envolvendo 8 professores, sendo que apenas dois destes trabalham especificamente com povos indígenas em suas pesquisas. Esse é um dado importante para a expansão do tema na academia, visto que orientadores precisam se aproximar dos povos indígenas e, nesse sentido, há relatos de aprendizagens significativas, inclusive de professores orientadores visitando territórios indígenas para conhecer, in loco, a vida, a educação e a escola de seus orientados. Há o registro de um professor, que declarou: “orientar a mestranda indígena foi equivalente a um pós-doutorado”, visto as aprendizagens realizadas. Outro aspecto a destacar é que o tempo de conclusão de curso dos 11 mestres e 3 doutores foi dentro do prazo estabelecidos pelo PPGEDU, observando-se o mesmo em relação ao tempo de qualificação de projeto, tanto de dissertações, quanto de teses. Embora esse dado tranquilize o programa, pois o mantém na média nacional quanto ao tempo de conclusão de curso, há também uma preocupação ao se refletir acerca do acolhimento dos modos de vida. Certamente, submeter um estudante indígena aos prazos apertados que são impostos pela academia é uma forma de homogeneização, de “branqueamento”, já questionado pelos estudantes da graduação, indicando que um dos maiores desafio é o de “submeter-se ao modelo temporal da universidade e afastar-se do modo como vivenciam o tempo em sua cultura originária”, visto que, se negarem o tempo acadêmico podem não alcançar êxito no acompanhamento do curso (Bergamaschi; Doebber; Brito, 2017, p. 50). Se os estudantes indígenas fossem escutados desde seus modos de vida originários, diriam que o tempo para a conclusão de curso deveria ser dado pela necessidade de estabelecer uma relação afetiva com a instituição, com professores, técnicos e colegas estudantes, assim como com o tema que estão pesquisando. Em relação aos temas abordados em suas teses e dissertações, apresentamos aqui os títulos de suas pesquisas, assim como o curso, o ano de defesa e o povo ao qual pertencem. Tabela 1 – Teses e dissertações de autoria indígena no PPGEDU/UFRGS A escolha por trabalhar com temas da educação própria e da escola mostra o quão necessárias são pesquisas que se debrucem a compreender melhor como cada povo pensa e sente a sua educação e como a mesma se relaciona com a escola. Por outro lado, trazer esses temas para o seio de um programa de pós-graduação em educação é também a oportunidade de divulgar a pluralidade de concepções; é mostrar à sociedade não indígena que existe uma educação originária e que a escola foi implantada nos territórios indígenas como ação de colonização, visando a integração dos diferentes povos à sociedade nacional. Mas, sobretudo, povoar o programa de pós-graduação com outras epistemologias. E isso é o que mobiliza a continuidade da pesquisa, qual seja, buscar possíveis movimentos de alteração curricular causada por esta presença; verificar, nas listas de ofertas curriculares de cada semestre, seminários que abordam educação indígena e ou interculturalidade, identificando nos planos de ensino, autores(as) indígenas sugeridos para leituras, assim como de componentes curriculares que abordam outros temas, mas que indicam fontes de sabedorias de povos originários. REFERÊNCIAS BERGAMASCHI, Maria Aparecida; DOEBBER, Michele; BRITO, Patrícia. Estudantes indígenas em universidades brasileiras: um estudo das políticas de acesso e permanência. RBEP, Brasília, n. 251, 2018, p. 37-53.
https://doi.org/10.24109/2176-6681.rbep.99i251.3337 III CRES. Conferencia Regional de Educación Superior para América Latina y el Caribe, Declaración Córdoba, Argentina. (2018).
https://www.iesalc.unesco.org/2019/02/20/declaracion-final-de-la-iii-co… MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.