Diagnósticos e políticas de currículo

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Abstract

Em uma perspectiva pós-estrutural, esse trabalho propõe uma reflexão sobre o lugar dos diagnósticos nas políticas de currículo, a partir das noções "acontecimento" e "tradução", da filosofia desconstrucionista de Jacques Derrida; além de "significante flutuante" e "cadeias discursivas", da Teoria do Discurso de Laclau. Consideramos também a noção de "performatividade" em Stephen Ball, com vistas a pensar sobre as correlações que se estabelecem entre os diagnósticos construídos por meio de dados estatísticos discricionais – extraídos principalmente de avaliações - e os documentos da educação que se afirmam como necessários a partir desses dados. Esperamos que esse trabalho contribua para o enriquecimento dos estudos em Políticas Curriculares, refletindo sobre possibilidades de modificar as formas de ler as relações entre currículo e avaliação. Partindo de uma perspectiva em que as fronteiras entre teoria e prática são borradas, entendemos que as políticas de currículo não se constituem apenas fora do âmbito da escola, nas instâncias governamentais, na assinatura dos documentos. Essas políticas vão sendo (re)significadas nas vivências da escola e a cada leitura feita dos documentos da educação. Nesse sentido, quando dizemos que entendemos Educação como acontecimento, pensamos acontecimento no sentido que o filósofo Jacques Derrida (2001; 2003a; 2004) dá a esse significante. Segundo esse filósofo, o acontecimento abala o horizonte conceitual e a estrutura estagnada. É o que surge e, ao surgir, surpreende e suspende a compreensão já dada; pois, é aquilo que não compreendemos ainda. Isso aponta para o limite do experimentável, do compreensível, do reconhecimento, da identificação e da descrição. A educação é acontecimento, no sentido de que não é teleológica, seus efeitos não são passíveis de serem totalmente calculados, tem na sua constituição a indecidibilidade e a imprevisibilidade (LOPES, 2018; PINTO, 2024). Dessa forma, talvez com vistas a atender aos interesses da sociedade e do mercado de trabalho, tentar reduzir a educação a uma lógica de delivery (BALL, 2016) é, além de uma ilusão e de uma impossibilidade, tentar esvaziá-la da dinâmica de um processo vivo e em constante movimento, desconsiderando que mesmo esses interesses não são fixos, nem transparentes e nem homogêneos. Quando nos referimos ao significante tradução (DERRIDA, 2000; 2006), entendemos Tradução como uma tarefa relevante e im-possível que abrange não só traduções entre línguas diferentes como leituras dentro de uma mesma língua. Faz parte do ser leitor o traduzir sempre, de forma que os significados não são contidos por uma origem. Nesse sentido, Derrida (2000) destaca a “[...] a necessidade e a impossibilidade da tradução, a dívida inflexível e impagável [...] tarefa possível/impossível imposta ao tradutor”. Não de forma dissociada de acontecimento e tradução, a noção significante flutuante, como nos traz Laclau (2011, p. 66), diz respeito ao fato de “que tanto uma sobredeterminação quanto uma subdeterminação de significados impediram fixá-lo plenamente”. Os sentidos dos significantes nunca se fecham, eles se disseminam ininterruptamente, porque os sentidos são relacionais e se articulam em cadeias discursivas em que os significantes carregam em si os rastros dos outros significantes dessa cadeia. Um significante tem o seu significado adiado, no sentido de que não possui nenhum significado em si mesmo, o seu significado é contingente e acontece a partir da relação desse significante com outros significantes. Queremos, a partir das noções que trouxemos, refletir sobre os sentidos dos diagnósticos nas políticas de currículo. Entendendo cada diagnóstico consolidado como um texto passível de tradução e não passível de reapresentar ou presentificar uma realidade imóvel, pronta para ser representada, dissecada, analisada. Objetivamos refletir sobre as formas como esses diagnósticos são significados nos documentos das reformas educacionais que tiveram vez em muitos países, nas últimas décadas. Por fim, não desconsideramos a importância da avaliação. Queremos pensar em novas maneiras de lidar com esse processo, de lidar com a alteridade, fugindo da “expectativa irrealizável de controle total sobre os sujeitos” (FIGUEIREDO; PEREIRA, 2024, p. 5). Fala-se muito em justiça na educação, configurada como o acesso igualitário de todos a determinados conhecimentos, como se esses conhecimentos constituíssem uma espécie de senha que destrava todas as dificuldades políticas e sociais. Nesse contexto, a escola é significada como o locus de transmissão do conhecimento necessário a todos. E, nesse movimento calculado, em que o conhecimento é tido como algo dado, pronto e passível de ser acessado, apaga-se a dimensão do acontecimento em que toda produção de conhecimento e toda comunicação estão inseridas. (DERRIDA, 2012). Sendo assim, se a educação pudesse ser resumida a uma sucessão calculada de eventos, ela desconsideraria as singularidades e os acontecimentos, sem os quais, na perspectiva em que operamos, não há educação. Referências bibliográficas BALL, S. J.; M. Maguire.; BRAUM, A. Como as escolas fazem políticas: atuação em escolas secundárias. Tradução: Janete Bridon. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2016. DERRIDA, J. D. Uma certa possibilidade im-possível de dizer o acontecimento. Revista Cerrados, v. 21, n. 33, 2012. ______. Papel Máquina. Tradução: Evando Nascimento. São Paulo: Estação Liberdade, 2004. ______. Políticas da amizade. Tradução: Fernanda Bernardo. Porto: Campo das Letras Editores S.A., 2003a. ______. O monolinguismo do outro ou A prótese da origem. Tradução: Fernanda Bernardo. Porto: Campo das Letras – Editores S.A., 2001. ______. O que é uma tradução relevante. Tradução: Olivia Niemeyer Santos. In: Alfa. São Paulo, 44 (num. esp.), 13-44, 2000. DERRIDA, J.; FERRARIS, M. O gosto do segredo. Roma: Fim de século – Edições Sociedade Unipessoal Ltda, 2006. FIGUEIREDO, Millena Soares; PEREIRA, Talita Vidal. Avaliação como um monstro?. Revista Espaço do Currículo, v. 17, n. 1, 2024. LACLAU, E. Emancipação e diferença. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2011. LOPES, A. C. Sobre a decisão política em terreno indecidível. In: Pensando a política com Derrida: responsabilidade, tradução, porvir / Alice Casimiro Lopes, Marcos Siscar (orgs.). São Paulo: Cortez, 2018. PINTO, M. C. Ocupações de escolas como acontecimento: uma democracia por vir (tese). Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - ProPEd/UERJ, 2024.

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  • Área Temática 7: Politicas Educacionais
Keywords
Diagnósticos, Avaliação, Políticas de currículo