DISCURSO DIDÁTICO PELA FILOSOFIA DA LINGUAGEM Introdução Ao considerar que as práticas pedagógicas constituem fenômeno a ser perscrutado pela Didática, no sentido de a Didática estar voltada para seu objeto de estudo próprio e peculiar, este ensaio, valendo-se da filosofia analítica e da lógica simbólica, procurou analisar a linguagem dessas temáticas e a forma como elas podem auxiliar a Didática a se utilizar de um exame crítico das regras usadas na formulação dos enunciados. Nesse sentido, busca-se trazer determinadas regras lógicas, tomadas de empréstimo de outros universos discursivos, com outras características, a fim de auxiliar a Didática a definir consistente e verdadeiramente uma linguagem didática. Didática como Ciência da Instrução Magda Becker Soares (Soares,1976, p. 146) nos chamou à atenção para como a Didática não vinha sendo considerada uma ciência, pois “[...] a Didática não se atribui a si mesma um objeto de estudo próprio, não se preocupa com o conhecimento dos fenômenos sobre os quais pretende atuar e que deveriam constituir o tema de suas reflexões”. Assim, de acordo com ela, nenhuma “[...] ciência há que estude as reais operações de instrução na sala de aula tal como verdadeiramente se desenvolvem, para que, a partir de sua descrição, da identificação objetiva de seus compromissos, sua estrutura, seus processos, se construísse uma ‘ciência da instrução’” (Soares, 1976, p. 147). Como a Didática não tem linguagem própria, o que não lhe permite exercer reflexão sobre o fenômeno que lhe é peculiar, para Soares (1976), o inventário léxico do discurso didático é bifronte, pois ora a categoria do vocábulo utilizado – como discurso didático – é pragmática e prescritiva, ora esse discurso, ao pretender teorizar e expressar os seus fundamentos e pressupostos, realiza a importação de estruturas de pensamento próprias de outras áreas do conhecimento. Concordamos com os argumentos expostos por Soares (1976), mas discordamos dela quando afirma que a linguagem de diferentes ciências se ajusta à hipótese de Sapir (e Whorf) quanto à proposta deles para a linguagem de diferentes culturas, ao sugerirem que o sistema linguístico em que pensamos influi sobre a forma de nossa percepção da realidade. Nas palavras de Sapir (1967 apud Ullmann, 1967, p. 252), os seres humanos estão quase inteiramente à mercê da língua particular que é o meio de expressão de sua comunidade [...]; o “mundo real” é em grande parte construído sobre os hábitos de linguagem do grupo [...] Vemos e ouvimos e experimentamos tal como o fazemos em grande parte porque os hábitos de linguagem de nossa comunidade predispõem-nos a certas opções de interpretação. Por sua vez, Whorf (1964), ao desenvolver as ideias de Sapir, convencido de que toda língua “oculta uma metafísica” (Soares, 1976, p, 157) que predetermina a visão do mundo dos que a falam, afirma: O sistema linguístico básico de cada língua não é meramente um instrumento de reprodução de ideias, mas é, sobretudo, um formador de ideia, o programa e guia para a atividade mental do indivíduo [...]. Dissecamos a natureza segundo as diretrizes fixadas por nossas línguas nativas. As categorias e os tipos que isolamos do mundo dos fenômenos não os encontramos ali porque saltam à vista de qualquer observador [...]. Certamente a natureza em pedaços, organizamo-la em conceitos e lhe atribuímos significação tal como o fazemos primordialmente porque somos parte de um acordo para organizá-la dessa maneira, sendo este um acordo válido para toda nossa comunidade linguística e que está codificado na estrutura de nossa língua (Whorf, 1964, p. 62) A partir desse raciocínio, Soares (1976, p. 158) avalia que a Didática, ao tomar de empréstimo a linguagem empregada por outras ciências, quando pretender teorizar e expressar os seus fundamentos e pressupostos, ela certamente também estará “[...] importando estruturas de pensamento que, em última análise, distorcem sua visão da realidade que lhe é própria e sua apreensão dos fenômenos que lhe são peculiares”. Para a autora, então, as outras ciências podem trazer colaborações à Didática, mas ela repudia a substituição do pensamento didático por pensamentos peculiares a outras ciências. Em busca de um modo próprio de pensar o campo fenomenológico da Didática, a ciência da instrução precisaria forjar sua própria linguagem a fim de se tornar, de fato, uma ciência? Crença e Conhecimento Sabemos, pela história da filosofia ocidental, que o conhecimento e a faculdade de conhecer o mundo foram alguns dos tópicos mais discutidos, desde o diálogo socrático Teeteto (Platão, 2015). A filosofia moderna é dividida entre racionalistas e empiristas: de um lado aqueles que consideravam a razão como fonte do conhecimento, tais como Descartes, Espinosa e Pascal; e de outro os empiristas, notavelmente os ingleses David Hume e John Locke, que queriam saber se o conhecimento a priori era possível ou não, e Kant, que mudou completamente o rumo da filosofia, mas não seu foco epistêmico, no saber. A preocupação permaneceu, essencialmente, com o conhecimento em si, não como estado de crença, tampouco se questionava o princípio aristotélico de conhecimento como crença verdadeira e justificada, não havia muito interesse em crenças que não correspondessem à realidade, ou ambíguas, ou mesmo nas crenças ambivalentes que um sujeito doxástico poderia ter. A semântica de mundos possíveis de Kripke (1959) foi um divisor de águas, mas a terminologia “mundos possíveis” deve ser tomada com muita cautela ‒ não deve ser entendida como um termo místico ou que evoque física quântica ‒, cautela que o próprio Kripke (1980 apud Stalnaker, 2011) sugeriu, e até se arrependeu do uso do termo “mundos”, sendo ele defensor de um realismo modal, mas foi o termo que ficou. Seu objetivo não foi outro se não o mesmo dos outros filósofos da linguagem que empregaram a lógica simbólica a fim de esclarecer uma faceta da linguagem comum. Entendam-se mundos como situações ou cenários hipotéticos possíveis; a lógica modal permite simbolizar modos nos quais p e ¬p podem ser verdadeiros de formas consistentes. Se [◊p], é possível que p, existe ao menos um mundo no qual p é verdadeiro; se [◊¬p], existe ao menos um mundo em que p não é verdadeiro, mas se [□p], é necessário que p seja verdade, em qualquer mundo possível (w), contanto que haja ao menos um mundo possível: (1) ∀w:◊w⟺ ∃(w^'=w)∧□(w^' ) (2) ∃〖(w〗_1 ):w1{□ p}=w∴ ◊p E podemos entender isso como uma formalização de nossos enunciados em linguagem natural sobre planos e prognósticos sobre eventos futuros, ou eventos presentes. Assim, é possível afirmar, pelos estados de crença na lógica formal, que isso permite a um sujeito pensar logicamente a respeito e mesmo dominar conhecimento, independentemente da sua realidade ‒ ou indiferentemente a ela ‒, de forma logicamente válida, ainda que com premissas não necessariamente verdadeiras, e mesmo aquelas que já se sabe de antemão serem inverídicas (tal como é em complexas teorias sobre obras de literatura e cinema), e mesmo aquelas que se abominam. Em um rápido exemplo disso, em um estudo, um grupo de negadores do aquecimento global (Kahan, 2015) ‒ que entendiam perfeitamente os argumentos que descrevem o fenômeno ‒ não se mostrou ignorante nem irracional, foi capaz de demonstrar que entendia sem acreditar e vice-versa, com o detalhe de que as perguntas foram colocadas não como fatos, ou como saberes, mas como uma crença dos cientistas climatologistas. A lógica modal epistêmica e doxástica de Hintikka (1962) permite até mesmo esses estados especiais, de sujeitos doxásticos que mantêm crenças sobre a realidade dos fatos. Dessa forma, muitos dos objetos que ocupam nosso inventário ontológico são simples e consistentes, além de serem facilmente comunicáveis: a memória do que significam as palavras “moeda” ou “carteira”, por exemplo, também é uma predisposição a um certo padrão de atividade neuronal a se ativar, mas previsível e substituível. A língua é fundamental para a cognição, mas não sinônimo dela. Cada linguagem humana totalmente expressiva faz o mesmo para seus falantes do que outra linguagem para falantes de outro lugar, com signos ‒ mas não a proposição ‒ diferentes. Em sua invisibilidade, então, o estado de crença de um sujeito é perfeitamente consistente, e a capacidade de enunciar sentenças verbais correlatas, o único critério para designar o estado de crença de um sujeito doxástico. Até mesmo as crenças sobre o que se passa em um universo fictício podem ser consistentes, tal como é em análises de obras de ficção. Mas nem sempre uma crença, sobre o mundo real ou não, é consistente. Assim, isso vale para aquelas crenças mantidas sobre o mundo real, mas cognição e linguagem não evoluíram para adquirir estados de crenças verdadeiros, avaliados friamente pela lógica e com a objetividade mantida, mas sim a um estado vantajoso de sofisticação, porém antinatural, e que requer disciplina. E, mesmo assim, estados de crença ambivalentes surgirão. A maioria das questões importantes não possui uma resposta exata. É tentador pensar em crenças como informações discretas e ordenadas que o sujeito possui gravadas em sua mente, tal como dados dispostos em linhas e colunas em uma planilha do programa Excel, talvez até mesmo com lugares físicos definidos em seu cérebro. Em algumas circunstâncias, assumir essa perspectiva é suficiente. Tal intenção é muito mais complicada, uma vez que a crença influencia, mas não determina por si só a ação, e não existe fisicamente como um dado discreto, mas sim articulada em uma teia conceitual em que só faz sentido quando relacionada a outras. É fácil formar estados de crença autocontraditórios. Descendo para uma camada de abstração abaixo da filosofia da linguagem, na neurolinguística constatamos que a própria linguagem evoluiu gradativamente, assim como o substrato físico do qual depende (cordas vocais, tímpanos, córtices temporais etc.), no sentido de se tornar mais expressiva. É importante salientar que "linguagem" não é um fenótipo simples, não existe um gene da linguagem. Como apontam os linguistas Pinker e Jackendoff (2005) a linguagem só é possível pela atividade síncrona de diferentes regiões do cérebro e outros órgãos, não é possível reduzi-la a uma de várias faculdades. Cada órgão necessário para a linguagem chegou à sua forma por mutações vantajosas à manutenção da vida e reprodução, a adaptação evolutiva, bem como pela exaptação, quando uma nova pressão evolutiva faz com que partes do corpo já existentes assumam funções diferentes daquelas nos quais surgiram. A linguagem não surgiu - não é sua causa derradeira - para relatar fatos verdadeiros, e a fala interna, ou introspecção, não pode ter surgido antes de seu uso mais primitivo, por favorecer a subsistência e reprodução humana em tribos, o nicho evolutivo humano (ibid.). O desenvolvimento de diversos idiomas, e a eventual invenção da escrita, que permitiu à espécie humana evoluir seu conhecimento para além do que seria possível pela genética: por meio da educação e da construção da cultura. O puro instinto de sobrevivência, assim como a violência e outras tendências antissociais, e mais instintivos, podem sobrepujar o uso da linguagem para a busca da verdade. É preciso educação, disciplina, e um ambiente social favorável à verdade para que o indivíduo assuma com maior frequência a verdade, como segunda natureza. Apesar de ter outros usos, esses foram os usos pelos quais ela surgiu na história evolutiva humana, selecionados para resolver problemas imediatos, com restrições de recursos e tempo ‒ desenvolveu-se não só naturalmente mas culturalmente, e precisou ser apreendida dentro de um contexto social (Pinker; Jackendoff, 2005). Teorias que postulam a linguagem como determinante do pensamento ‒ hipótese do determinismo linguístico ‒, inspiradas pelos trabalhos de E. Sapir e de seu discípulo B. Whorf (Pinker, 2002), trocaram a ordem do que determina o quê, e tentativas de engenharia social por meio de mudanças de vocabulário e eufemismo são fúteis, pois os eufemismos mudam, seus referentes e a percepção acerca deles não (Pinker, 2002). À Guisa de Conclusão Em um pequeno ajuste ao que havia sido escrito Soares (1976), o que buscamos expor neste ensaio foi uma colaboração entre as ciências no sentido de a Didática constituir-se como uma ciência voltada para seu objeto de estudo próprio e peculiar – o fenômeno da instrução – a fim de estabelecer e refletir em uma linguagem própria, consistente e verdadeira as suas bases teóricas. Nesse sentido, para não confundirmos uma questão filosófica real com um problema meramente técnico, convém fiar-nos à lógica simbólica quando da elaboração de enunciados consistentes e verdadeiros, tendo em vista que a Didática é um campo de estudo válido, com um componente teórico e um prático, os quais são indistinguíveis. Ainda sobre a linguagem, para defini-la precisamente a fim de fundamentar uma ciência, concordamos com Pinker (2002), quando argumenta veementemente de maneira contrária à teoria de Sapir-Whorf de determinação linguística. REFERÊNCIAS HINTIKKA, Jaakko. Knowledge and belief: An introduction to the logic of the two notions. Ithaca: Cornell University Press, 1962. JACKENDOFF, Ray; PINKER, Steven. The nature of the language faculty and its implications for evolution of language (Reply to Fitch, Hauser, and Chomsky). Cognition, v. 97, n. 2, p. 211–225, 2005. Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2023. KAHAN, Dan M. Climate‐Science Communication and the Measurement Problem. Political Psychology, v. 36, n. S1, p. 1–43, 2015. Disponível em:
https://doi.org/f64dcd. KRIPKE, Saul A. A completeness theorem in modal logic. Journal of Symbolic Logic, [S. l.], v. 24, n. 1, p. 1-14, 1959. DOI:
https://doi.org/fpvhv7 PINKER, Steven. The blank slate: the modern denial of human nature. Nova Iorque: Viking, 2002. PINKER, Steven; JACKENDOFF, Ray. The faculty of language: What’s special about it? Cognition, [S. l.], v. 95, n. 2, p. 201-236, 2005. DOI:
https://doi.org/b6jc2z PLATÃO. Teeteto. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 2015. SOARES, Magda B. A linguagem didática. In: NAGLE, Jorge (org.). Educação e Linguagem: para um estudo do discurso pedagógico. São Paulo: EDART, 1976. p. 145-160. STALNAKER, Robert. Possible worlds semantics: Philosophical foundations. In: BERGER, Alan (org.). Saul Kripke. [S. l.] : Cambridge University Press, 2011. p. 100-116. ULLMANN, Stephen. Lenguaje y Estilo. Madri: Aguilar, 1967. WHORF, Benjamin L. Science and linguistics. In: ALLEN, Harold B. Applied English Linguistics. 2. ed. Nova Iorque: Appleton-Century-Crofts, 1964. p. 64.