DANÇAS CIRCULARES E EDUCAÇÃO: REENCANTANDO CORPOS A PARTIR DO PRINCÍPIO DA CIRCULARIDADE Vivemos em uma sociedade que compartimentaliza e hierarquiza os saberes e aposta em relações meritocráticas e consumistas. Ela também produz, corpos cansados, alienados e esgotados, como nos alerta o artista e professor Danilo Patzdorf (2021). Aposto no fortalecimento desse fio condutor do propósito da circularidade como princípio e no reencantamento dos corpos que nos coloca em relação: conosco, com as outras pessoas e com o mundo. Para isso, buscarei dialogar com autores como Hooks (20021) Freire (1992), Ostetto (2014), Guedes (2019), Han (2021), Dubner (2015), Wosien (2012). O tema da pesquisa em andamento aborda o início da minha jornada como professora da Educação Básica na Rede Municipal do Rio de Janeiro, em 2001. Deparei-me com um cenário desafiador; turmas com grande número de alunos, falta de recursos materiais e territórios violentos, além das relações serem pautadas em dominação e poder (Foucault, 1975), por meio de práticas docentes verticalizadas. Iniciante que era, fui me sentindo isolada, sem ânimo, cansada e adoecida. Estudos recentes realizados em 2024 pelo grupo de pesquisa o qual faço parte, apontam que tais realidades têm deixado cada vez mais professoras/es adoecidos. Percebi minha saúde mental ameaçada e, em decorrência disso, comecei a buscar possibilidades para lidar com minha realidade. Me matriculei num curso vinculado às artes, com propostas de consciência corporal, experiências estéticas, e vivências com diversas materialidades. Essas experiências abriram um leque de possibilidades e tive o prazer de conhecer as danças circulares sagradas. A Dança Circular faz parte das Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICS) e permite mais consciência do corpo, abrindo portas para potencializar o foco, a concentração, flexibilidade e atenção. Em tempos de tanto individualismo e isolamento dançar de mãos dadas, numa vivência simbólica do círculo, conecta com a energia de partilha e fraternidade que habita em cada um de nós, resgatando valores comuns a toda a humanidade. A pesquisa tem como objetivo investigar as rodas de Danças circulares que acontecem uma vez por semana no Centro Cultural Venha Conosco desde o ano de 2022, com um total de 8 a 12 participantes. Intenciono aprofundar os estudos a partir dos registros escritos e fotográficos que deles se originam e da proposição de rodas de conversas com as/os participantes. Os fios serão tecidos por meio da Pesquisa Narrativa (Conelly; Clandinin, 2015) e autobiográfica (Passeggi, 2011; Souza, 2011; Vicentini, 2011), pois é no entrelaçamento entre as vivências das/dos participantes e as minhas que a pesquisa acontece e me forma, de modo que também dialoga com a Pesquisa Formação (Josso, 2012). Sendo assim, a pesquisa se debruçará a observar como as rodas de Dança Circular podem mobilizar as/os participantes a estarem mais presentes e menos ansiosas/os, a partir da ampliação da percepção de si e das relações, de modo a refletir se e como as Rodas podem contribuir na promoção da saúde e do bem-estar inspirada nas experiências estéticas e propostas que tragam esperança. Durante a pesquisa estou tendo a oportunidade de revisitar minha história e os caminhos pelos quais cheguei a essa temática representam uma compreensão acerca dos meus percursos formativos, constituídos por meio de um conjunto de experiências que me fizeram e tem feito quem sou e.percebendo que investir no campo do sensível e em espaços de convívios, não só me afasta do estado de anestesiamento, como ativa meu potencial criativo. Foi a partir dessa percepção que me especializei nas danças circulares sagradas, me habilitando assim para lançar mão desse recurso nos diversos lugares e cargos que atuei enquanto professora, coordenadora pedagógica e gestora de Espaços de Educação Infantil. Em todos os encontros o grupo vive a experiência estética, de criar um centro coletivo. E no final compartilhamos sobre as experiências vividas Segundo Han (2021, p. 24),” os rituais criam um saber e uma memória corporalizados, uma identidade corporalizada, uma comunhão corporal”. Não ocorre depressão em uma sociedade determinada pelo ritual. A alma é totalmente absorvida, esvaziada, pelas formas rituais. Rituais contêm mundo. Produzem uma relação forre com o mundo. Na origem da depressão ao contrário, está uma relação consigo mesmo exageradamente tensa. Nem se é capaz de sair de si mesmo, de se ultrapassar em direção ao mundo e acaba-se encapsulado em si mesmo. As Danças Circulares têm diversos símbolos importantes. O primeiro que destaco é o posicionamento das mãos que são entrelaçadas umas às outras, de modo que com uma mão a gente dá e com a outra recebemos, incorporando as propostas de trocas saudáveis nas relações. O segundo é o caminhar em unidade, com os passos sincronizados para um propósito comum. E por último, o centro da roda, que será observado de forma especial ao longo dessa pesquisa. O centro é um núcleo que se localiza bem no meio do movimento, de onde parte a conexão com o universo fora de nós. Ele é nosso lar de conforto, o espaço que acolhe e amplia a visão, uma referência, a casa que sustenta, a certeza de um ponto de luz que nunca se apagará. Como nos diz Dubner (2015, p. 18) Nas Danças Circulares, o centro tem esta mesma função, porém relaciona-se ao coletivo da roda. Há um ponto que materializa a equidistância e evoca a união. De cada lugar da roda, o olhar é diferente. A cada passo o centro vai se transformando a partir de onde nos posicionamos. Mas uma coisa é certa: apesar do movimento, das inquietações, dos desafios e dos momentos de confusão lá está ele: intacto, imóvel, pleno e belo. Como nos diz Freire (1992), “A desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo onde não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo”. Dentro dessa perspectiva de espaços recriadores do mundo, acredito que de mãos dadas, é muito melhor, pois como nos diz Hooks (2021, p. 15), “quando pequenas comunidades organizam sua vida em torno de uma lógica amorosa, todos os aspectos do dia a dia podem ser proveitosos para todo mundo”. Essa pesquisa não se propõe a pensar a “Ciência enquanto metódica, exata, e neutra, no qual se expurga os sentimentos e sensações.” (Guedes; Ribeiro, 2019); mas sim, como nos diz Ostetto (2014, p. 61), em “um processo profundamente marcado pela escuta, pela espera e pela utilização de outras linguagens, envolto em busca e mistério, justamente características da experiência estética” pois, essa metodologia parte da proposta de reunir sentidos, um caminhar de investigação diretamente marcado pelo encontro, pela escuta, pela espera, percepção e pelo inesperado. Percorrer a errância na pesquisa é movimentar-se em torno do que só se revela ao tempo certo: cada passo na espiral da investigação, leva não apenas à produção de dados, mas à constituição da pessoa-pesquisadora que venho me tornando. Hoje, tenho a oportunidade de cursar um mestrado e pesquisar sobre/com o que me move e motiva, me levando a crer na potência do coletivo, nas mãos dadas, na troca, no sentimento, no encontro “olho no olho”. O discurso de fim de mundo, de que já não tem mais jeito não tem que nos servir, pois a coletividade traz a sensação de acolhimento de que precisamos; o apoio da roda, a mão na mão, o ombro a ombro do companheiro, a consciência de que o que eu faço interfere diretamente na vida de quem está a meu lado. Trazer para o corpo a consciência de que há esperança (Freire, 1992), e que possíveis soluções estão nesses micros movimentos de agir nas frestas, em grupo com novas práticas sociais, novas práticas estéticas, novas práticas de si na relação com o outro (Guattari, 2001). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: CLANDININ, D. Jean; CONENELLY, F. Michael. Pesquisa narrativa: experiência e história na pesquisa qualitativa, tradução : Grupo de Pesquisa e Educação de Professores ILEEL/UFU; 2a educação rev. Uberlândia EDUFU, 2015. 2015. DUBNER, Deborah. O Poder terapêutico & integrativo da dança circular. Itu, SP: Ottoni Editora, 2015. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir, nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 20a Edição. Petrópolis, Editora Vozes, 1987. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução Maria Cristina F. Bittencourt. 11a edição. Campinas: Papirus, 2001. GUEDES, Adrianne Ogêda; RIBEIRO, Tiago (ORGS). Pesquisa, alteridade e experiência: metodologias minúsculas. Rio de Janeiro: Ayvu, 2019. HAN, Byung-Chul. O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2021. HOOKS, Bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021. JOSSO, Marie-Christine. O corpo Biográfico: corpo falado e corpo que fala. Educ. Real., Porto Alegre, v. 37, n. 1, p. 19-31, jan./abr. 2012. OSTETTO, Luciana Esmeralda. Danças circulares na formação de professores: a inteireza de ser na roda. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2014. OSTETTO, Luciana Esmeralda, A pesquisa em círculos tecida ensaios de metodologia errante.In GUEDES, Adrianne Ogêda; RIBEIRO, Tiago (ORGS). Pesquisa, alteridade e experiência: metodologias minúsculas. Rio de Janeiro: Ayvu, 2019. PASSEGI, Maria da Conceição, SOUZA, Elizeu Clementino de VICENTINI Paula Perin, Entre a vida e a formação: Pesquisa (auto)biográfica, docência e profissionalização. Educação em Revista | Belo Horizonte | v.27 | n.01 | p.369-386 | abr. 2011 PATZDORF, Danilo. Pequeno Manual de autocuidado para corpos esgotados. São Paulo: Letramento, 2021. RAMALHO, Ivone Priscilla de Castro. Escrita-vida: Um convite a poetizar a pesquisa em Educação. Revista Interinstitucional Artes de Educar, Curitiba, Brasil, n. 60, p. 93-105, abr./jun. 2016. I
https://periodicos.ufs.br/revisea/article/view. WOSIEN, Bernard. Dança: um caminho para a totalidade.Tradução de Maria Leonor Rodenbach e Raphael de HaroJunior. São Paulo: Triom, 2000.